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Língua Afiada

Redes sociais e a extinção das relações humanas

As redes sociais, impulsionadas pelas tecnologias móveis, ignoram o sistema pessoal de autocrítica e conferem a sensação de onipotência, com sérias consequências a nível social.

 

A comunicação digital está a colocar em perigo a comunicação verbal, especialmente entre os jovens, um estudo da Universidade de Michigan chegou à conclusão que alunos que passam muito tempo nas redes sociais, não só perdem o contato com a realidade, como perdem a capacidade de empatia e compaixão.

Esta falta de empatia faz surgir um novo tipo de vergonha, a vergonha da exposição e humilhação públicas por via das redes sociais, o motivo para o aumento significativo de bullying através da Internet, reside no facto de as pessoas sentirem que têm poder para publicar o que quiserem, como quiserem, sem consequências, não havendo preocupação com os sentimentos que as suas palavras causarão nos visados.

As redes sociais, impulsionadas pelas tecnologias móveis, ignoram o sistema pessoal de autocrítica e conferem a sensação de onipotência, com sérias consequências a nível social.

Uma foto que tiramos a um desconhecido numa situação caricata pode tornar-se viral, interferindo a uma escala global com a sua vida, arruinando completamente a sua autoestima e criando dificuldades na sua vida pessoal e social, familiar e profissional.

 

situações onde por receio de serem as próximas vítimas, jovens que recriminariam certo tipo de conduta acabam por contribuir para a sua propagação.

 

Estar atrás de um ecrã dá uma falsa sensação de proteção, faz com que as pessoas percam os filtros e ganhem uma “coragem” virtual que os faz ter atitudes e proferir declarações que não teriam e diriam se estivessem na presença das pessoas, pois a vergonha, o receio de uma reação seriam um travão e um controlo dos comportamentos e palavras.

Offline existem um conjunto de normais sociais, mais ou menos interiorizadas que se traduzem na aceitação de determinados comportamento e recriminação de outros, essas normas parecem ficar à porta da sociedade online, onde o bom sendo, a educação e o politicamente correto são substituídos pela noção de que nas redes sociais se pode dizer tudo o que se pensa.

Estes comportamentos são especialmente perigosos na pré-adolescência e adolescência, altura em que definimos a nossa personalidade e testamos a nossa forma de interagir com os que nos rodeiam, o receio de não ser aceite em determinado grupo aliado à noção de poder aumenta consideravelmente o efeito de contágio de certas publicações e comportamentos, situações onde por receio de serem as próximas vítimas, jovens que recriminariam certo tipo de conduta acabam por contribuir para a sua propagação.

 

o sentimento de bem comum foi subjugado pela cultura do eu, e a construção de relações duradoiras e estáveis deu lugar à satisfação instantânea e passageira do número de gostos e comentários.

Estamos perante dois problemas gravíssimos, se por um lado as pessoas cada vez mais ativas socialmente nas redes sociais demonstram falta de capacidade de se relacionarem pessoalmente, por outro lado essas mesmas pessoas estão a perder caraterísticas essenciais à construção de uma sociedade justa, compreensiva, coesa e feliz, o sentimento de bem comum foi subjugado pela cultura do eu, e a construção de relações duradoiras e estáveis deu lugar à satisfação instantânea e passageira do número de gostos e comentários.

 

a linguagem corporal tão importante como a escrita e a falada está em perigo de perder a sua importância

Paralelamente a esta crise de valores, a transição das interações sociais do real para o virtual cria ainda dificuldades ao nível da linguagem corporal, quando falamos com alguém não dizemos apenas palavras, todo o nosso corpo comunica, os gestos e as expressões que fazemos são um complemento essencial à comunicação, muitas vezes dizemos uma coisa e todo o nosso corpo comunica outra, é assim que percebemos que um familiar ou amigo que diz estar bem, não está, porque a sua linguagem corporal diz-nos o contrário.

As novas gerações ao relacionarem-se quase exclusivamente online, é comum ver jovens que estão lado a lado, mas que comunicam pelo telemóvel, rindo-se para os ecrãs e enviando constantemente mensagens uns para os outros, perderão essa capacidade de reconhecer e exprimir emoções corporais, a linguagem corporal tão importante como a escrita e a falada está em perigo de perder a sua importância, prejudicando grandemente a capacidade de as pessoas exprimirem e reconhecerem emoções.

 

A estas mudanças nos comportamentos sociais há ainda que acrescentar que apesar de as novas formas de comunicação serem em grande escala escritas, a capacidade de compreensão e interpretação de textos não acompanha esta tendência, pois há cada vez mais dificuldade em ler textos longos e explicativos e especialmente uma grande dificuldade em reter mais do que um dado do mesmo texto.

O consumo rápido de informação que se traduz na leitura do título e depois numa leitura na diagonal, não retendo, não analisando qualquer informação, não exercita a capacidade de compreensão, nem a memória, levando a erros de interpretação e julgamento, a par com a crescente dificuldade de distinguir conteúdo de publicidade e notícias verdadeiras de falsas.

 

O que hoje acontece é que não existe compreensão, mas existe muita interpretação e muita descontextualização.

 

Fala-se em problemas de interpretação, ler um texto e retirar dele uma interpretação sempre foi uma dificuldade, talvez porque o modelo de ensino da língua portuguesa não estimule a criatividade e pensamento crítico, mas para interpretar um texto é preciso primeiro compreende-lo, interioriza-lo, só depois disso é que podemos interpreta-lo com base nos nossos conhecimentos e experiência.

O que hoje acontece é que não existe compreensão, mas existe muita interpretação e muita descontextualização.

As pessoas estão a perder a capacidade de comunicação pessoal, as relações pessoais estão a ser substituídas por relações virtuais, empatia e compaixão, valores base de qualquer sociedade equilibrada, estão a desaparecer, a compreensão escrita deu lugar à interpretação sem critério e há um sentimento de impunidade dos comportamentos virtuais.

 

É este o caminho que queremos traçar?

O que nos espera?

Um futuro sem empatia, misericórdia, amizade, caridade, amor, calor humano, abraços, beijos, afetos?

É este o legado das novas tecnologias?

Um mundo frio, sombrio e desprovido de emoções reais?

Não há nada mais importante do que as relações humanas, são a estrutura da sociedade que sustenta tudo o resto, sem relações humanas caminhamos a passos largos para a extinção da humanidade para darmos lugar a seres ligados às máquinas, experienciando a vida dos outros sem nunca terem vivido a deles.

 

Quanto mais nos relacionámos virtualmente, quanto mais tempo passamos nas redes ditas sociais, menos seres sociais (humanos) somos.

 

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