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Língua Afiada

Adeus Dolores O’Riordan

Foram tantas as vezes que cantei as músicas dos Cranberries a plenos plumões, num pranto de lágrimas, em momentos de raiva, a celebrar vitórias, a espantar demónios, a festejar conquistas, foram a banda sonoro de momentos bons e maus, uma presença constante na minha adolescência.

A voz de Dolores O’Riordan era forte, quente, carregava a dose certa de fúria e conseguia ser doce e aconchegante.

Partiu demasiado cedo, demasiado nova, teria tanto ainda para dar ao mundo.

 

Em sua memória deixo-vos a minha música favorita da banda - "No Need to argue"

 

 

Adeus

Já muito escrevi sobre os blogs em geral e sobre este blog em particular, confessei ter perdido o encanto pelo blog e a verdade é que perdi.

A grande questão é que perdi o encanto pelos blogs em geral, porquê? Porque há mais blogs que leitores e os blogs mais parecem chats que blogs, é a nova forma de comunicar de uma comunidade, neste caso a do Sapoblogs, onde bloggers e leitores se misturam e onde se leem e comentam simultaneamente.

Essa troca de comentários e experiências há muito que saltou para fora dos blogs, as pessoas criaram relações extra blogs, há conversas, encontros, contruíram-se laços inquebráveis e especiais.

 

Não me canso de repetir que o melhor que o blog me deu foram as pessoas que me fez conhecer, não conheci ainda nenhuma pessoalmente, mas sinto que as conheço e que me conhecem melhor do que muitas pessoas que me veem todos os dias, mas que não me enxergam. Mas mentiria se dissesse que nunca esperei nada do blog, não o comecei com esse intuito, mas a certa altura cheguei a pensar que este pequeno projeto pudesse realmente resultar em algo mais substancial.

Pura ilusão. É impossível prever o que as pessoas gostarão ou não, e mesmo tendo a sorte de falar dos temas certos, da forma certa faltará ainda disseminar a mensagem, no meio de tantos bloggers talentosos é quase impossível singrar.

Depois há toda a questão do planeamento, da dedicação, há dias em que sou assaltada por uma vontade de me dedicar mais ao blog, mas na maioria dos dias limito-me a escrever sobre o que me apetece.

Não tenho propriamente dificuldade em escrever, basta colocarem uma página em branco à frente e a mente encarrega-se de a preencher, mas tenho dificuldade em manter um alinhamento.

 

A fase de encantamento terminou quando percebi que afinal o Língua Afiada é apenas mais um blog, devaneios narcisistas chegaram a cruzar-me a mente e fizeram-me pensar que talvez este blog fosse especial, acredito que seja especial, para um punhado restrito de pessoas que me são caras e a quem eu toquei de alguma forma.

Esses devaneios não surgiram do nada, foram alimentados por picos de visitas, picos esses que não foram da minha responsabilidade, mas da responsabilidade pessoas que não conheço e que de alguma forma pareciam valorizar o que escrevia.

Tinha consciência disso, mas quando os picos começaram a ser regulares um certo orgulho começou a crescer em mim, não poderia ser coincidência, alguma coisa de diferente haveria de ter este blog.

Os picos pararam, não culpo os outros por isso, a culpa não é de quem deixou de considerar os meus textos, mas sim inteiramente minha, que não fui capaz de reter os leitores.

 

Mais importante do que chegar a muitas pessoas é ter a capacidade de conquistar essas pessoas, de fazê-las voltar uma e outra vez até se sentirem em casa. Não tenho essa capacidade.

Por tudo isto o blog tem vindo a esgotar-se nele próprio em loop e em desalinho, consumindo-me demasiado tempo, enquanto escrevo este texto deveria estar a investir noutro projeto, um projeto com pernas para andar e que é efetivamente rentável.

Não sei como os outros bloggers gerem o seu tempo, mas no meu caso o blog consome-me demasiado tempo e não é por obrigação, é por gosto, gosto efetivamente de escrever e, como já escrevi, o blog tornou-se num vício, escrever, ler, comentar e responder, são demasiadas horas por dia a alimentar este vício.

A certa altura convenci-me que não poderia entrar em todos os projetos e aventuras que o blog me proporcionava, não foi fácil, mas era uma questão de disciplina, mas hoje o próprio blog em si desvia a minha atenção de coisas mais importantes, assuntos que não posso descurar.

 

Estive praticamente duas semanas sem entrar no blog, não veio daí nenhum mal ao mundo, não me senti menos preenchida, as pessoas que me fazem falta dos blogs estão disponíveis noutros locais, foi bom regressar, mas há um mundo muito grande fora daqui que precisa da minha atenção.

Tinha imposto a mim própria regras, regras essas que não consegui cumprir, percebi que enquanto escrever no blog estarei refém da vontade de estar sempre conectada a ele, basta ter por perto um dispositivo com ligação à Internet.

Sei que não tenho de escrever todos os dias, mas para mim é difícil não o fazer e quando a vontade de escrever fala mais alto do que as obrigações, está na altura de rever prioridades.

O blog não pode ser uma prioridade na minha vida, quando há tantas outras coisas importantes a precisar da minha atenção.

 

Há muito que evito escrever este texto, adiando sucessivamente o inevitável, não tenho tempo para ter um blog, para além do meu trabalho diário tenho dois projetos paralelos que requerem tempo, dedicação e ideias, o blog suga-me demasiado tempo e criatividade.

Quando iniciei este texto não tinha a certeza de como o terminaria, escrevo para organizar ideias, já o confessei por diversas vezes, mas a realidade há muito que está à vista, eu tenho-me desviado sucessivamente dela, inventando desculpas, impondo limites que nunca respeito.

Não há como contornar a situação, tentei enganar-me a mim própria, mas se não consigo fazer um uso moderado do blog, tenho de cortar o mal pela raiz. Ainda estou indecisa se o encerro, se o coloco privado ou se simplesmente deixo de escrever, gosto mais da última opção, mas receio ter uma recaída, mas também não gosto da ideia de ver este projeto desaparecer assim do nada.

Por enquanto vou deixa-lo tal como está.

 

Talvez um dia tenha tempo ou mais discernimento para voltar a escrever moderadamente sem prejuízo de coisas mais importantes.Não imaginam o que me custa admitir que não consigo usar moderamente o blog.

 

Escrevo este texto hoje, agora imediatamente antes de o publicar, na véspera de um fim-de-semana prolongado em que sei será mais fácil desligar do blog, o que me dá esperança que na próxima quarta-feira não fraqueje e continue sem abrir o gestor do sapoblogs.

 

A todos os que por aqui passam, aos de todos os dias, aos recorrentes e aos ocasionais o meu mais profundo agradecimento por terem feito deste blog uma experiência maravilhosa.

Às minhas pessoas, elas sabem quem são, continuarei disponível no e-mail e visitarei os vossos cantinhos sempre que possível. Manterei a conta de instagram o e o facebook pelo menos por enquanto.

Peço desculpas pelos textos que prometi escrever e não escrevi, ficou realmente muito por contar, mas de momento é-me impossível continuar a escrever.

 

Termino este texto com os olhos marejados de água, não é fácil abandonar algo que gostamos tanto, mas como alguém uma vez me disse, o ter de ser tem muita força e força é o que necessitarei para manter esta decisão.

Não digo que nunca regressarei, mas durante os próximos tempos não posso, para meu próprio bem, regressar.

 

Gostava de ter escrito uma despedida mais eloquente, mas pela primeira vez as palavras fogem-me e os dedos param à espera que elas apareçam.

 

Obrigada por todos os bons momentos, pela partilha, pelas palavras de conforto, pelo carinho, estarão sempre todos dentro do meu coração.

 

Sinceramente,

Psicogata

Adeus Mário Soares

Mario-Soares-1984.jpg

 

Recordo-me de Mário Soares desde criança, tenho vaga memória do “Soares é fixe”, cresci a ouvir a admiração dos meus pais pelo homem e político, conscientes da importância do seu papel na conquista da liberdade, por ser fundador do Partido Socialista, por ser uma figura incontornável da democracia.

Sempre o vi como uma figura simpática, sempre me pareceu idoso, com as suas bochechas caraterísticas, nutria simpatia por ele sem saber explicar bem porquê.

 

Cresci, expandi os horizontes e percebi que não existem santos em lado nenhum e muito menos na política, Mário Soares não era um santo, mas isso não faz com que tenha menos relevância na história de Portugal.

Desde que foi hospitalizado que as vozes do povo se ergueram, não para o aclamar como em outros tempos, mas para contestar, para apontar o dedo, para insultar.

Pelas redes sociais leu-se um pouco de tudo, desde desejos de morte a impropérios inenarráveis, comentários, observações deploráveis que não deveriam ser feitas a pessoa alguma.

 

Após o seu falecimento os insultos continuam, diria mesmo que pioraram, coincidência ou não, todos eles são apresentados como verdades absolutas, mas sem qualquer fundamentação, palavras soltas, muitas vezes sem sentido, frases carregadas de ódio e frustração.

Os indignados do costume a dizer as barbaridades habituais.

 

Curioso que esses indignados de sempre, não parem dois segundos para pensar que Mário Soares foi uma das figuras mais importantes para que estes possam dizer e escrever o que pensam livremente.

A liberdade e a democracia são para o bem e para o mal, é lamentável que as pessoas não façam uso delas da forma mais conveniente, usam a liberdade para agredir e atingir a dignidade dos outros, cruzando o ponto onde termina a sua liberdade e começa o ataque da liberdade do outro.

 

Usassem essa liberdade, o pensamento livre, a emancipação de ideias, a tolerância das ideais, a autonomia de opinião para escrutinarem, investigarem, cultivarem, aprenderem, reclamarem, reivindicarem um Portugal melhor, menos corrupto, menos putrefacto de valores dariam melhor propósito a essa liberdade que tanto custou a ser ganha e que desvalorizam, pois acreditam que é um dado adquirido.

 

É lamentável que usem assim a morte de uma pessoa, seja a de Mário Soares, seja de qualquer outra pessoa, é incontornável que Mário Soares para além de Ex-Primeiro-Ministro e Ex-Presidente da República foi uma figura fulcral e marcante da política portuguesa, merece por isso respeito e o mediatismo que está a ter.

O sensacionalismo das notícias, não é culpa dele, é culpa dos meios de comunicação que usam conforme lhes é conivente as desgraças ou as felicidades alheias.

 

Morreu o último estadista português e isso é relevante, morreu, mas deixa um importante legado, o legado da liberdade.

Apesar de não seres o ídolo que em criança acreditava que eras, a ti devo estar a escrever este texto sem que este seja revisto por um lápis azul e por isso ter-lhe-ei sempre em consideração.

Que saibamos sempre honrar a liberdade.

Adeus Mário Soares.