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Língua Afiada

Não abandone o seu animal!

 

 

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Férias dos humanos infelizmente são sinal de abandono dos animais de estimação, custa a crer que ainda existam pessoas capazes de abandonar um animal que faz parte da sua vida, mesmo que não considerem o animal um membro da família, ele faz parte da dinâmica familiar e é um ser dependente do dono para sobreviver, abandonar um animal é condená-lo a provações, dor e provavelmente à morte, o que faz dos antigos donos assassinos.

Na zona onde vivo e trabalho já é notório o abandono, junto às zonas industriais já circulam cães abandonados, todos os anos aqui na empresa aparecem dois ou três animais, esta semana apareceu uma cadelinha com coleira, felizmente que há sempre um funcionário que os acolhe, enquanto não se decide o dono vamos alimentando-os até que alguém se enternece e os leva para casa.

Já acolhemos inclusive ninhadas quer de cães, quer de gatos, já colocaram uma ninhada de cães dentro de um saco do lixo que foram resgatados pelo choro quando alguns estavam já prestes a desfalecer sem oxigénio.

A crueldade das pessoas não tem limites, é preciso ter-se um coração de pedra para tratar assim um animal, especialmente quando é “nosso”.

Só esta semana vi um cão atropelado, outro visivelmente perdido e desnorteado e outro a vaguear aqui pela empresa, possivelmente três animais abandonados cujos donos os trocaram por umas férias.

 

As pessoas têm direito a férias, mas pensem nisso antes de adotarem ou comprarem um animal, pensem na responsabilidade e na disponibilidade que eles merecem da vossa parte, se não têm possibilidades financeiras para colocar o animal num hotel e se não têm um familiar, amigo ou vizinho que posso tomar conta dele durante as vossas ausências não acolham um animal, porque um ser vivo não é descartável.

É repugnante maltratar um animal, mas abandonar os próprios animais de estimação mais do que nojento, é insano, para além de um crime é uma demonstração de falta de moral, de negligência, de irresponsabilidade, de falta de empatia e de amor.

Adoro animais, sempre tive cães e gatos na casa dos meus pais, na minha casa tenho apenas gatos porque sei que não tenho capacidade para ter um cão, um dos entraves é precisamente não ter quem cuide dele durante as férias, a minha gata entra e sai e basta alguém dar-lhe água e comida na nossa ausência, um cão implicaria outros cuidados.

Pensem bem antes de acolherem um animal se não têm o carácter e a dedicação que são necessárias para cuidar dele, acreditem ele fica melhor sem a vossa companhia.

Animais nos restaurantes e agora?

E agora à boa maneira portuguesa os proprietários e os fregueses que se entendam, pois a lei não é esclarecedora e animais de estimação podem ser cães e gatos, mas também uma série de outros animais desde de que sejam tidos com companhia.

A omissão pode ser explicada por se pensar que se subentende que se está a falar principalmente de cães e gatos, mas o bom senso é algo que não impera no mundo, Portugal não é exceção e pode muito bem gerar-se a confusão.

 

Seria pior se a lei não permitisse que os proprietários decidam ou não se admitem animais e se estes não pudessem limitar o seu número, convenhamos que ter 40 pessoas e 20 cães dentro de um espaço pode não ser recomendado, se lhe juntarmos um ou outro gato reunimos todos os ingredientes para um vídeo viral - a destruição do restaurante do Manel.

 

Apesar das lacunas da lei não vejo que isto seja um grande problema por dois motivos, primeiro porque creio que a maioria dos espaços não permitirá o acesso a animais, porquê? Simples, porque os obrigaria a ter uma série de cuidados de limpeza e higiene adicionais que implicam custos de tempo e dinheiro, segundo porque as próprias pessoas não se fazem acompanhar dos animais de estimação para toda a parte.

Mas há sempre um lado mais negro, porque apesar de estarmos a defender os direitos de nos fazermos acompanhar pelos nossos fieis amigos, há muitos donos que não são fieis aos seus animais e não os tratam como seria de esperar, mau-cheiro, pulgas, carraças, chocas de pelo não convivem bem com comida e bebida e se mais uma vez deveria imperar o bom senso, sabemos que não podemos contar com ele.

 

A lei é omissa, mas não é preciso ridicularizar, extremar posições e ter ataques de pânico porque se tem medo de iguanas e tarântulas, até quem tem medo de cães se encontra protegido já que existem regras a cumprir.

Esperemos que entretanto a lei seja complementada com algumas alíneas ou artigos mais específicos, não obstante por mais ampla que seja a lei nunca cobrirá todas as situações e não educará os donos dos animais, nesse aspeto há ainda um longo caminho a percorrer.

Entretanto podemos levar os nossos animais a passear no parque e depois bebermos um café ou mesmo almoçar num restaurante que nos permita ter o nosso amigo ao nosso lado, já sabemos que se queremos ir jantar a um restaurante da moda é melhor deixarmos o amigo em casa, pois mais certo é que a sua entrada seja vedada.

 

Espero que se aperte a legislação e a fiscalização dos dejetos dos animais, especialmente dos cães, porque isto dos direitos é para ser levado a sério, mas não menos a sério se devem levar os deveres, convenhamos que num parque ou se deixam correr crianças ou se deixam correr animais, ninguém quer que o seu filho conviva animadamente com as fezes do pastor alemão e do pincha, para não falar da praia, é bom que se definam regras e espaços, mas também que se faça respeitar a lei a que permite, mas também a que proíbe.

Filhos de quatro patas?

Adoro animais, cresci rodeada deles, sempre tive animais de estimação cães, gatos e mais do que uma espécie de pássaros, houve também um pato selvagem, para além dos animais de estimação tínhamos os animais de criação, coelhos e galinhas e na quinta da minha tia a estes juntavam-se ovelhas, vacas, porcos, cabras, chinos, granizos, patos, gansos, perus e todos os animais que podemos encontrar numa quinta.

 

Deixei de comer carne de coelho porque lhes criei tal afeição que simplesmente não consigo conceber essa ideia, seria incapaz de comer carne de cavalo e só como outras carnes porque entretanto deixei de conviver com animais de criação, pois o próximo passo seria provavelmente deixar de comer cabrito e assim sucessivamente.

 

Tenho um profundo respeito pelos animais, mas cresci a vê-los serem criados para matar e comer, por isso a exploração pecuária para mim é natural, não me repudia e não me incomoda, incomoda-me sim que sejam criados muitas vezes em condições deploráveis e alimentados à força para crescerem rapidamente.

 

Nas pequenas criações, pelo menos as que conheço e conheci, os animais são criados com respeito e até amor, isto pode parecer estranho para quem não conhece esta realidade, mas não é incomum os donos falarem com eles, darem-lhes nomes e até carinho, os cabritos por exemplo são animais muito dóceis e é quase impossível não os acarinhar.

Todo o carinho e respeito não impede que tenham o destino traçado, são criados para comer, muitos apenas para consumo próprio, outros para realizar pequenas vendas na comunidade local.

 

A matança do porco é sempre uma festa em qualquer casa, junta-se a família e os vizinhos e é um dia onde a comida e a bebida não faltam, se esta festa tem um lado grotesco e primitivo? Hoje, tenho consciência que sim, já que o animal sofre, especialmente se o matador não for experiente.

Como é possível conviver com isto e ter um amor desmesurado pelos animais?

Não em perguntem pois não sei explicar, mas sei que tenho.

 

Também não consigo entender quem chama filhos aos animais e quem diz que os ama como tal, compreendo que os animais fazem parte da nossa família, os meus fazem, as minhas gatas fazem parte da minha vida e o amor que sentem por nós é mágico e comovente, mas daí a chamar-lhes filhas, para mim, vai uma longa distância.

 

Depois de muito pensar sobre o assunto penso que os coloco noutro patamar por uma razão prática, não é natural os pais verem os seus filhos morrerem, é suposto os filhos darem continuidade aos pais, por isso como encarar como descendência um ser vivo que sabemos à partida não sobrevirá a nós?

 

Todos sabemos que os cães os gatos têm uma esperança de vida muito inferior à nossa, tenho uma ligação especial com gatos e lembro-me do meu primeiro gato, acompanhou-me nos primeiros anos de vida e quando morreu foi um trauma tão grande que a minha mãe só me deixou ter outro gato um par de anos mais tarde, quando morreu a história repetiu-se só muito mais tarde tive outro, pois o desgosto foi tão grande que era preciso tempo para fazer o luto e a história voltou-se a repetir uma e outra vez, os gatos são animais livres, caçadores, a probabilidade de lhes acontecer algo é muito grande.

 

Com os cães passou-se o mesmo, a primeira cadela morreu quando tinha 3 anos, tenho vaga memória dela, mas segundo a minha mãe, falava dela todos os dias, adotamos outro cão, era uma alegria, brincava connosco como se fosse nosso irmão, um dia soltou-se e morreu atropelado, ficámos desolados, dias depois trouxeram-me um cachorrinho lindo, andava com ele para todo o lado como se fosse um bebé, infelizmente adoeceu e morreu uns meses depois, não quis mais cães.

 

Quem adota uma animal deve ter para com ele a mesma responsabilidade que tem com um filho, pois tal como os filhos quando nascem dependem de nós para se alimentarem, carecem de abrigo e proteção.

Os nossos animais devem ser bem tratados e respeitados, devemos retribuir-lhes o carinho e amor que nos dão incondicionalmente.

 

Mas chamar-lhes filhos? Só mesmo em sentido figurado.

Não consigo conceber a dor que é perder um filho, conheço a dor de perder um animal e não pode sequer ser comparável, dói, deixa saudades, deixa um vazio, mas não é a mesma coisa.

A responsabilidade é a mesma, o amor pode ser comparável por ser infinito, mas a dor?

A dor de perder um animal, por mais amor que lhe tenhamos, jamais pode ser comparada à dor de perder um filho ou um ente querido.

Por isso para mim não existem filhos de quatro patas, existem amigos, companheiros, família se quiserem, mas nunca filhos.