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Língua Afiada

O exagero do #Metoo e do Time’s Up

A história ensina-nos que o que hoje é considerado normal e aceitável amanhã poderá ser considerado um comportamento altamente condenável e repudiável, os nossos valores evoluem e ainda bem, a forma como a sociedade vê e trata o sexo feminino evoluiu e só podemos agradecer por essa mudança que tornou a sociedade mais justa e equilibrada.

As mulheres merecem igualdade de direitos e de oportunidades, mas também têm as mesmas obrigações, a igualdade é transversal a todas as áreas onde nos encontramos, merecemos tratamento igualitário no trabalho, nas reuniões sociais, em casa, independentemente do âmbito merecemos respeito.

 

Não obstante, é necessária alguma sensibilidade e contextualização das situações, uma vez que a mentalidade das pessoas, os seus hábitos e costumes podem não evoluir à mesma velocidade com que evoluem as nossas crenças, com o que acreditamos ser o correto.

O momento para a afirmação do direito da mulher a ser respeitada enquanto ser humano é agora, estamos perante um ponto de viragem na história, um marco a partir do qual os homens passaram de juízes a réus no julgamento da opinião pública, mas será que basta uma mulher levantar a voz para iniciar esse julgamento?

O repúdio pelo assédio sexual instalou-se de tal forma, que basta uma suspeita para acabar com uma carreira ou com uma vida, será esse tipo de igualdade que as mulheres procuram? Reclamar a si o poder de destruir a vida de um homem? Será uma questão de justiça ou uma questão de vingança?

 

Morgan Freeman é o último dos visados, tudo começou porque uma jornalista incomodada com o seu comportamento resolveu investigar as atitudes do ator, sendo que agora o mesmo é alvo de oito acusações de assédio sexual.

O seu comportamento é repudiável? Sem dúvida, se é suficiente para ser julgado em praça pública como foi Harvey Weinstein, pessoalmente das acusações que li não concordo.

 

Em primeiro lugar importa distinguir assédio sexual, agressão sexual e violação sexual, em segundo lugar é necessário perceber o contexto, é esse contexto que no caso de Morgan Freeman é desconcertante e também o será em outros, atitudes tidas em público e segundo as notícias só repudiadas uma vez por um colega de profissão, afinal as pessoas foram todas coniventes com este tipo de comportamento por que motivo? Todas elas tinham receio do ator ou consideraram o seu comportamento normal?

Acredito que fosse um misto das duas, no caso da vítima haveria com certeza medo de represálias e da parte dos colegas uma “normalização” do comportamento, por muito que custe admitir comentários de cariz sexual e “brincadeiras” que envolvem toques durante muitos anos foram tidas como normais especialmente quando tidas por homens de uma certa idade. Falta ainda perceber se existiu tentativa de denúncia ou defesa e se existiu ameaça, terá tido o ator consciência dos seus atos e ameaçado de alguma forma as vítimas, não sabemos.

 

Se devemos deixar de condenar este comportamento porque em tempos foi considerado normal? Claro que não, mas na minha opinião não devemos colocar todos os comportamentos no mesmo patamar, condenar sem hipótese de defesa ouvindo apenas uma das partes não é mais digno do que assediar sexualmente, o assédio moral é também ele altamente prejudicial à integridade da pessoa.

 

Hoje, acusar alguém, especialmente se for um homem famoso, de assédio sexual é fazer-lhe uma marca no rosto para o resto da vida, é condena-lo à sentença pública e ao abandono, já que o acusado ficará inevitavelmente sozinho porque todos se afastam dele como se afastam de uma doença contagiosa e mortífera tal é pressão para que se desmarquem do visado.

Esta caça às bruxas é perigosa e injusta, para os acusados e para as vítimas, porque se julgam todos os comportamentos da mesma forma e porque nestas acusações qualquer hipótese de defesa é colocada de parte.

 

Se condeno este comportamento, sim, sem qualquer dúvida, se considero que é suficiente para terminar com a carreira de um ator de 81 anos, não, as mulheres têm direitos, mas também têm deveres, um deles é afirmarem-se e fazerem-se ouvir, não apenas quando é conveniente, mas sempre, e têm responsabilidade, responsabilidade nas suas ações e atos, quer de denúncia, quer de consequências.

 

Na vida tudo o que cai no exagero é prejudicial, claramente estamos a cair no exagero e se assim continuarmos assistiremos ao contrário, mulheres a chantagearem homens com denúncias falsas, já que pelos vistos basta apenas denunciar, se forem duas ou três mulheres não há mesmo defesa possível, se o tribunal não condenar o público encarrega-se da sentença.

 

Combater violência sexual contra mulheres com exclusão dos homens

É o que irá acontecer no próximo ano na Suécia, um festival exclusivo para mulheres.

A ação, vista por alguns como discriminação, é um protesto após acusações de 23 abusos e quatro violações que terão acontecido no recinto do maior festival de verão da Suécia o Bråvalla, que foi mesmo cancelado para 2018.

 

A ideia terá surgido depois da humorista e animadora de rádio sueca Emma Knychare ter lançado a pergunta no Twitter:

“O que acham de se organizar um festival de música muito cool onde só os homens não são bem-vindos, que aconteça até que TODOS os homens tenham aprendido a comportar-se?".

 

A resposta do público foi positiva e o festival irá mesmo acontecer, substituindo o Bråvalla.

A iniciativa é inédita, pois embora outros festivais já tivessem disponibilizado espaços específicos só para mulheres, é a primeira vez que um festival proíbe a entrada de homens em todo o recinto.

 

É discriminação?

Não, é seleção, na medida em que há espaços direcionados apenas para homens ou mulheres, não vejo por que razão um evento não poderá ser pensado apenas para um dos grupos.

 

Faz sentido que hoje existam estes espaços que definem a clientela com base no género?

Não, não faz sentido nenhum, especialmente quando o género já não é sequer obrigatório em alguns países.

 

E fará sentido em 2017, num país europeu, supostamente evoluído, as agressões sexuais a mulheres serem encaradas com normalidade?

Na Suécia o alto nível de incidência de crimes de agressão sexual levou mesmo a que o Governo tomasse a decisão de apertar leis para dissuadir este tipo de crimes.

Não acredito em discriminação positiva, não acho que se devam barrar os homens para proteger as mulheres, a solução passará sempre por educar os homens e punir severamente quem infringir a lei, existe também a necessidade de criar condições de segurança para que as mulheres se possam sentir seguras neste tipo de ambientes e em qualquer outro.

 

Acredito que este festival enquanto forma de protesto terá esse papel, consciencializar os homens que as suas ações têm consequências, embora claramente aqui estaremos a responsabilizar todos pelas ações de alguns, mas é um protesto, está a ser notícia e no fundo a cumprir o seu papel, chamar à atenção e promover o debate sobre o assunto.

Não obstante, espero que esta iniciativa não seja encarada como solução e comece a ser regra. Não vamos regredir ao tempo em que separávamos meninas e meninos nas escolas, em que existiam espaços reservados a homens e espaços reservados a mulheres, a segregação não resolve o problema, apenas o agrava.

Ao isolarmos as mulheres não as estamos a proteger, estamos a fragiliza-las, a passar a mensagem que apenas estão seguras sem homens, dando força à normalidade das agressões em ambientes mistos.

Estas questões têm de ser tratadas com o máximo cuidado, queremos passar a mensagem certa, mas é muito fácil essa mensagem ser deturpada dado o carácter sensível do tema.

 

Concordo com o protesto, com o exemplo que dá, mas não se pode cair na tentação de elevar o protesto a regra.