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Língua Afiada

A mim roubaram-me a paciência Greta.

A Greta roubaram a infância. Roubaram porque ela sente que lha roubaram e não há ninguém no mundo que possa dizer o que ela sente ou deva sentir.

Já não suporto as comparações entre Greta e a Malala, entre Greta e as crianças Sírias, entre Greta e Boyan Slat.

Greta não tem de ser comparada com ninguém, não tem de ser colocada em perspetiva, não tem de justificar o que sente, não tem de explicar porque defende o ambiente, não nos deve explicações e muito menos tem de pedir desculpa ao mundo por ter nascido numa família abastada e numa sociedade livre.

 

Se Greta por ser uma “privilegiada” não pode reclamar da sua infância, então em Portugal ninguém pode reclamar de nada, acabem-se as greves, acabem-se as negociações para aumentos de ordenados, acabem-se as petições para tudo e mais um par de botas, acabem-se as páginas que reclamam direitos para os animais, não há direitos para pessoas vamos agora lutar pelos direitos dos animais, acabem-se as lamúrias com as rendas altas e os rendimentos baixos, acabem-se as reclamações que como privilegiados que somos não temos o direito de reclamar de absolutamente nada.

O desplante de reclamarmos e lutarmos por um ordenado condigno quando há milhares de pessoas que não têm emprego, nem onde trabalhar, reclamarmos uma saúde melhor, quando existem milhares de pessoas sem acesso a cuidados de saúde básicos, reclamarmos do preço das vacinas fora do plano nacional de vacinação quando há milhares de crianças que morrem por falta de vacinação com doenças consideradas erradicas no nosso país, reclamarmos do preço dos alimentos quando milhares morrem à fome e à sede.

Somos o povo que durante o Inverno num dia reclama que está a chover, no dia seguinte reclama que está frio e durante o Verão num dia reclama do calor e da seca e no dia seguinte reclama que chove e não pode ir à praia.

 

A mim roubaram-me a paciência para tanta ignorância, para tanta carneirada que publica e replica textos e textinhos sobre a autoridade, a autenticidade, interesses e as mais diversas teorias da conspiração sobre Greta carregados de não argumentos.

Greta está a alertar para a urgência de se implementarem medidas concretas e urgentes para travarmos as alterações climáticas, para conseguirmos salvar este planeta, para que daqui a uns anos os nossos filhos e netos não fiquem sem infância, mas para que não se coíbam de ter filhos para não os trazerem a um mundo tóxico e inabitável.

 

Ataquem-na porque tem tudo, digam que devia estar na escola, que é arrogante, que é mal-educada, que não tem qualquer autoridade no assunto, o argumento mais interessante é dizerem que não propõe nenhuma medida, é interessante que achem que não tem autoridade, nem conhecimento do assunto, mas que ao mesmo tempo deva apresentar medidas, ela na verdade propõe a única medida possível para travarmos a destruição do planeta – fazer pressão nos locais e pessoas certas para que se tomem medidas.

Greta está a fazer um excelente trabalho de consciencialização, está a colocar o tema na agenda política e da comunicação social e isso não só é muito importante, como é muito mais do que aquilo que a maioria das pessoas faz.

 

Deixem Greta em paz, ela tem paciência e nem se importa nada com os vossos ataques, aliás só lhe dão força para continuar, mas já eu não tenho paciência para tanta publicação ignorante.

Greta como gostava de ter a tua paciência.

 

 

(É óbvio que existem pessoas a aproveitarem-se do mediatismo de Greta, oportunistas de boas causas existirão sempre, menos o nosso Marcelo, livre-nos Deus nosso senhor de se aproveitar do mediatismo de uma jovem, muito mais fácil ir à boleia das tragédias ou da Cistina Ferreira.)

Alterações climáticas – Greta Thunberg

A preocupação com o aquecimento global e as alterações climáticas começou há 50 anos, há 50 anos, pessoalmente recordo-me de sempre conviver com este receio, lembro-me da preocupação com camada de ozono na década de 80, recordo-me bem de não me deixarem estar ao sol nas horas de maior calor e de ter de usar protetor solar quando a maioria das pessoas usava óleo Johnson ou creme de cenoura para bronzear mais rápido.

Recordo-me da preocupação com os aerossóis e com o gás dos frigoríficos, recordo-me também do alarme dos E’s, aditivos alimentares, a minha tia tinha uma lista impressa para verificar as etiquetas dos produtos.

Na década de 90 começaram as preocupações com o “pulmão do mundo”, o tema esteve bastante presente nas aulas de ciências e biologia, mas entretanto a floresta amazónica perdeu milhões de quilómetros de território.

Há anos que cientistas e ativistas alertam para a necessidade de se tomarem medidas urgentes para travar o aquecimento global, o degelo, mas nem a crescente torrente de catástrofes naturais é suficiente para despertar consciências.

Porquê?

O motivo é simples porque as alterações climáticas ainda não influenciam os mercados, ainda não são suficientemente graves para afetarem a vida das pessoas que realmente podem fazer algo para mudar este panorama catastrófico que se avizinha.

Os desastres climáticos foram a principal causa da deslocação de pessoas em todo o mundo na última década, forçaram mais de 20 milhões por ano a abandonarem as suas casas, isto deveria ser motivo para mudanças drásticas, só que há um detalhe, os mais vulneráveis são os cidadãos de países pobres, que, apesar de serem os que menos contribuíram para a poluição, são os que têm maior risco de serem diretamente afetados nos próximos anos.

Esconder a cabeça na areia ao refutar dados científicos com a falha de previsões dos cientistas, não é opção, é impossível prever com exatidão quando ocorrerá o ponto de viragem do qual não poderemos recuar, chegará o dia, o dia zero em que nada voltará a ser como antes, mas essa realidade já chegou, não podemos restituir o gelo aos calotes, não podemos ressuscitar espécies, não podemos parar a transformação brutal que o planeta Terra está a sofrer, estamos a mudar a composição da atmosfera e isso acarreta consequências gravíssimas para o planeta.

Lamentavelmente, não vejo este panorama mudar tão cedo, os interesses capitalistas, as grandes corporações e as grandes indústrias não estão interessadas em resolver a questão e consequentemente os Governos, financiados por estas, também não.

A solução passa pela mobilização da população no geral, pela reivindicação de medidas que tenham real impacto, por isso em vez de criticarem, gozarem e achincalharem Greta Thunberg, agradeçam-lhe por não ter medo de colocar o dedo na ferida.

Curiosamente a maioria da população portuguesa está preocupada com as alterações climáticas, só que não tem a real perceção das implicações dessas alterações e isso acontece porque as consequências não se fazem sentir no seu mundo, no seu dia-a-dia, ou pelo menos não se fazem sentir de forma prejudicial, afinal ter um verão antecipado em Fevereiro foi muito interessante.

Greta Thunberg está em Portugal e espero que a sua visita sirva para mudar algumas mentalidades e para abrir algumas mentes, não basta estar preocupados com as alterações climáticas, é preciso fazer algo para mudar este cenário que se adivinha catastrófico.

Sobre o clima

Não haveria muito a dizer se fossemos amigos do ambiente, porque como diz a minha mãe “Está bom, está como Deus quer”, Deus, Natureza, está no fundo como se proporciona pelas condições climáticas que são influenciadas por um sem fim de fatores, fatores esses que a maioria das pessoas que se queixa ora da chuva e do frio, ora do calor e do sol, não querem saber.

Não serei hipócrita também me queixo do tempo, especialmente da temperatura que está bem mais baixa que o habitual para a época, mas longe vão os tempos em que as quatro estações estavam bem definidas e bem situadas no calendário, mas talvez seja tempo de em vez de lamentar, contribuir para que as estações não deixem de existir.

As notícias não são promissoras, sem eufemismos e falsas esperanças estamos a destruir o ecossistema, não é por se extinguirem espécies, a extinção e o aparecimento de novas espécies faz parte da vida do planeta, é pelo tipo de espécies que extinguimos e a forma como são extintas, mas acima de tudo é a mudança, evolução, a que sujeitamos algumas espécies que é assustadora.

Não faltará muito tempo que os repugnantes insetos terão de fazer parte da nossa alimentação, são a única fonte de proteína barata, fácil de reproduzir e com menos pegada ecológica. As explorações agropecuárias, especialmente as de animais de grande porte são altamente prejudicais à camada de ozono, outras criações de animais mais pequenos sobrevivem pela injeção de antibióticos e de hormonas de crescimento.

Nem a alimentação vegan escapa, a soja é o produto mais produzido com recurso a alterações genéticas e existem várias espécies de vegetais ameaçadas pelas alterações climáticas.

O planeta está a ficar incapaz de sustentar a vida, pelo menos dos humanos, comemos demasiado e gastamos demasiados recursos, mas o que nos apoquenta os dias é se está calor ou se está frio.

Sinceramente só não quero que venha um calor arrasador de repente, não seria nada bom para a minha horta que não está coberta por nenhum seguro e não é elegível para receber apoios do Estado em caso de calamidade. Essa sim contribui para melhorar o ambiente e a minha alimentação, sem herbicidas ou pesticidas, com um ecossistema muito próprio, tenho a certeza que os melros têm comido mais morangos que eu, é um pequeno pedaço de ecologia e sustentabilidade.

Amanhã provavelmente também me queixarei de não estar sol para aproveitar o dia de folga, mas sem esquecer que todos os dias a minha forma de viver contribui para que o clima seja cada vez mais imprevisível, talvez com esta ideia em mente mude o meu comportamento.