Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Língua Afiada

O escândalo do professor e as prioridades dos portugueses

OVELHA1.jpg

 

Bastou uma frase polémica para que a vida de uma pessoa fosse completamente devassada pelos polícias de serviço das redes socias, aproveitando a onda, porque o que interessa é cliques e leitores, os jornais não se rogaram em investigar e divulgar toda a informação que encontraram do professor universitário.

Primeiro é preciso esclarecer que ninguém deveria ter o direito de investigar a vida de uma pessoa só porque a mesma decidiu participar num debate televisivo, quando isto acontece o que nos estão a dizer é que devemos ser muito cuidadosos com o que dizemos e com o que fazemos, não vá alguém lembrar-se de nos ridicularizar nas redes sociais e gerar-se um movimento de escrutínio de toda a nossa vida.

 

O professor tocou em dois temas sagrados, crianças e velhinhos, são espécies protegidas, mas apenas em pensamento, pois a realidade é bem diferente do que se defende por nas redes sociais, se as crianças ainda vão conquistando alguma simpatia e dedicação, mais não seja por obrigação, infelizmente o que não faltam são pais que deixam os filhos vigiados por tablets e smartphones, aos velhinhos nem a obrigação lhes vale na hora de receberem cuidados e carinho, a maioria são abandonados e esquecidos, vivendo em solidão e muitas vezes precariamente.

É precisamente deste abandono que vem a necessidade de obrigar um neto a beijar um avô, tirando um ou outro caso de crianças que simplesmente não gostam de beijos, todas as outras beijam voluntariamente as pessoas que gostam e com as quais convivem, além disso as crianças são espelhos e retribuem o que recebem, se lhes dermos carinho e atenção é isso que receberemos delas.

A afirmação do professor pode parecer absurda, mas na verdade só assume esse carácter pela forma como foi transmitida, usadas outras palavras e não se fazendo um paralelismo tão gravoso, a reação das pessoas seria com certeza outra.

 

Beijar é uma forma de cumprimento em Portugal, é uma saudação que ao contrário de outros países e culturas é normal entre estranhos, não é preciso ter intimidade com uma pessoa para a cumprimentar com dois beijinhos, basta a conhecermos num contexto descontraído, é perfeitamente habitual encontramos um amigo e cumprimentarmos quem o acompanha de beijinho.

Beijar como cumprimento é uma norma social e por isso incutimo-la nas crianças como sendo natural e como fazendo parte da boa-educação, mas há limites, limites esses que começam quando colocamos em causa a liberdade e o espaço da criança, é aqui que os pais e restante família tem o difícil papel de julgar se a criança está a ser mal-educada ou a proteger-se de algo que não gosta.

Nem todas as crianças são beijoqueiras, nem todas adoram dar beijos a estranhos, principalmente se esses estranhos vierem acompanhados de odores estranhos e viscosidades, desenganem-se se pensam que só se afastam de velhinhos, muitas vezes afastam-se até de outras crianças, tudo dependo do aspeto da pessoa e do grau de nojo da criança.

 

Obrigar uma criança a parar de brincar para cumprimentar uma pessoa é ensinar-lhe a ser educada, obrigar uma criança visivelmente incomodada, enojada ou envergonhada a beijar alguém pode ser realmente uma violência.

Se essa violência justificará a violência que a criança infligirá mais tarde a outras pessoas, creio que não será suficiente, mas num conjunto educativo onde o amor é visto como obrigação, onde é comprado, onde a violência é praticada todos os dias seja por imposições, seja por palmadas, onde exista controlo extremo, manipulação e modelação, estão reunidas as condições para que crianças que cresçam nesse ambiente considerem aceitável controlar a namorada ou namorado, considerem normal manipula-los e compra-los e considerem normal punir com violência física.

 

As crianças são esponjas e refletem os comportamentos dos que as rodeiam, por isso é muito importante a explicar o porquê que alguns comportamentos, não basta simplesmente obrigar, é necessário contextualizar.

Existe um grande paradoxo na educação nos nossos dias, por um lado tenta-se atender a todas as necessidades e desejos da criança, tenta-se que tenha voz ativa e foi-lhe reconhecido um estatuto de vontade que nunca antes existiu, por outro lado deixou-se de fazer o inverso, de explicar o porquê das coisas, de explicar o conceito de autoridade, os pais não se podem colocar em pé de igualdade com os filhos, isso dificulta não só a sua perceção de autoridade como lhes dá uma noção errónea do que é certo e errado, há uma hierarquia familiar e se devemos dar voz às crianças, nunca as podemos deixar esquecer de que quem tem a última palavra são os pais.

 

É lamentável que um comentário num debate televisivo gere uma onda tão grande de contestação e descontentamento, estamos no fundo a falar da opinião de uma pessoa, que concordando-se ou não com ela, é necessário respeitar, uma opinião que não interfere com a nossa vida, enquanto isso são revelados todos os dias esquemas que nos prejudicam direta e indiretamente, nomeações estapafúrdias de políticos para cargos para os quais não têm competências, assistimos a penas suspensas para crimes financeiros, ao arrasto de processos de fraude e corrupção, mas o que interessa é a opinião que um professor tem sobre os netos serem obrigados a beijar os avós.

 

O que é realmente importante é devassar a vida de uma pessoa, quando todos os dias devassam a nossa com a maior descontração e tamanho descaramento que o aceitamos como boas ovelhas que somos, todas ordenadas em fila para que nos cortem a lã mesmo que isso nos deixe a tremer de frio.

 

*Imagem Leticia Lanz

 

Carta aberta aos comerciais deste mundo

Aos gestores e gestoras comerciais deste mundo,

 

([Des]larguem-me! Poderia ficar por aqui)

 

Vender é uma tarefa árdua que implica muito trabalho, esforço e dedicação, pregar porta-a-porta ou de telefone em telefone não é fácil, nem os emails vieram facilitar, porque a maioria deles vai para a pasta reciclagem sem ser aberto.

Vender não é fácil, a menos que se tenha nascido com um dom natural para vender gelo aos esquimós, mas não é por ser difícil e trabalhoso que se pode justificar e perdoar tudo.

Não, chega ali a um ponto que a nossa paciência e benevolência para com a profissão nos faz revirar os olhos e deitar fumo pela boca ao estilo banda-desenhada.

 

A nível pessoal gostava de me dirigir a dois tipos de comerciais:

Aos comerciais que fazem telemarketing, essa maravilhosa técnica de vendas agressiva.

A esses dou apenas um conselho, se a pessoa não se mostrar interessada, esqueçam e avancem para a próxima, é estatística, quantos mais contactos fizerem mais probabilidades têm de acertar numa pessoa que esteja com tempo e disposição para vos ouvir, insistir com alguém só leva a duas coisas: a perda de tempo de ambos e a irritação e frustração de ambos, não quer, não tem tempo, não está interessado, next.

 

Aos comerciais que fazem abordagens diretas em superfícies comerciais:

Não abordem pessoas que estão claramente cheias de pressa.

Não abordem as pessoas que estão carregadas de sacos, especialmente quando parecem pesados.

Nos supermercados falem com as pessoas à entrada, na saída há probabilidade de terem produtos perecíveis e ninguém quer chegar a casa com o gelado derretido.

Foquem-se nas pessoas que passeiam descontraídas, que olham para o vosso balcão e parecem interessadas, porque enquanto estão a pedinchar atenção a quem não vos quer ver nem pintados de ouro, potenciais clientes passam-vos ao lado.

Analisem antes de abordarem, não é física-quântica é bom senso. 

 

A nível profissional:

Quando alguém diz que não tem interesse, é porque não tem interesse.

Quando alguém diz que vai analisar e depois responder, aguardem pela resposta, aguardar significa esperar uns dias, não é para ligar ou enviar e-mails todos os dias a solicitar respostas.

Saibam isto, quando alguém esta a ponderar analisar a vossa proposta, quanto mais insistirem maior é a probabilidade de vos enviarem um e-mail com um garrafal – não estamos interessados.

Ninguém gosta de pessoas chatas, ter alguém a interromper constantemente o nosso trabalho não é agradável, é cansativo e muito prejudicial ao vosso trabalho.

Por melhor que seja o vosso serviço ou produto não forcem, porque nem sempre as empresas necessitam dos vossos serviços ou produtos, outras vezes não têm capacidade financeira para os adquirirem, não temos orçamento disponível, temos o orçamento fechado ou temos outras prioridades significam isso mesmo, não há disponibilidade porque existem outros assuntos mais prementes.

 

Nunca, mas nunca tentem passar por cima da pessoa de contacto, é um dos maiores erros que podem cometer, primeiro porque cada vez mais empresas disponibilizam contactos diretos de vários departamentos e segundo porque se essa pessoa se sentir melindrada irá minar-vos, ninguém gosta de ser menosprezado e pior do que isso ninguém gosta de interferências no seu trabalho. Podem ter sorte e conseguirem um novo contacto, mas na maioria dos casos serão reencaminhados para a primeira pessoa com quem falaram e não serão muito bem recebidos.

Não menosprezem quem vos dá as respostas, sejam assistentes, assessores, secretárias ou secretários, primeiro porque é falta de profissionalismo e segundo porque quem controla a agenda tem muito poder.

Num departamento com homens e mulheres não se apressem a bajular os homens, nem sempre são eles os chefes, e mesmo que exista um chefe nem sempre é ele que decide, felizmente há chefes que delegam e confiam no critério e nas capacidades dos seus colaboradores, tentem perceber quem tem mais poder de decisão e influência, mas tratem todos por igual, envolvam todos no processo.

 

Sejam educados, cordiais e respeitem todas as pessoas, arrogância, prepotência e ares de superioridade não combinam bem com estratégias de vendas.

Doutoramentos nos politécnicos e outros predicados do ensino português

Seguindo as recomendações da OCDE o Governo acaba com a exclusividade das universidades na atribuição de doutoramentos, os institutos politécnicos passam a poder oferece-los desde que cumpram determinados requisitos.
As regras para a aprovação de um doutoramento passam a ser mais exigentes para todas as instituições, as instituições superiores terão de demonstrar que produzem ciência na área em que querem abrir a formação e as unidades de investigação associadas têm de ter a classificação mínima de Muito Bom na avaliação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).


Esta proposta é a evolução natural do ensino superior, que vai de encontro ao que se tem feito noutros países da Europa que fundiram os dois tipos de entidades, esta evolução passou a fazer todo sentido quando se adotou o sistema de Bolonha que terminou com o grau de bacharel, um grau usado pelos politécnicos para classificar os técnicos com formações de três anos que poderiam ser complementadas com mais dois anos obtendo-se o grau de licenciatura.
Com licenciaturas de três anos em universidades e politécnicos, é natural que os organismos alinhem cada vez mais a sua oferta, há muito que as universidades integram componentes práticas e que os politécnicos têm conteúdos teóricos de suporte à prática.


Numa altura em que existe uma clara dissonância entre os licenciados produzidos e os que o mercado procura é preciso criar condições para que exista um maior alinhamento entre a oferta e a procura.
É fácil cair na falácia do “temos doutores e canudos a mais”, mas a verdade é que temos muitos licenciados, mas poucos doutorados e temos licenciados em áreas em que não há empregabilidade.
Paralelamente a este cenário existe ainda um legado deixado pela recente crise, empresas considerarem normal e perfeitamente adequado pagarem a um licenciado 850€ ou menos, referi 850€ porque é o valor que uma empresa têxtil decidiu pagar a um técnico de design do Bangladesh, a este valor acresce o valor da habitação, não conheço qual o valor do alojamento, mas 850€ não é um ordenado digno para se pagar a uma pessoa especializada só porque no seu país ganhava uma ninharia, há licenciados em design têxtil em Portugal, mas acredito que poucos aceitariam trabalhar por esse valor, especialmente quando basta saltar para o país vizinho e ganhar pelo menos três vezes mais, talvez seja por isso que haja dificuldade em conseguir empregados.


Não adiantará de muito oferecer mais doutoramentos e permitir mestrados de 1 ano se as empresas não absorverem a mão-de-obra qualificada, continuaremos a exportar jovens altamente qualificados, que custam uma fortuna ao Estado para países que os valorizam e lhes concedem boas condições de trabalho e possibilidade de progressão na carreira.
É claro que o português snobe e altaneiro considera esta medida uma ofensa a essas mui nobres instituições superiores apelidadas de universidades, querem agora tirar-lhes o prestígio de dizer que estudaram numa universidade, qual politécnico, qual quê, mesmo que seja numa universidade de reputação duvidosa paga a peso de outro e zero credibilidade, universidade, é universidade. O pensamento prosaico português.


Considero estas medidas importantes para o ensino superior, mas temo que sejam manifestamente suficientes enquanto não se resolverem dois problemas gravíssimos. Em primeiro lugar o acesso ao ensino superior, demasiado rígido e quantitativo, especialmente quando o acesso depende de um exame nacional que acentua as desigualdades sociais, há uma vantagem enorme para quem tem dinheiro para pagar explicações específicas para os exames e entre quem não tem, e para quem frequenta o privado em turmas de 12 alunos e para quem frequenta o ensino público com turmas de 30 onde o acompanhamento é completamente diferente.
Na década de 90 quando a média era ponderada entre o exame e a média sem exame, eram às dezenas os alunos que se deslocavam para os colégios privados para conseguirem uma média suficientemente alta para suportar um exame medíocre, acredito que hoje o cenário não seja muito distinto.


Em segundo lugar não se entende que alunos de cursos públicos, pagos pelo Estado concorram para vagas no sistema público em pé de igualdade com alunos do privado, especialmente quando se sabe que no ensino público seja em universidades ou no politécnico existem sempre professores que fazem questão de não dar notas altas, este estigma está tão enraizado que conheço um caso em que num exame de resposta múltipla uma professora se recusou a dar nota 20 quando o aluno respondeu acertadamente a todas as questões.
No sistema de ensino público as regras são claras, existe um plano de avaliação e não há épocas especiais para além das previstas no plano, não se paga um extra para se fazer novo exame sempre que se quer, não existem aulas adicionais nas férias para recuperação de cadeiras, se não se passa dentro do plano de avaliação previsto fica-se com cadeiras e anos em atraso, porque no ensino superior também se reprova.


Saem para o mercado de trabalho dois tipos de licenciados os do ensino superior público e o do privado e se há, porque há universidades privadas de qualidade e rigor, também as há em que o que interessa são os números, facilitando-se ao máximo para que todos concluam os seus cursos no tempo estipulado, pagando (ganhando) o que for necessário.
Este sistema para além de ser injusto, lesa o Estado, que gasta uma verba substancial na educação superior de pessoas que engrossam os números do desemprego, esta desigualdade é bem patente precisamente na educação, onde os concursos de professores baseados nas médias sem qualquer ponderação qualitativa beneficia quem “paga” por melhores notas.
Não sou contra as instituições superiores privadas, elas existem para colmatar a escassa oferta pública, mas deveriam estar obrigadas a cumprir determinadas regras para estarem em pé de igualdade com o sistema público.


Não é surpreendente que exista pouca mobilidade social em Portugal, se a via mais fácil para que isso aconteça é precisamente pela aposta na educação é difícil consegui-lo quando o mercado não é justo. Felizmente nem todas empresas olham apenas para médias, mas entre as que olham e as que contratam pelo sistema da “cunha” resta pouco espaço para quem estudou no público cujos únicos padrinhos são o do batismo e o de curso.


A OCDE defende fim dos exames nacionais como meio de acesso ao ensino superior, esperemos que a curto prazo esta recomendação seja tida em conta, duvido que os interesses instalados em torno do ensino que envolvem milhões de euros, desde os colégios privados às instituições de ensino superiores privadas, passando pelos centros de explicações, esse mercado paralelo e altamente lucrativo e muitas vezes livre de impostos e ainda o mercado editorial com livros, guias, complicações de exames, permitam que esta recomendação se efetive no curto-prazo.

Portugal está ainda longe de uma reforma na educação e enquanto isso continuamos a formatar crianças e jovens para terem um pensamento quadrado, para lutarem por objetivos quantitativos, descurando-se a criatividade e a personalidade de cada aluno, usando a mesma fórmula repetidamente para contextos e realidades completamente distintas, com uma carga horária excessiva, trabalhos de casa impensáveis e uma crescente desmotivação.

Num contexto tão retrógrada não é surpresa que tantas vozes se tenham elevado contra a possibilidade dos politécnicos terem doutoramentos, pode parecer que não, mas esta pequena alteração abre a possibilidade de muitas mudanças, mudanças essas que não interessam a pessoas muito bem relacionadas, a boa notícia é que a pressão externa mais tarde ou mais cedo acabará por ganhar esta guerra.