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Língua Afiada

Meandros dos meus pensamentos

Estar sob constante escrutínio é a pior sensação do mundo, ser constantemente avaliada, supervisionada, recriminada e advertida faz-me sentir zangada, irritada e frustrada.

Nunca nada é suficiente, tudo é inadequado, incompleto, imperfeito, por mais esforço, carinho e dedicação que coloque, mesmo com todo o empenho nada parece satisfazer.

Por mais que me desdobre para dar atenção, suporte, apoio, por mais ajudas que dê e preocupação que demonstre, nunca chegarei a ser a dedicada, a preocupada.

Há pessoas que nascem com este selo, com uma inadvertida centelha para falharem as expectativas, não por serem fracas, incompetentes ou inadequadas, simplesmente porque lhes é mais exigido a elas do que aos outros.

Uma vez disseram-me que algumas pessoas têm de fazer melhor do que os outros porque se espera isso delas, já tentei recordar-me de quem me disse isso, não me recordo, na altura não dei grande importância, julguei que era uma injustiça e obviamente que não tive este julgamento presente na minha vida.

Mentira, fiz precisamente o contrário, refreei as minhas próprias expetativas, reduzi os meus objetivos, normalizei os meus sonhos e aspirações, castrei as minhas ambições, normalizei-me.

Hoje, não sei bem a propósito do quê, percebi que isso apenas me fez mal, baixei as minhas expetativas, mas os outros continuam a tê-las bem distorcidas sobre mim.

De um lado os que esperam sempre mais, do outro os que por mais que faça nunca me verão como realmente sou.

Curioso este limbo entre quem está de fora espera sempre mais de nós e quem está por dentro acha que não somos bons o suficiente, mas por motivos opostos, para os de fora poderíamos ser muito melhores, para os de dentro por mais que tentemos nunca chegaremos a ser razoáveis, impossível sermos bons.

Tumultuoso este pensamento de não pertencer ao conjunto de regras e padrões que todos parecem estabelecer para nós, sentimo-nos um estranho dentro da própria casa.

Olho à minha volta e não me revejo naquilo que pensam de mim, existe uma dissonância, um abismo entre aquilo que sou e o que pensam que sou, uns acham pouco, outros acham muito, preferia que simplesmente não se deitassem a adivinhar aquilo que sou e me vissem como sou.

Talvez a culpa seja um pouco minha, que me refugio no meu mundo, um mundo mais rico, mais colorido e bonito que quem me analisa jamais conseguirá imaginar, muito menos conhecer.

O mundo (im)perfeito para receber um bebé

A pressão social para que tudo o que rodeia o nascimento de um bebé seja perfeito é imensa, a inspiração passou a obrigação e o sonho passou a ser realidade, o baby shower, as sessões fotográficas, as roupinhas, as festas, a decoração do quarto, tudo passou a ser uma obsessão sustentada por um consumismo desenfreado e uma aguerrida competição.

Se há momentos que surgem com naturalidade porque fazem parte de nós, já outros parecem mais uma imposição da sociedade, o baby shower foi uma ideia natural, algo que foi fazendo sentido, planeado em menos de duas semanas foi extremamente cansativo, mas muito gratificante, rústico e caseiro foi realizado com muito amor e muita ajuda dos amigos, das tias de coração maravilhosas que a minha filha tem e a ajuda preciosa da madrinha, muitas mãos e muito boa vontade proporcionaram um evento amoroso e um dia feliz.

O quarto foi preparado aos poucos, ainda não está completo, estará algum dia? Não sei, mas para pena minha, não estava pronto quando a bebé nasceu e esta pena prende-se apenas com o facto de não lhe ter conseguido tirar fotos no quarto desde sempre.

A pressão para ter fotos perfeitas dos bebés é muita, tínhamos planeado sessões regulares, mas infelizmente o fotógrafo escolhido devido a problemas de saúde não conseguiu realizar o trabalho, estávamos inclinados a selecionar outra opção, mas começaram as cólicas e com as cólicas o bolsar constante e o cansaço.

Tirar fotografias a uma bebé que ora está a chorar, ora está a bolsar, odeio babetes mas elas foram presença constante na nossa vida durante os primeiros três meses, não é fácil se juntarmos a isto uma capacidade fantástica de movimento de uma recém-nascida, conseguir boas fotografias é uma tarefa impossível.

Era nossa intenção, independentemente das fotos contratadas, fazermos as nossas próprias fotos, como fizemos durante a gravidez, tínhamos tantos planos, mas depressa percebi o porquê da necessidade de contratar este serviço, o cansaço, a não rotina, o desgaste emocional deixam-nos com pouco ânimo para sessões fotográficas e com ou sem pressão social arrependo-me de não ter contratado esse serviço, mesmo sabendo o transtorno que isso nos teria causado.

Temos as nossas fotos, mas não são as fotos que desejava ter, primeiro gostava de ter muito mais e segundo gostava de ter feito fotos diferentes, de ter concretizado todas aquelas ideias que retirei o Pinterest, é uma culpa que me acompanhará para sempre, mas não há volta, o pior de tudo é que por mais que tenha consciência da importância de tirar muitas fotos continuo a não tirar fotos suficientes, não sei como as outras mães fazem, mas no pouco tempo que tenho para a minha filha na maioria das vezes nem me lembro de lhe tirar fotos, só a quero encher de beijos.

O Natal é uma época especial para mim e como se trata do primeiro com a minha filhota fora da barriga decidi que iria contratar uma sessão de Natal profissional e no que me fui meter, primeiro a oferta é imensa, mas todos os fotógrafos estão cheios de trabalho e a pressão para reservar é enorme, segundo os preços que praticam são uma loucura! Terceiro a escolha da roupa, sim porque não adianta escolher um bom fotógrafo, um cenário espetacular e depois levar a bebé de pijama.

Gostava de ser imune à pressão, mas não sou, devíamos deixar de ser tão exigentes e de valorizar tanto os detalhes, afinal o que interessa é guardar os bons momentos, mas este assunto das fotos não está resolvido na minha cabeça e atormentar-me-á por algum tempo.

A sociedade exige demasiado de nós ou somos nós próprios que exigimos?

A constante exteriorização da perfeição, da comparação tem elevado esta pressão para níveis insustentáveis, quando me falam em valores gastos em festas arrepio-me até à espinha e penso que exemplo estamos a dar aos nossos filhos, se fazemos as coisas por eles e para eles ou para nós e por nós?

Apercebe-mo que muito mais que dinheiro por vezes é preciso disponibilidade e fico a pensar que vida levam algumas mães que passam meses a preparar as festas dos filhos, usando todo o tempo livre que têm para o fazer?

Esta obsessão com o bonito, diferente, memorável aonde nos levará?

Há exaustão, se a própria vida que levamos nos deixa exaustos qual a necessidade de lhe acrescentarmos ainda mais pressão e desgaste?

Considero-me uma pessoa bem resolvida, mas neste tema tenho ainda muitas arestas a limar, embora tenha as prioridades bem definidas a minha mania da perfeição e do perfecionismo atrapalham na hora de simplificar, este conflito interior não será facilmente resolvido e a pressão (interior) para a festa de aniversário já começou.

Esperam-se tempos de introspeção, reflexão e gestão de conflitos interiores, não são só os filhos que crescem, nós crescemos (muito) com eles.

 

Introspecção

Sou otimista, alegre e muito positiva, de trato fácil e sorriso aberto, sou uma pessoa de quem se gosta facilmente e que se inveja facilmente, sem qualquer pretensão, a felicidade incomoda muito mais do qualquer outra característica, mais do que o dinheiro, do que a beleza e do que a inteligência. A minha boa disposição, confundida com demasiada leveza e facilidade com felicidade importuna e inquieta muitas pessoas.

Tenho uma carapaça dura, uma armadura que me escuda das energias negativas, dos desgostos, das frustrações, o rir, procuro rir e sorrir muito porque me faz bem, escolho estar bem-disposta porque a vida é muito pior se escolhermos encara-la com má disposição.

Sempre escondi as minhas inseguranças no otimismo, por vezes exagerado, mas que sempre foi a minha tábua de salvação, acreditar que tudo correrá bem é o primeiro passo para que efetivamente tudo corra bem.

Sempre escapei ao que desejava e não obtive com o entusiasmo no que tive e consegui, procurei sempre rodear a frustração de conquistas, saborear o que tenho para não sentir falta do que não tenho.

Convivi sempre bem comigo, soube regular a minha autoestima entre o que era, sou, e o que poderia ser e consigo ser, consciente que só depende de mim melhorar, nunca procurei culpados, assumindo que as minhas falhas são minhas e cabe a mim colmata-las.

Considero-me bem resolvida, equilibrada e feliz, mas falta-me ainda muito para estar completa, tranquila e descansada, falta desligar de algumas pessoas, arrumar assuntos em gavetas, definir prioridades futuras e conseguir dedicar-me apenas ao que me faz feliz, aí estarei perto da plenitude, que estou certa nunca atingirei porque só a insatisfação e a procura por mais dão sentido à vida.

Estou a atravessar simultaneamente uma das fases mais maravilhosas e mais tristes da minha vida, uma dualidade impossível que nunca concebi viver, uma aprendizagem diária, no verdadeiro sentido da palavra um dia de cada vez.

Um teste à minha resiliência, à minha personalidade, aos meus valores e ao meu orgulho, um teste que vou superando dia após dia, tentando não perder o foco, são muitas as vezes que tenho de me relembrar do porquê, é muito fácil ceder, mesmo sabendo que estamos certos, quando tudo conspira para esquecermos.

Não esqueço, recuso-me deixar que me pisem novamente, recuso-me a deixar que me tratem repetidamente como uma criança, desprovida de bom senso, inteligência e vontade, ao permitir este tipo de comportamento estamos a dizer como queremos ser tratados, durante anos não consegui, agora não consigo e nem quero esquecer que mereço respeito e consideração.

Travo esta batalha num momento frágil, com hormonas ainda à procura do seu devido lugar, com novas rotinas a estabelecerem-se e com a autoestima mais baixa que alguma vez tive, nunca tive problemas de autoestima, travo uma batalha com eles agora, na pior altura.

No meio deste turbilhão recuperei uma caraterística que durante anos preferi esconder, decalcar e esquecer, a intuição, a premonição, a sensibilidade para as energias, não sei bem o que lhe chamar, mas com a qual me esqueci de como saber lidar, não a sei interpretar o que me causa imensa angústia e ansiedade.

“Sempre tive um dedo que adivinha”, quem sabe se não é apenas inteligência emocional, mas consegui sempre antever muitos comportamentos das pessoas, antecipar reações e ler nas entrelinhas, mas neste momento intuo mais do que isso, é algo diferente e um pouco assustador.

Acredito que a vida é feita de ciclos que se iniciam quando existem mudanças profundas na nossa vida, ter um filho é uma das mudanças mais radicais que podemos ter, uma mudança que nos desnuda a nós e quem nos rodeia, sem carapaça, sem subterfúgios somos obrigados a conviver com a realidade que nem sempre é a que esperávamos.

Estava preparada para a maternidade, para lidar com toda a responsabilidade, peso, dedicação, abnegação a que isso obriga, mas não estava preparada para perceber a dura realidade que me rodeava, ela sempre esteve lá, não quis ver porque era mais fácil ignorar, desviar o olhar, tentar justificar, desvalorizar, a partir do momento em que engravidei passou a ser impossível ignorar, a partir do momento em que a minha filha nasceu passou a ser impossível aceitar.

Não aceito, recuso-me, já pensei e repensei, já vi a situação de diferentes ângulos, já calcei os sapatos dos outros e não encontro motivo, justificação, sentido nas suas atitudes, resta-me a resignação e aceitar que a diferenciação que sempre senti não está apenas na minha cabeça, não é um capricho, uma ideia fixa, é real e efetiva e que sempre me afetou mais do que quis crer.

É triste que constituir família nos faça “perder” a nossa família, é difícil, é duro, mas prefiro encarar a realidade e aprender a viver com ela do que passar o resto da minha vida a viver de migalhas de atenção, a ter de provar constantemente o meu valor e a fingir que está tudo bem.

Não, não está tudo bem, mas ficará tudo bem. Há todo um processo para lá chegar, uma espécie de luto, de introspeção, de crescimento e amadurecimento, levará o seu tempo, será um percurso muitas vezes complicado, com muitos percalços, mas não há atalhos, nem caminhos mais curtos, um trilho solitário por mais acompanhada que me sinta, que percorrerei sem medos e sem carapaças confiante que no fim tudo correrá bem.