Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Língua Afiada

A última introspeção do ano. Que 2021 seja um ano bom.

Sinto um aperto inexplicável no peito, ou será no coração? Dizem que o coração não dói, é mentira já senti o meu doer muitas vezes, demasiadas vezes para saber que dói mais do que qualquer outro órgão, é uma dor diferente, é talvez a pior das dores.

Impossível de compreender esta culpa, sem culpa, conscientemente, racionalmente não posso ser culpada de me sentir magoada, injustiçada e renegada, são sentimentos demasiado fortes, demasiado avassaladores para serem ignorados ou arrumados numa gaveta recôndita do meu cérebro, a mágoa é maior do que qualquer outro sentimento e é impossível de esquecer.

Durante as alegrias da vida é fácil ignorar as ações que nos prejudicam, desvalorizamos, justificamos até o injustificável para acalentar a mentira confortável que está tudo bem, vamos vivendo em banho-maria, no morninho para que tudo passe sem grandes percalços, sem questões, sem cobranças, afinal as coisas são como são, as pessoas são assim e não mudam, frases feitas que repetimos em surdina para suportarmos comportamentos e atitudes que nos ferem a alma e nos dilaceram o coração.

É nos momentos de fragilidade, de necessidade de apoio e de carinho que percebemos que a realidade paralela que construímos para conseguirmos lidar com a verdade se desfaz como um castelo de cartas, o que é assente em mentiras, meias-verdades e desculpas incoerentes não resiste a uma tempestade, o vento passa e as cartas espalham-se pelo chão, rasgadas, mutiladas, húmidas, desfeitas colocam a nu a sua fraqueza e inconsistência.

A nossa idealização termina abruptamente, já conhecíamos os factos, já sabíamos que tudo era uma frágil mentira assente nos nossos ideais e sonhos, mas não é por isso que é menos sofrido ou doloroso para nós.

Martelam-nos novamente as frases feitas, o importante é sermos fiéis a nós próprios, devemos afastar-nos do que nos faz mal, é preciso aceitar e seguir em frente, estas frases e outras são verdade, mas desfazem-se na nossa boca como areia seca, estéril e enxabida, em nada reconfortam, apenas nos fazem sentir mais impotentes e incapazes.

O Natal, o final do ano, fazem-nos fazer balanços, planos, análises e projetos, num ano tão diferente, tão mau, tão cruel e tão atípico, os balanços são ainda mais profundos, mais introspetivos e mais penosos.

Afinal este vírus não mostrou o melhor de nós, deu visibilidade ao pior da sociedade, das pessoas, do mundo, agravou as desigualdades, demonstrou a nossa incapacidade de fazer sacrifícios em prole dos mais frágeis, mostrou quão egoístas somos e quão invertidas estão as prioridades do mundo.

Permanece para mim um mistério como o ser humano convive tão pacificamente com todas as desgraças e injustiças que se vivem no mundo, mas se dúvidas existissem que o Homem é um ser completamente egoísta, o Covid-19 todas dissipou.

E é assim que me descentro de mim, dos meus problemas, dos meus conflitos internos, olho à volta e percebo que não tenho tudo, mas o que o que tenho é tanto, tão bom, tão maravilhoso, a minha vida não é perfeita, longe disso, não sou perfeita, sou o somatório de todas as falhas, decisões erradas, más escolhas com qualidades, decisões acertadas e caminhos certos.

A felicidade é uma escolha e escolho ser feliz, mas o dilema persiste, ser fiel a mim mesma e aos meus valores ou, mais uma vez, dar a outra face, fazer um esforço, construir castelos de cartas porque é isso que esperam de mim, que recue e que seja mais uma carta no baralho que por mais que se baralhe, corte, baralhe e corte quando chega ao momento de dar as cartas, o jogo é e será sempre o mesmo e sou sempre eu quem perde, não há como ganhar.

A todos desejo um Feliz Natal em segurança e com consciência.

Espero que 2021 seja um ano melhor, que o mundo se torne um lugar melhor, mais igualitário, mais humano e mais verde, parece um desejo de Miss, mas é a verdade, sonho com um mundo melhor, mas para isso as pessoas têm de ser melhores, por isso que em 2021 saibamos ser todos melhores pessoas.

Boas Festas

 

A ti meu amor, meu companheiro, meu amigo, meu suporte, meu chão, meu teto, meu mundo, desejo-te o melhor e que a garra e o amor que nos une seja cada vez mais forte.

Meandros dos meus pensamentos

Estar sob constante escrutínio é a pior sensação do mundo, ser constantemente avaliada, supervisionada, recriminada e advertida faz-me sentir zangada, irritada e frustrada.

Nunca nada é suficiente, tudo é inadequado, incompleto, imperfeito, por mais esforço, carinho e dedicação que coloque, mesmo com todo o empenho nada parece satisfazer.

Por mais que me desdobre para dar atenção, suporte, apoio, por mais ajudas que dê e preocupação que demonstre, nunca chegarei a ser a dedicada, a preocupada.

Há pessoas que nascem com este selo, com uma inadvertida centelha para falharem as expectativas, não por serem fracas, incompetentes ou inadequadas, simplesmente porque lhes é mais exigido a elas do que aos outros.

Uma vez disseram-me que algumas pessoas têm de fazer melhor do que os outros porque se espera isso delas, já tentei recordar-me de quem me disse isso, não me recordo, na altura não dei grande importância, julguei que era uma injustiça e obviamente que não tive este julgamento presente na minha vida.

Mentira, fiz precisamente o contrário, refreei as minhas próprias expetativas, reduzi os meus objetivos, normalizei os meus sonhos e aspirações, castrei as minhas ambições, normalizei-me.

Hoje, não sei bem a propósito do quê, percebi que isso apenas me fez mal, baixei as minhas expetativas, mas os outros continuam a tê-las bem distorcidas sobre mim.

De um lado os que esperam sempre mais, do outro os que por mais que faça nunca me verão como realmente sou.

Curioso este limbo entre quem está de fora espera sempre mais de nós e quem está por dentro acha que não somos bons o suficiente, mas por motivos opostos, para os de fora poderíamos ser muito melhores, para os de dentro por mais que tentemos nunca chegaremos a ser razoáveis, impossível sermos bons.

Tumultuoso este pensamento de não pertencer ao conjunto de regras e padrões que todos parecem estabelecer para nós, sentimo-nos um estranho dentro da própria casa.

Olho à minha volta e não me revejo naquilo que pensam de mim, existe uma dissonância, um abismo entre aquilo que sou e o que pensam que sou, uns acham pouco, outros acham muito, preferia que simplesmente não se deitassem a adivinhar aquilo que sou e me vissem como sou.

Talvez a culpa seja um pouco minha, que me refugio no meu mundo, um mundo mais rico, mais colorido e bonito que quem me analisa jamais conseguirá imaginar, muito menos conhecer.

O mundo (im)perfeito para receber um bebé

A pressão social para que tudo o que rodeia o nascimento de um bebé seja perfeito é imensa, a inspiração passou a obrigação e o sonho passou a ser realidade, o baby shower, as sessões fotográficas, as roupinhas, as festas, a decoração do quarto, tudo passou a ser uma obsessão sustentada por um consumismo desenfreado e uma aguerrida competição.

Se há momentos que surgem com naturalidade porque fazem parte de nós, já outros parecem mais uma imposição da sociedade, o baby shower foi uma ideia natural, algo que foi fazendo sentido, planeado em menos de duas semanas foi extremamente cansativo, mas muito gratificante, rústico e caseiro foi realizado com muito amor e muita ajuda dos amigos, das tias de coração maravilhosas que a minha filha tem e a ajuda preciosa da madrinha, muitas mãos e muito boa vontade proporcionaram um evento amoroso e um dia feliz.

O quarto foi preparado aos poucos, ainda não está completo, estará algum dia? Não sei, mas para pena minha, não estava pronto quando a bebé nasceu e esta pena prende-se apenas com o facto de não lhe ter conseguido tirar fotos no quarto desde sempre.

A pressão para ter fotos perfeitas dos bebés é muita, tínhamos planeado sessões regulares, mas infelizmente o fotógrafo escolhido devido a problemas de saúde não conseguiu realizar o trabalho, estávamos inclinados a selecionar outra opção, mas começaram as cólicas e com as cólicas o bolsar constante e o cansaço.

Tirar fotografias a uma bebé que ora está a chorar, ora está a bolsar, odeio babetes mas elas foram presença constante na nossa vida durante os primeiros três meses, não é fácil se juntarmos a isto uma capacidade fantástica de movimento de uma recém-nascida, conseguir boas fotografias é uma tarefa impossível.

Era nossa intenção, independentemente das fotos contratadas, fazermos as nossas próprias fotos, como fizemos durante a gravidez, tínhamos tantos planos, mas depressa percebi o porquê da necessidade de contratar este serviço, o cansaço, a não rotina, o desgaste emocional deixam-nos com pouco ânimo para sessões fotográficas e com ou sem pressão social arrependo-me de não ter contratado esse serviço, mesmo sabendo o transtorno que isso nos teria causado.

Temos as nossas fotos, mas não são as fotos que desejava ter, primeiro gostava de ter muito mais e segundo gostava de ter feito fotos diferentes, de ter concretizado todas aquelas ideias que retirei o Pinterest, é uma culpa que me acompanhará para sempre, mas não há volta, o pior de tudo é que por mais que tenha consciência da importância de tirar muitas fotos continuo a não tirar fotos suficientes, não sei como as outras mães fazem, mas no pouco tempo que tenho para a minha filha na maioria das vezes nem me lembro de lhe tirar fotos, só a quero encher de beijos.

O Natal é uma época especial para mim e como se trata do primeiro com a minha filhota fora da barriga decidi que iria contratar uma sessão de Natal profissional e no que me fui meter, primeiro a oferta é imensa, mas todos os fotógrafos estão cheios de trabalho e a pressão para reservar é enorme, segundo os preços que praticam são uma loucura! Terceiro a escolha da roupa, sim porque não adianta escolher um bom fotógrafo, um cenário espetacular e depois levar a bebé de pijama.

Gostava de ser imune à pressão, mas não sou, devíamos deixar de ser tão exigentes e de valorizar tanto os detalhes, afinal o que interessa é guardar os bons momentos, mas este assunto das fotos não está resolvido na minha cabeça e atormentar-me-á por algum tempo.

A sociedade exige demasiado de nós ou somos nós próprios que exigimos?

A constante exteriorização da perfeição, da comparação tem elevado esta pressão para níveis insustentáveis, quando me falam em valores gastos em festas arrepio-me até à espinha e penso que exemplo estamos a dar aos nossos filhos, se fazemos as coisas por eles e para eles ou para nós e por nós?

Apercebe-mo que muito mais que dinheiro por vezes é preciso disponibilidade e fico a pensar que vida levam algumas mães que passam meses a preparar as festas dos filhos, usando todo o tempo livre que têm para o fazer?

Esta obsessão com o bonito, diferente, memorável aonde nos levará?

Há exaustão, se a própria vida que levamos nos deixa exaustos qual a necessidade de lhe acrescentarmos ainda mais pressão e desgaste?

Considero-me uma pessoa bem resolvida, mas neste tema tenho ainda muitas arestas a limar, embora tenha as prioridades bem definidas a minha mania da perfeição e do perfecionismo atrapalham na hora de simplificar, este conflito interior não será facilmente resolvido e a pressão (interior) para a festa de aniversário já começou.

Esperam-se tempos de introspeção, reflexão e gestão de conflitos interiores, não são só os filhos que crescem, nós crescemos (muito) com eles.