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Língua Afiada

Avisos sobre a loucura das mães

Este é um tema sério e preocupante, apesar da minha vontade de escrever sobre ele de forma cómica e tom ligeiro, temo que a seriedade da situação não o permita.

Dos casais que nos rodeiam, família, amigos e colegas, somos praticamente os últimos a ter filhos, o que se tem traduzido numa clara vantagem para nós, para além de herdarmos muitas coisas, estamos a herdar e a partilhar conhecimentos e se isso pode ser terrível, no nosso caso tem sido bom, pois os conselhos e as dicas têm sido úteis.

 

Há, no entanto, um tema que tem sido recorrente e que me anda a preocupar, não é novidade para mim, tive sempre receio que isto um dia pudesse acontecer, os amigos do Moralez estão constantemente a avisa-lo que eu nunca mais voltarei a ser a mesma e que não mudarei necessariamente para melhor.

A maioria queixa-se essencialmente de duas coisas: do foco excessivo no bebé e do quero, posso e mando, eu é que sei e é assim que tem que ser, mães nazis do comportamento de toda a gente, menos do seu, verdadeiras ditadoras de regras, rotinas e vontades, usando muitas vezes os filhos para as fazerem valer a todo o custo.

Costumamos rir dos exemplos que lhe dão, muitos episódios são uma espécie de trágico-comédia, mas há outros que pela repetição e gravidade assustam, assustam porque verificamos uma mudança assustadora na personalidade da mãe e detetamos a crescente e justificada falha da paciência do pai.

 

A chegada de um filho muda tudo, é uma mudança de vida avassaladora e começa muito antes do nascimento, começa no dia em que sabemos que estamos grávidas, a partir desse momento acarretamos uma responsabilidade que ultrapassa a nossa vontade e é nossa prioridade cuidar para que o ser que carregamos tenha todas as condições necessárias para se desenvolver bem e saudável.

Mas é após o nascimento que a vida se transfigura, há um marco, uma linha, uma diferença que é tão marcante que nos obriga a estabelecer um antes e um depois de ter filhos, por menor ou maior importância que isso assuma na nossa vida, é incontornável há um antes e um depois desse momento.

 

Não podemos prever a nossa a reação, todos somos diferentes e uma mudança tão radical muda-nos, transforma-nos, deixamos de ser quem somos para sermos mães e pais, a mulher por questões biológicas mantém um vínculo e uma ligação essencial para a sobrevivência do bebé, ligação essa que transborda para o campo emocional, regada por uma overdose de hormonas e instinto protetor, uma mistura explosiva.

Como manter saudável a relação no meio deste caos? Sinceramente não sei, penso que depende muito das pessoas e da sua adaptação, mas penso que antecipar os problemas e pensar neles poderá ser uma boa estratégia, ter presente o que pensávamos antes de sermos mães talvez nos dê sanidade para não embarcar na loucura de viver exclusivamente para o bebé e perceber que há mais mundo para além dele.

 

Se me perguntarem como serei, responderei prontamente que não seguirei esse caminho, que não serei uma dessas mães centradas apenas no filho, que nunca viverei apenas em função dele, direi também que saberei separar as águas e que haverá sempre tempo para o casal, mas poderei eu ter certeza disso?

Não, nem eu, nem ninguém, porque por mais preparação, por mais experiência, por mais exemplos, será sempre a primeira vez que serei mãe e será sempre uma experiência à qual não sei como reagirei.

O que posso afirmar com certeza, porque isso faz parte de mim, é que serei assertiva nas minhas convicções, serei feroz quando alguém me tentar impor algo que não concordo e que provavelmente serei muito protetora porque já o sou com os meus sobrinhos e com as minhas pessoas em geral.

Espero não embarcar na loucura de colocar o bebé acima de tudo, espero não esquecer as minhas convicções e valores e espero, acima de tudo, ter a calma e a ponderação necessárias para saber gerir e equilibrar a vida.

 

Dificilmente serei uma dessas mães que deixam tudo para trás para cuidar dos filhos, mas há uma medida certa para tudo e encontra-la nem sempre é fácil, não podemos descuidar demais nem focar em demasiada, o segredo reside no equilíbrio, na moderação e no bom senso, espero que as hormonas não me roubem o bom senso, já me roubaram paciência, mas por outro lado deram-me moderação, espero que após o nascimento a situação se mantenha, havendo este equilibro entre o não ter paciência, mas ter o distanciamento necessário para me acalmar e afastar do que não é bom para mim e para a minha família.

Inveja

Este sentimento pelo qual sinto o maior desprezo tem sido um tema incontornável da minha vida e consequentemente do blog, embora tenha aprendido a gerir mais friamente a situação de ser alvo de inveja, continuo a ter dificuldades em entender os motivos das pessoas invejosas, compreendo que se possa sentir uma pontada de inveja perante uma situação, algo involuntário, mas para quê perpetuar esse sentimento?

 

É mais fácil aceitar a inveja que vem de pessoas com vidas complicadas, seja por questões de doença, monetárias, sociais, pessoas que não conseguiram alcançar nenhum objetivo que tinham pensado para a sua vida e como tal sentem-se mal e invejam o sucesso dos outros, não é desculpa mas é de mais fácil compreensão.

Muito mais difícil de compreender é a inveja que vem de pessoas bem-sucedidas em diversas áreas da vida, é esse tipo de inveja que me levou a escrever sobre o tema novamente, não consigo entender essa necessidade de invejar, de se sentir mal com a felicidade dos outros, quando a vida tem sido generosa com elas.

 

Infelizmente eu e o Moralez despertamos inveja, já tentámos perceber porquê e a única coisa que conseguimos encontrar é nossa relação enquanto casal, revisitamos toda a nossa vida, avaliamos, medimos, fizemos suposições, refletimos e não há nada, absolutamente nada que nos faça excecionais ou sequer diferentes, não somos lindos, não somos ricos, não temos empregos de sonho, não temos carros luxuosos, não usamos roupas de marca, vivemos uma vida simples de acordo com as nossas possibilidades.

Mas somos um casal unido, com todas as dificuldades, discussões, pontos de vista diferentes, personalidade fortes que muitas vezes chocam, somos unidos quando na verdade teríamos tudo para não ser, já que nenhum dos dois tem um feitio fácil, se calhar é essa nossa capacidade de fazer da diferença, da individualidade, da personalidade distinta uma união forte e respeitadora da entidade de cada um que nos faz diferentes.

 

Não estamos sempre de acordo, não temos problemas em discordar, mas estamos sempre juntos, há sempre um consenso e as opiniões diferentes estão devidamente arrumadas em lugares que não prejudicam as metas e os sonhos e jamais um tenta anular o outro ou menospreza a sua opinião.

Há sempre arestas a limar, mas no essencial e importante somos iguais, defendemos os mesmos valores e os mesmos ideais, tudo o resto é acessório e pode ser discutido caso a caso, não há imposições, temos as nossas ideias bem definidas e nenhum dos dois é manipulado ou guiado pelo outro.

Será esta capacidade de fazer conviver pacificamente e em harmonia duas personalidades tão díspares e tão carregadas que desperta inveja?

 

A nossa relação não é perfeita, mas mentiria se dissesse que somos um casal que passa despercebido, somos muito espontâneos, alegres, cúmplices e passámos realmente a vida juntos, somos inseparáveis, normalmente onde está um o outro não anda longe.

O nosso segredo é mesmo esse encontrar coisas que adoramos fazer juntos, será que é isso que incomoda tanto as pessoas?

Custou a crer que fosse uma coisa tão simples, que pode ser trabalhada e acessível a todos, mas tive a certeza que era isso no momento em que percebi que existem mais casais com este problema, que por aparentarem ser felizes e unidos são alvos fáceis de inveja.

Raramente nos queixámos, raramente nos apanham com má cara ou tristes, tentámos estar sempre de bem com a vida mesmo quando ela nos dá patadas brutais sem aviso, ser alegre e bem-disposto incomoda realmente as pessoas, uma pena que não tentem também elas estar de bem com a vida em vez de invejar a vida dos outros, porque a grande diferença não está no que temos, mas em como reagimos e encaramos o que a vida nos dá.

Prazer com a desgraça alheia

Sinto um estranho prazer, uma sensação de justiça, quando alguém que se encontra a reclamar sem razão e a ser mal-educado não consegue escrever uma única frase sem um erro ortográfico.

Não deixa de ser maldade, mas dá-me imensa vontade de rir, não me orgulho disso, não devemos julgar as pessoas pela sua instrução, mas se dar erros pode ser compreensível, ser mal-educado não.

 

Por norma tenho atenção redobrada com pessoas menos capacitadas para resolver os seus problemas, ou porque não têm possibilidade de enviar um e-mail ou porque denoto dificuldades em expor a situação, desde que mantenham a educação, quando partem para o ataque, para a maledicência, a ameaça e a má-educação a vontade de os ajudar passa a ser zero, o problema é certamente resolvido, mas a atenção, a simpatia com que o faço são francamente diferentes.

Para quem lida com o público esta realidade não é desconhecida, pessoas mal-educadas e cheias de si são infelizmente comuns, mais uma vez sinto uma satisfação maldosa, odeio pessoas mal-educadas, ríspidas e com ares de superioridade e não consigo deixar de pensar que as coisas lhes correm mal por serem assim.

 

Existem exceções, pessoas que numa primeira fase estão muito aborrecidas e que por causa disso se exaltam, mas que após uma breve explicação compreensiva alteram o seu comportamento, já aconteceu diversas vezes no fim pedirem desculpas por terem sido ríspidas, é a esta a diferença de uma pessoa educada que se exalta devido ao stress de uma pessoa mal-educada e mal formada que mesmo quando percebe que não tem razão é incapaz de recuar e mudar de atitude, fará apresentar um pedido de desculpas, mais uma vez, sorrio internamente, claramente tratam-se de pessoas miseravelmente infelizes e que com níveis de compreensão muito baixos.

Geralmente as reclamações mais complicadas acabam por ser resolvidas pelo marketing e daí que a amostra seja muito complicada, é neste departamento também que se faz a gestão das redes sociais que é agora o canal preferido dos revoltados.

 

Por falar em karma parece castigo que eu que sempre disse que não queria vender, nem lidar com o cliente tenha acabado por fazer ambas as coisas, não há dúvida que a minha praia é a estratégia e o planeamento, especialmente na área da comunicação, mas quando é preciso ser-se polivalente, a solução é adaptarmo-nos, mesmo que para isso seja necessário reajustar a nossa personalidade, especialmente nos níveis de paciência.

 

As funções indesejadas acabaram por me dotar de novas ferramentas, colocando-me à prova todos os dias, posso afirmar que me fizeram mais paciente, compreensiva e diplomata, mas também um pouco mais “falsa”, já que estar constantemente a moderar-nos acaba por nos mudar, é por isso que em algumas situações a nível pessoal já opto por não dar importância e não reclamar e noutras encolho os ombros, sorri-o e penso pobrezinho estás tão enganado que nem mereces resposta, ficas tão bem na tua ignorância e voltámos ao prazer com a desgraça alheia, é mau, mas é reconfortante dá-nos algum sentido de justiça.