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Língua Afiada

Vida

Existe uma surdez abafada pelas conversas, inaudível pelas palavras, existe um silêncio da alma enquanto o cérebro se pronuncia em frases perfeitas, mas completamente incompreensíveis.

Um diálogo surdo de sentimentos, inflamado pela raiva contida, deturpado pelas emoções que ferem, cortam e dilaceram.

Não há lugar para a calma, não há lugar para a concórdia, não existe espaço para o encontro, existe apenas distância entre o que verdadeiramente queremos, o que é racional e o que expectamos.

O caminho é tortuoso, íngreme, rolam pedras, calhaus, a terra desfaz-se debaixo dos pés, puxa-nos para baixo, com o auxílio das mãos esgravatamos, com as unhas encardidas e os dedos feridos em sangue vivo deslizamos, uma pausa para respirar, recuperamos o fôlego e voltamos à escalada.

Sinuoso trajeto pejado de armadilhas, a cada passo um percalço, a cada inspiração uma fadiga irrecuperável, os ombros pesam-nos, um peso maior que nós.

Respiramos pesadamente num compasso mais acelerado que a vida, miramos o céu medindo a distância entre o humanamente possível e o fim que aparece risível, só ao alcance de uma entidade divina.

Falamos, gritamos sem som, ninguém nos ouve, ninguém nos compreende, é impossível entender o que não é transponível em palavras, não é possível fazer um raio-x à alma, continuamos impercetíveis, inaudíveis, exaustos.

Seguimos em frente, não sabemos se subimos em direção ao topo ou apenas para cair no abismo, não existem respostas, nem sequer concebemos as perguntas certas.

Sentimo-nos no limbo entre o racional e o que almejamos, mediando a sorte, as emoções, as vontades, os anseios e os desejos, dando um passo depois do outro, como quem acorda dia após dia num ritual tão natural como respirar, respiramos, mas será que vivemos?

Será essa a pergunta certa? Repensamos, colocamos tudo em perspetiva, equacionamos mudar, fazemos planos.

O despertador toca.

Fazemos a nossa rotina matinal.

Saímos para trabalhar.

Dizemos bom dia, acenamos, sorrimos.

Esquecemos o âmago amargo da alma e vivemos mais um dia.

Fragmentos #2 – Os desenhos de Catarina – A Herança

Os desenhos de Catarina é a história de um menino que se vê afastado dos pais por não se enquadrar nas normas da sociedade, enganado pelas autoridades não faz ideia que se encontra raptado para ser estudado.

Num tempo onde não existem sexos, Catarina é diferente e as diferenças não são toleradas.

 

 

Capítulo I e Capítulo II

 

Capítulo III - A Herança

 

Eli e Dani ficaram apavorados, Eli desatou num choro descontrolado, Dani apesar de estar tão assustado como o marido engoliu as lágrimas e disse:

 

- Eli não podemos entrar em desespero, Catarina precisa de nós, temos de agir rapidamente, teremos apenas minutos até que a polícia chegue e nos leve para interrogatório, temos de decidir o que fazer.

- Não podemos fugir Dani se fugirmos seremos vistos como culpados e estamos a condenar o nosso filho a ser criado por uma instituição, isso não pode acontecer – Disse Eli tentando escapar do choque para pensar numa solução.

- Fugir não podemos mas temos de pensar no que iremos responder, a nossa história tem de ser igual e credível.

- A melhor história é a verdade, não toda mas parcial. Iremos contar a verdade que Catarina recebeu um presente misterioso e foi a partir daí que começou a ter um comportamento estranho.

- E irão acreditar que não saberíamos de nada? Não acharão estranho o nosso filho receber presentes sem a nossa supervisão? – Questionou Dani pouco confiante.

 

- Temos de ser astutos Dani e firmes, diremos que recebeu um baú com a herança do bisavô e que aparentemente nada de mal lá encontramos, irão encontrar o baú e perceberem que existe lá um falso, Catarina deverá ter descoberto o falso depois e não nos terá contado nada.

- Achas que acreditarão em nós?

- É verdade, nós sabíamos o conteúdo do baú e nada fizemos para impedir Catarina de o encontrar, mas ele não sabe e por isso contará a mesma versão, porque é efetivamente verdade.

- Espero que tenhas razão que resulte, embora tenha a certeza que seremos escrutinados e avaliados ao milímetro e a nossa herança genética não nos ajudará em nada.

- Não te preocupes Dani, já sei como iremos fazer, tu irás agora mesmo falar com as autoridades, fingirás que te encontras tão surpreendido quanto eles. Eu irei falar com o nosso médico, ele atestará que fizemos tudo de acordo com a lei e com certeza puxará de alguns cordelinhos para que Os Natura nos ajudem a confirmar a história. Depois disso ele irá acompanhar-me à polícia para juntos resolvermos esta situação.

- Não sei se depois de verem as roupas, os livros e os desenhos nos deixarão em paz assim tão facilmente… Disse Dani cabisbaixo, consciente que as coisas não se resolveriam de forma tão simples.

- Bem sei, manterão o nosso filho sob estudo sabe-se lá por quanto tempo… Mas, mas temos de estar livres para o receber, não podemos ir presos ou sermos … Eli engoliu em seco na esperança de engolir a temível ideia – Ou sermos condenados à morte.

 

Os dois maridos abraçaram-se, ambos limparam as lágrimas, olharam-se fixamente e mentalmente sabiam que ambos estavam prontos para a difícil tarefa de enfrentar as autoridades, os amigos, os vizinhos e a sociedade que marginalizava qualquer pessoa que se desviasse do comportamento padrão.

 

Dani entrou na esquadra da Polícia Especial do Genoma (PEG) e contou o que se tinha passado e perguntou se seria possível falar com o Capitão, pediram-lhe para aguardar, seria recebido assim que possível.

Minutos mais tarde encaminharam-no para uma sala privada, não era uma sala de interrogatório, tinha ouvido relatos das mesmas e sabia que não se tratava de uma, mas não era por isso mais acolhedora ou confortável, era fria, inóspita e mesmo sem elementos de tortura era intimidante, era totalmente pintada de preto, o mobiliário totalmente em aço inoxidável resumia-se a uma grande mesa e duas cadeiras, sem uma réstia de conforto.

Dani pensou que ao estar naquela sala ainda não tinham decidido se era ou não culpado, talvez ter-se apresentado tivesse abonado a seu favor, sentiu que talvez houvesse esperança.

Estava na sala já há bastante tempo, talvez mais de uma hora, sabia que estava a ser observado e por isso tentou manter-se calmo mas não o suficiente para que parece insolente ou demasiado confiante.

 

A porta abriu-se e entrou o Capitão Muriel Santiago, um individuo alto e musculado, mas não se poderia apelidar de corpulento, tinha uma certa elegância, no seu rosto sobressaia um olhar frio que o teria com certeza ajudado a chegar à posição que ocupava, mas não tinha uma expressão desagradável, no entanto, bastava um olhar mais atento para perceber que era um homem perigoso.

 

- Boa tarde Sr. Dani Martins, chamo-me Muriel Santiago e sou o Capitão desta unidade, fico satisfeito que se tenha vindo por livre e espontânea vontade, o meu Cabo desejava tê-los trazido para interrogatório, a si e ao seu marido há horas, mas fiz notar que devemos sempre dar a oportunidade às pessoas de se apresentarem. Infelizmente não vejo aqui o seu marido, deverei ficar preocupado?

 

- Boa tarde Sr. Capitão Muriel Santiago, muito agradecido por me darem tempo para me apresentar, eu e o meu marido após o choque inicial sentimo-nos perdidos, mas claro que a nossa consciência fez questão de nos indicar o caminho certo e cá estou para responder às suas questões e ajudar a clarificar toda esta situação tão vergonhosa para a minha família. O meu marido não se encontra aqui ainda, mas deverá estar a caminho, sentiu-se mal e achei melhor que passasse primeiro no nosso médico a fim de garantir que se encontra bem.

- Compreendo, é deveras uma situação complicada e vergonhosa, sabe que fui muito compreensivo ao dar-lhes tempo, mas não pense que não equacionei que ao dar-lhes tempo não estaria preparado para uma eventual história que tivessem tempo de combinar.

Dani percebeu que a sua leitura estava certa, poderia não ter o ar de durão dos oficiais responsáveis pelas rusgas nem o ar de abutre os juízes, mas não seria fácil de enganar e lembrou-se das palavras do marido, a melhor história era a verdade.

 

- Mentiria se lhe dissesse que não pensamos em fugir, sabemos que estas situações são muito complicadas mesmo para quem é inocente, com o aumento dos protestos dos Natura todos os casos têm de ser investigados minuciosamente, mas não temos motivos para fugir e seriamos incapazes de abandonar o nosso filho, um inocente apanhado na loucura do bisavô.

- Entendo, esta então a tentar-me dizer que o bisavô do Catarino que faleceu quando ele tinha apenas dois meses é responsável por toda esta confusão? Indagou num tom sarcástico.

 

- Também a nós pareceu impossível, mas a verdade é que o meu bisavô era um homem astuto e cheio de recursos e manipulou toda a família sem que nos apercebêssemos… Fez uma curta pausa para avaliar a expressão do seu opositor, estava claro que uma palavra mal dita seria suficiente para colocar tudo a perder. – Quando faleceu já perto dos 120 anos era um homem sinalizado pela Comissão da Igualdade e da Assexualidade, anos antes tinha sido um fervoroso oponente e desde aí vivia isolado da família, os meus avôs e os meus pais e eu tínhamos apenas contacto com ele quando era estritamente necessário, quando o meu filho nasceu visitamo-lo e ele consciente que os seus dias estavam a terminar pediu-me que lhe desse nome de Catarina, o nome da minha bisavó, não consegui negar-lhe esse gosto.

 

Faleceu nem dois meses depois, pouco dias após a sua morte recebemos do seu advogado uma carta que nos informava que havia deixado todos os seus bens e pertences ao meu filho, mas que os mesmos só lhe seriam entregues posteriormente e de acordo com uma ordem específica.

- Como é que um tetravó deixa tudo a um tetraneto e ninguém da família reclama a herança?

 

- Os meus avôs falecerem no trágico incêndio da cidade e os meus pais por opção não lhe falavam, diziam que era um velho louco que tinha trazido a desgraça à família, por esse motivo deserdou os meus avôs e consequentemente toda a família, não esperávamos a herança. Somos pobres e qualquer coisa que pudesse ajudar o nosso filho a ter uma vida melhor era uma bênção, talvez a herança lhe permitisse um dia viver na Cidade Estrela, ainda equacionamos renega-la, mas vimo-nos impedidos pela lei, como disse o meu avô tinha recursos e desconfiado que pudéssemos recusar fez uma doação genética impossibilitando-nos de negar a sua herança.

 

- Compreendo, mas ainda não me explicou como justifica o comportamento do seu filho.

- A primeira parte da herança foi recebida quando Catarina fez 6 anos, sob a forma de matrícula na Escola Igualitária, assim como o pagamento de todas as despesas referentes à sua educação, nunca teríamos dinheiro para o matricular numa instituição tão prestigiada e ficamos satisfeitos pelo bisavô ter direcionado o dinheiro para a educação. Nova pausa, desta vez mais longa, fez um esforço para apresentar uma expressão consternada e continuou. – Aos 10 anos recebemos uma encomenda, era um baú com livros e objetos pessoais do meu bisavô endereçado a Catarina, abrimos o baú e não encontramos nada de estranho, muito pelo contrário, eram vários livros de aritmética e gramática, um globo antigo, uma coleção de dicionários e alguns brinquedos de madeira, nada que estivesse na lista proibida.

 

- Já percebi que o seu bisavô era um homem astuto e endinheirado, mas não precisa de me dar tantos detalhes, deixe isso para o juiz, deixe-se de rodeios e vá direto ao assunto.

- Peço desculpa mas os detalhes são importantes, passado uns meses de recebe o baú notamos que Catarino estava a fazer uns desenhos estranhos e perguntamos onde tinha ido buscar a ideia para os desenhar, disse que tinha sonhado com eles, ficamos sem saber o que fazer, resolvemos esperar uns dias, entretanto voltará aos seus desenhos habituais e esquecemos o assunto até sermos chamados à escola.

A este ponto Dani deixou-se abater e duas ou três lágrimas escorreram-lhe pela face.

 

- Só hoje quando vimos a casa virada do avesso e o falso no interior do baú é que percebemos que o meu bisavô deveria ter-lhe enviado alguma coisa que despertasse nele o interesse pelos assuntos proibidos.

- Muito convincente e conveniente culpar um ente falecido, quer-me convencer que não só são todos inocentes como ainda são vítimas. Deu uma gargalhada sonora.

- Falaremos com o seu marido para conferir a história, creio que é suficientemente inteligente para não ter mentido sobre a herança, seria demasiado amador, iremos encontrar os documentos e confirmar que tudo se passou de acordo com o que nos relata, já me tinha questionado como dois pobres operários mantinham um filho na Escola Igualitária, eis a explicação, o que não me convence é que não soubesse dos planos do seu bisavó, mas não é a mim que tem de convencer é ao juiz, perdão aos juízes, porque serão julgados em coletivo dada a gravidade da situação.

 

- Estamos disponíveis para prestar todas as declarações necessárias e fornecer toda a informação que dispomos.

- Estou consciente que sim, foi inteligente da sua parte comparecer e não solicitar um advogado, isso com certeza abonará a vosso favor, mas a mim não me engana, consigo perceber que não é uma pessoa fácil de enganar, especialmente por uma criança de 11 anos que conhece tão bem, aprovou o comportamento do seu filho quando fingiu não saber de nada e isso é crime, caberá a mim provar a sua negligência e conivência.

Dani gelou, o Capitão Muriel era um homem inteligente e experiente não seria fácil fazê-lo acreditar que não sabiam do plano do seu bisavô, a sua única esperança era Catarina, tudo dependeria da forma como o filho contaria a história.

 

O ato egoísta de prolongar a vida

Daniel respirava com dificuldade em silêncio, não tinha energia para falar, estava a maioria das vezes com os olhos fechados, manter as pálpebras abertas era um esforço herculano.

Elsa permanecia dia e noite a seu lado, humedecia-lhe os lábios secos, lia-lhe todas as manhãs as notícias e passagens de um dos seus livros favoritos à tarde, contava-lhe todos os dias as novidades da família e dos amigos.

Penteava-lhe o cabelo, fazia-lhe a barba, cortava-lhe as unhas, nutria-lhe a pele para que não ganhasse chagas e alimentava-o, recusava que fossem as enfermeiras a dar-lhe de comer, era sempre ela, sua mulher, ninguém o fazia com mais carinho e dedicação que ela, nem mesmo a sogra que contava com a experiência do passado.

Nos breves momentos em que adormecia, Elsa acordava sobressaltada com dois pesadelos, umas vezes revivia o fatídico dia em que Daniel lhe disse – "Meu amor tens de ser forte… Estou gravemente doente, não teremos muito tempo juntos… Estou, estou a morrer."

Outras vezes sonhava que uma qualquer emergência a tinha feito sair do lado de Daniel e que no seu regresso o tinha encontrado sem vida, sem direito a despedida.

 

Tinham passado três meses desde o diagnóstico, cancro do pâncreas, estágio IV com metástases em vários órgãos, o diagnóstico era devastador, inoperável, restavam como opções a radioterapia e a quimioterapia, esperança de vida três a seis meses.

Três meses decorreram e apesar dos tratamentos não existiam quaisquer melhorias, Elsa sentia-se angustiada, temia que Daniel morresse a qualquer hora e sentia-se perdida, não estava preparada para ver o amor da sua vida partir, precisava de mais tempo, de muito mais tempo para se despedir, para conseguir equacionar a sua vida sem ele.

Daniel piorou, tinha dores lancinantes por todo o corpo, não tinha apetite e sofria de dispulia, cada vez sentia mais dificuldade em respirar e tinha de recorrer à botija de oxigénio cada vez com mais frequência.

 

Numa manhã solarenga de Junho, Daniel acordou e a custo abriu os olhos, diante de si estava uma sombra de Elsa, uma sombra do que ela haveria sido, magra, enrugada, parecia que tinha envelhecido vinte anos em três meses, mas continuava bonita, dormia profundamente, esgotada depois de ter estado acordada até às cinco da madrugada a cuidar dele, tinha sido umas das noites mais difíceis desde o seu internamento.

 

Elsa acordou e sorriu ao ver o olhar embebecido do marido, o sorriso iluminou-lhe o rosto enquanto disse:

– Bom dia meu amor!

– Bom dia minha vida! Preciso de falar contigo. Precisamos de ter uma conversa séria sobre a minha morte.

– Contra a minha vontade já decidimos tudo, apesar de achar que foi demasiado precoce decidirmos todos esses detalhes, fi-lo porque sei que é importante para ti, pensei que tínhamos acordado que depois de tudo decidido nos iríamos focar na cura e não na doença.

– Elsa, meu amor, estou a morrer! Minha querida não há ilusões é uma questão de tempo até que o meu corpo dê de si.

 

Elsa contendo as lágrimas a custo:  – Não podes pensar assim, o principal fator de cura para o cancro é acreditar na cura, a nossa mente é poderosa, a esperança é sempre a última a morrer.

- A minha esperança morreu no dia em que recebi o diagnóstico. Recusaste-te a aceitar, aceitei fazer os tratamentos por ti e pela minha mãe, mas não há mais nada a fazer, estou a morrer, morrerei em breve e a única coisa que posso mudar é a forma como o farei.

- O que queres dizer com isso Daniel? Pergunta Elsa surpreendida e assustada.

- Não quero morrer aos poucos, não quero definhar até perder a consciência, não quero sofrer mais e acima de tudo não quero que tu sofras mais. Quero morrer enquanto tenho dignidade e consciência e… quero que me ajudes, sozinho não consigo.

- Estás doido!? Queres que te ajude a morrer? Como queres que eu seja capaz de te ajudar a morrer se te amo mais do que a própria vida? Não consigo... Disse Elsa já com as lágrimas a cobrirem-lhe o rosto.

- Precisamente porque me amas e queres o melhor para mim é que me vais ajudar. Ninguém precisa de saber, será o nosso último segredo, se me amas irás conceder-me este último desejo.

- Não, não sou capaz, não consigo...

- Restam-me poucos dias bons, sei disso e quero morrer num dia bom, o Ricardo conseguiu arranjar a droga, mas eu quero que estejas presente, quero que estejas a meu lado.

- Não, és doido, falarei com o médico, a partir de hoje o Ricardo nunca mais te visita.

- Elsa por favor reconsidera, tenho direito a morrer quando quero, é a única coisa que me resta. Por favor…

 

Elsa proibibiu o melhor amigo de Daniel, de o visitar, ameaçou que se ousasse visita-lo faria uma denúncia às autoridades.

Daniel tentou por várias vezes convencê-la que era um ato de amor e de misericórdia, ela nunca acedeu ao seu pedido.

Uns dias depois Elsa é chamada de emergência ao trabalho, uma crise que exigia a sua presença, preparava-se para sair do hospital quando Daniel a trava.

- Elsa, meu amor quero que saibas que és a coisa mais importante da minha vida, que te amarei para sempre e estarei olharei sempre por ti. Quando partir quero que sigas a tua vida, quero que sejas feliz e que vivas a dobrar por ti e por mim.

- Eu sei meu amor, mas não pensemos nisso agora, estarei ausente apenas por um par de horar e logo estarei aqui para cuidar de ti.

Elsa dá-lhe um beijo carregado de amor e ternura.

- Adeus meu amor!

- Até já meu amor!

- Adeus!

 

Elsa julgou ouvi-lo dizer mais qualquer coisa, mas não conseguiu perceber o quê.

Precisamente duas horas depois Elsa entra no quarto e vê o quarto cheio de familiares e amigos.

- Tentamos ligar-te mas não atendeste…

 

Elsa caiu num choro desesperado ao perceber que Daniel estava morto, agarrou-o, sacudiu-o na esperança de encontrar ainda vida no seu corpo inerte.

- Porquê? Porquê? Eu deveria ter estado aqui.

- Ele tentou resistir até regressares, ele lutou mas não conseguiu.

 

….

Um ano depois, à saída da igreja Ricardo interpela Elsa.

- Tenho algo para te dar.

- Não quero nada que venha de ti. És um assassino, eu sei que ajudaste o Daniel a morrer.

- O Daniel pediu-me para te entregar esta carta.

Elsa engoliu em seco, as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Agarrou no envelope e sem proferir uma única palavra entrou no carro, conduziu até um dos seus locais favoritos, uma falésia com vista para o mar. Respirou fundo e abriu a carta.

 

“Elsa, meu amor, minha vida,

Parti, parti com consciência, nos meus termos, feliz e rodeado de amor, comigo levo o teu amor, o teu carinho, a tua dedicação.

Perdoa-me mas não consegui aguentar mais ver-te sofrer daquela forma, matava-me por dentro, era demasiado peso para mim, doía-me mais do que as dores lancinantes do cancro.

Perdoa o Ricardo, ele sempre foi um bom amigo e quando a minha mãe lhe pediu que me ajudasse ele não hesitou, prontificou-se a ser ele a ter a responsabilidade, tentou demover-me a falar contigo, sabia que não irias concordar, mas eu queria a tua aprovação.

Não te culpo por me quereres todo o tempo que conseguisses a teu lado, sei que nada mais era do que amor.

Nada mais te desejo do que felicidade, como te disse na última vez que te vi, vive, vive a dobrar por ti e por mim.

Amar-te-ei por toda a eternidade e velarei sempre por ti.

Para sempre teu.

Daniel.”

 

Elsa chorava e gritava, não de dor, mas de raiva, por ter sido tão egoísta, um egoísmo que lhe custou não estar ao lado de Daniel no momento da sua partida.

Subitamente Elsa conseguiu decifrar as últimas palavras de Daniel quando deixava o quarto de hospital.

Até sempre meu amor

 

Tinham sido essas as últimas palavras de Daniel.

 

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Não pedimos para nascer.

A maioria de nós não faz ideia de quando a morte nos baterá à porta.

Quando sabemos que a morte está à espreita com que direito nos negam a vontade de a encontrar mais cedo e finalmente descansar?