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Língua Afiada

Cláudia Azevedo no topo da Sonae

Lamentavelmente ainda é louvável quando assistimos uma mulher chegar ao topo, num mundo ideal não nos congratularíamos com isso, seria apenas mais uma notícia, mas quando estamos ainda longe da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres estes exemplos são a prova que existe ainda um longo caminho a percorrer.

 

Este é, sem dúvida, um excelente exemplo por não se tratar de uma simples sucessão, no grupo Sonae tudo foi preparado para que a gestão seja independente da massa acionista, a forma encontrada para garantir a continuidade da empresa, o que significa que quando Cláudia Azevedo assumir em 2019 o cargo de CEO da Sonae o fará por mérito, competência e provas dadas e não apenas porque é acionista.

A sucessão familiar nas empresas portuguesas é um problema epidémico, já que são muito poucas as que conseguem chegar à terceira geração e muito menos a que a sobrevivem, Belmiro de Azevedo consciente das estatísticas preparou a estrutura da empresa para que isso não acontecesse com a Sonae, um exemplo que deveria ser seguido por outros empresários e empresas que não antecipando este problema acabam por ver o seu legado desfeito.

 

A capacidade de liderança, a visão estratégia, a vocação para a gestão não se transferem naturalmente para os descendentes como o capital, a personalidade, caráter e inteligência não são exclusivamente hereditários, mas em Portugal é comum esquecermo-nos desse aspeto e por isso deixar a gestão de pequenas, médias e até grandes empresas nas mãos dos herdeiros por tradição, mesmo que essa passagem automática contrarie toda a lógica de gestão.

Gestores independentes são muitas vezes a melhor forma de terminar com quezílias familiares, o seu distanciamento natural permite-lhes encarar as decisões mais friamente e com base na razão sem interferência das emoções tão inimigas da racionalidade.

 

Fico feliz que Cláudia Azevedo tenha traçado o seu percurso para o sucesso, que tenha chegado ao topo de um dos mais importantes grupos portugueses, espero que seja um exemplo de como uma mulher é perfeitamente capaz de conduzir um grande grupo a grandes conquistas, mantendo a senda de prosperidade e crescimento sustentado.

Muito pouco se sabe sobre a filha mais nova de Belmiro de Azevedo, mas o próprio dizia que era a mais parecida consigo, do pouco que li sobre Cláudia Azevedo, podemos esperar uma gestão assertiva e firme.

 

A gestora que não gosta de ouvir não, por muitos criticada só por o admitir, é na verdade uma inspiração para todas as mulheres, lembrem-se que mesmo quando nos dizem não, no mundo dos negócios esse não com trabalho e dedicação pode ser transformado num sim.

Crédito mal parado, bolha imobiliária, matemática, uma lição

A partir de 1 de Julho de 2018 entram em vigor três novas medidas propostas pelo Banco de Portugal para combater o crédito mal parado.

Serão impostos 3 limites ao crédito:

 

1 - Ao rácio entre o montante do empréstimo e o valor do imóvel dado em garantia (LTV – loan-to-value):

- De 90% para créditos para habitação própria e permanente;

- De 80% para créditos com outras finalidades que não habitação própria e permanente;

- De 100% para créditos para aquisição de imóveis detidos pelas instituições e para contratos de locação financeira imobiliária.

 

2 – De 50%, ao rácio entre o montante da prestação mensal calculada com todos os empréstimos do mutuário e o seu rendimento (DSTI – debt service-to-income), com as seguintes exceções:

- Até 20% do montante total de créditos concedidos por cada instituição abrangidos pela presente medida, em cada ano, pode ser concedido a mutuários com DSTI até 60%;

- Até 5% do montante total de créditos concedidos por cada instituição abrangidos pela presente medida, em cada ano, pode ultrapassar os limites previstos ao DSTI.

 

3 – À maturidade original dos empréstimos:

- De 40 anos nos novos contratos de crédito à habitação e crédito com garantia hipotecária ou equivalente, e convergência gradual para uma maturidade média de 30 anos até final de 2022;

- De 10 anos à maturidade nos novos contratos de crédito ao consumo.

 

Estas medidas aparecem em boa hora certa, depois da preocupação crescente com o aumento dos créditos e com o aumento dos preços dos imóveis, aumento esse que já despertou a atenção do FMI que alertou para o perigo de se estar a criar uma nova bolha imobiliária, sendo necessário colocar alguns limites ao endividamento das famílias.

Há dois pontos sobre os quais não deveria ser necessário legislar, qualquer instituição financeira saberá fazer contas e não precisa de regras para uma boa gestão, não é prudente emprestar um valor igual ou superior ao imóvel, em caso de incumprimento o que acontece ao banco? Fica com um imóvel que vale menos do que o montante em dívida.

 

O mesmo se passa com o rendimento disponível fixo, se uma família tem rendimentos de 1000€ não faz sentido que tenha um empréstimo de 600€/mês, mesmo que existam rendimentos não declarados (infelizmente ainda acontece) ou rendimentos suplementares como prémios e remunerações por horas extra, rendimentos não garantidos e que podem desaparecer, foram os primeiros a ser cortados com a última crise.

 

O crédito mal parado não é apenas culpa dos portugueses quererem viver acima das suas possibilidades, é também dos bancos que incentivaram durante anos e anos o consumo desenfreado, aliás têm estes mais responsabilidade, pois se uma entidade financeira nos diz que conseguimos pagar, se nos apresenta tantas facilidades é normal que o cliente se deixe levar pelas contas desta, supostamente ninguém quer perder dinheiro, só que os bancos não fizeram contas e esqueceram-se de avisar.

Este aumento de consumo, em especial o aumento de compra de casa própria preocupa-me, sei que é uma questão de tempo até que a bolha rebente nas nossas vidas, as pessoas ver-se-ão confrontadas com imóveis de valor inferior ao da dívida, os bancos com mais imóveis que dinheiro e o ciclo da crise repetir-se-á.

 

A solução parece-me fácil, repetir até à exaustação que as pessoas precisam de fazer ou aprender a fazer contas, é tudo uma questão de matemática, se ganho 100 não posso gastar 110, da mesma forma que precisam de aprender que na vida nada é garantido e não é sustentável adiantar todo um futuro na esperança que tudo corra bem e que se vá ganhar muito dinheiro.

 

O Joãozinho tem 4 maças no cesto, na macieira estão mais 4 maçãs por colher, a mãe pergunta-lhe:

- Quantas maçãs tens Joãozinho?

- Tenho 8 mamã.

- Tens 4, só vejo 4 maçãs no cesto.

- Tenho 4 que já colhi, mais 4 que irei colher.

- Então ainda não tens 8.

 

Entretanto o Joãozinho decide subir a macieira para colher as outras 4 maçãs, mas a meio percebe que não chega ao topo, o tronco é demasiado frágil para suportar o seu peso e os braços demasiado pequenos para alcançar as maçãs.

Desce cabisbaixo e diz:

- Afinal só tenho 4 maçãs mamã.

- Sim filho, só tens 4 maçãs. Que te sirva de lição, na vida só podemos fazer contas ao que temos e nunca ao que esperamos ou sonhamos ter.

 

 

O tecido empresarial português

Desde que entrei no mercado de trabalho que a minha imagem das empresas e gestores tem vindo a piorar consecutivamente.

Se no meu primeiro emprego a ideia que tinha do funcionamento de uma empresa até se manteve, bastou mudar-me para outra empresa para perceber que a primeira era a exceção e não a regra.

A ilusão caiu por terra quando percebi que o gerente da empresa não tinha o mínimo de vocação para gerir quer pessoas, quer clientes, mas a equipa era boa e unida e o trabalho fluía normalmente, quando todos são competentes o navio navega mesmo que o capitão não faça ideia de como chegar ao destino. É claro que bastou integrarem na equipa uma pessoa incompetente numa posição que mexia com o trabalho de todos para o navio andar sem rumo, sem uma mão firme e exigente é fácil um único elemento prejudicar toda a empresa, especialmente se formos apenas seis pessoas e todo o trabalho estar interligado.

 

Apesar de ser uma empresa pequena, devido a área de negócio permitiu-me ter contacto com diversas empresas das áreas mais distintas, desde a agricultura aos serviços, passando pela indústria.

Não foi necessário muito tempo para perceber que quase todas tinham um denominador comum, falta de visão, extrema burocracia, verticalidade e uma séria dificuldade em tomar decisões. Arrisco-me a dizer que a grande maioria era gerida a curto-prazo, na reação, sem mínimo de inovação ou proatividade, que era, na altura, a palavra da moda.

 

Mudei de emprego e de área de negócio, mudei novamente, o cenário que encontrei não foi diferente daquele que conheci nas outras empresas, com a agravante que agora trabalhava numa empresa assim, o que era desafiante e muitas vezes frustrante, mas quando se faz um trabalho a longo prazo vamos conseguindo pequenas vitórias, e, hoje, é com orgulho que digo que participei ativamente em várias mudanças positivas na empresa onde me encontro.

No entanto, a minha opinião sobre o tecido empresarial português não melhorou, quer pela minha experiência, quer pela experiência de colegas e amigos, vou percebendo que apesar de se terem passado 15 anos, encontramos os mesmos estigmas, os mesmos obstáculos, a mesma resistência, a mesma incapacidade de inovação e de proatividade.

 

Ao longo destes anos fiquei com duas ideias, primeira que esta inatividade era caraterística das empresas mais antigas e segunda que a Sul as coisas deveriam ser diferentes. Ideias completamente erradas, isto também acontece em empresas novas e também acontece no Sul.

 

Encontro-me a trabalhar num projeto que me obriga a estar em contacto com diversas empresas portuguesas, umas centenárias outras criadas há meses, é avassalador perceber que para se fazer qualquer coisa é um caminho penoso, mesmo quando se quer, imagine-se, comprar.

É extremamente revigorante perceber que algumas start ups são incrivelmente dinâmicas e proactivas, nascidas do puro empreendorismo, são essas as primeiras a queixarem-se da falta de sinergia entre empresas, da falta de partilha de conhecimentos, de experiências, como se fosse impossível empresas que são inclusive de áreas diferentes, algumas até complementares, ajudarem-se mutuamente.

É também animador perceber que algumas empresas com muitos anos de história se souberam reinventar, inovando ao mesmo tempo que protegiam a sua identidade.

 

Surpreendente, ou nem tanto, foi perceber que até Aveiro existe uma realidade e depois de Aveiro outra completamente diferente, a hospitalidade das pessoas na vida privada quer se queira, quer não passa para a vida empresarial e isso é percetível em tudo, nos telefonemas, nos emails, nas reuniões.

Não é geral, encontrarmos empresas de difícil acesso no Norte e empresas que nos receberam muitíssimo bem no Sul, mas são sem dúvida a exceção.

 

Infelizmente a dificuldade em obter respostas é transversal, eficiência e eficácia não são adjetivos que descrevam o nosso tecido empresarial, vemo-nos a ter o triplo do trabalho porque grande parte das empresas demora imenso tempo a dar resposta, quando dá, em algumas consegue-se perceber uma desorganização total e há ainda os casos que claramente declinam a proposta porque implica trabalho extra.

 

Desenvolver qualquer projeto em Portugal que dependa de diversos fornecedores e parceiros requer resiliência, paciência e uma enorme devoção, devoção pois dedicação não é suficiente. Não é de estranhar por isso que imensos projetos com potencial fiquem pelo caminho, há um hiato enorme entre a ideia e a sua concretização que implica um grande envolvimento emocional e um elevado investimento em tempo e muitas vezes um grande esforço financeiro.

 

Este não é o primeiro texto que escrevo sobre a realidade das empresas portuguesas, mas este é um relato na primeira pessoa.

Criar um negócio em Portugal é dificílimo, não me entendam mal, criar um negócio é fácil, difícil é faze-lo como deve ser, como escrevi neste texto há demasiados empreendedores em Portugal que não fazem a mínima ideia de como gerir uma empresa ou negócio, há demasiados negócios a ocupar espaço, a queimar oportunidades.

 

Já escrevi várias vezes que o problema de Portugal é a gestão, mas quanto mais penso no assunto mais tenho a certeza de que há muito poucas pessoas a saber gerir, seja a empresa, seja o ordenado, é um problema crítico, epidémico.