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Língua Afiada

Fotos de luto nas Caraíbas!?

É louvável e tocante que os portugueses se comovam com a tragédia de Domingo passado, há muitas formas de demonstrar solidariedade, mostras formas de mostramos o nosso pesar e o nosso descontentamento.

Coloquei no topo do blog um laço preto em sinal de luto porque é assim que me sinto e porque tem sido aqui que mais me tenho exprimido sobre o assunto.

Nada contra quem o faz noutros locais como por exemplo nas redes sociais, não é que mude efetivamente nada, mas é um sinal que estamos atentos e solidários com a dor dos outros.

Mas pede-se algum decoro e bom senso, quem é que no seu perfeito juízo coloca uma faixa de luto por cima de uma foto de férias nas Caraíbas, de um beijo com o marido, de um sorriso de orelha a orelha?

Por hábito as fotos de perfil são de bons momentos, entende-se, mas colocar por cima de foto que espelha felicidade uma faixa de luto é anedótico, é como ir a um velório vestido de vermelho a cantar e a bailar o malhão.

Porque é que isto acontece? Porque as pessoas não pensam e não sentem, não podem sentir, se sentissem quando usassem a aplicação que coloca a faixa automaticamente perceberiam que não cabe no luto uma imagem tão alegre.

Isto leva-me a pensar que as pessoas colocam a faixa só porque sim, só porque alguém colocou, porque é moda, porque parece bem, mas que não refletiram mais de dois segundos no assunto.

Não pararam para pensar que uma dor tão grande, que uma tragédia desta dimensão não pode e não deve resumir-se a colocar uma faixa em cima de uma foto sem qualquer sentido.

Tenham bom senso e decência, o luto é um processo duro, não é uma brincadeira e uma moda. Tenham respeito.

O discurso do Presidente

O Presidente da República demitiu ontem em direto a Ministra Constança Urbano de Sousa, não foi diretamente mas foi realmente o que aconteceu e hoje a ministra apresentou a demissão e António Costa foi forçado a aceita-la.

Marcelo Rebelo de Sousa pediu desculpas a todos as portuguesas e portugueses, demonstrou pesar, solidariedade, compaixão e empatia, sentimentos e valores desconhecidos dos representantes do Governo e do próprio primeiro-ministro.

 

Aconselhou (mandou) o Governo pedir desculpas aos portugueses e deu-lhes uma lição de humildade, civismos e humanismo.

No início do discurso por momentos pensei que iria dissolver o Governo, não o fez, no entanto, não deixou de lembrar que a Assembleia da República tem esse poder e pode usar a moção de censura para o fazer, diria até que deu o seu aval para o fazerem.

 

Lembrou o Governo a necessidade de ouvir aqueles que não têm a mesma capacidade mediática e de negociação pública uma achega que serve também para o PCP que parece só se preocupar com uma franja particular da população.

Marcelo exigiu ainda que se faça da floresta uma prioridade e que se delineie um plano a longo-prazo que atravesse mandatos e Governos.

Marcelo deu assim voz a milhões de portugueses que desejam que se termine este jogo do empurra e que se façam mudanças realmente profundas com efeitos visíveis e a longo prazo.

O discurso do Presidente fica marcado pelas lições a António Costa.

 

“Por muito que a frieza destes tempos cheia de números e chavões políticos convidem a banalizar, estes 100 mortos não mais sairão do meu pensamento, com o peso enorme na minha consciência como no meu mandato presidencial”.

 

“Olhar para os dramas de pessoas com carne e osso, com a distância das teorias, dos sistemas ou das estruturas, por muito necessário que possa ser, é passar ao lado do fundamental na vida e na política”.

 

“A melhor ou a única forma de pedir desculpa às vítimas, e de facto é justificável que se peça desculpa, é por um lado reconhecer com humildade que portugueses houve que não viram os poderes públicos como garante de segurança.

 

“Pode e deve dizer que reformar a pensar no médio e longo prazo não significa termos de conviver com novas tragédias até lá chegarmos.”

 

Palavras completamente opostas ao discurso e posição do primeiro-ministro.

Marcelo Rebelo de Sousa deixou ainda uma achega aos restantes partidos da geringonça.

 

“Mais de 100 mortos em menos de 4 meses são uma interpelação política."

 

Uma interpelação política que ninguém parece disponível para fazer.

Pessoalmente não sinto confiança e crença num primeiro-ministro que encara a morte de mais de 100 portugueses com tamanha frieza e normalidade.

Perdeu para mim o respeito quando anuiu com as palavras do Secretário de Estado, permitindo que os portugueses se sentissem inseguros e abandonados à sua sorte num dos momentos mais difíceis na longa história deste país, depois de duas tragédias inigualáveis e aterradoras.

Perdeu toda a legitimidade para governar quando nos avisou para estarmos preparados para vermos esta tragédia novamente repetir-se com uma passividade e serenidade ao nível de um sociopata sem remorsos e escrúpulos.

 

Pergunto-me se são estes valores que queremos ver no poder?

Eu não quero, tenho por isso pena que o discurso do Presidente por mais duro que tenha sido não tenha sido mais direto e concreto, pois se Marcelo Rebelo de Sousa não confia no Governo que faça uso do seu poder e o destitua.

Bem sei que instabilidade política e novas eleições não é de todo o cenário que este país precisa, mas desconfiança, descrença e insegurança também não.

Se António Costa não fosse a personagem que é, se tivesse um pouco de decência e sentido de Estado apresentaria ele a demissão, isso seria o mais louvável, pelo número de vítimas e pelo discurso, pela atitude que não é digna deste povo.

 

A tragédia dos incêndios fica marcada por duas conclusões:

 

A incapacidade política e a irresponsabilidade de António Costa.

A incapacidade de o Presidente chamar a si a responsabilidade de responsabilizar.

 

No fundo vivemos num país em que a culpa morre solteira e onde os anéis do poder são intocáveis e por mais palavras, discursos, diretas e indiretas a verdade é que ninguém quer ser responsável por ataca-los diretamente.

Não politizem a tragédia, mas exijam responsabilidades

Esta mania de os portugueses fazerem de tudo uma questão política, de cor, enoja-me.

Não podemos pedir a demissão da Ministra porque somos logo apelidados de laranjinhas.

Não podemos questionar as declarações do Secretário de Estado porque somos imediatamente acusados de querer ver a Direita no poder.

Não podemos criticar a atuação de António Costa que somos prontamente acusados de querer derrubar o Governo.

 

Esta mania da perseguição é doentia, criticar um Governo não implica por si só ser de outro de partido ou que se quer ver outro partido na liderança.

Criticar a atuação de um Governo ou de algum dos seus membros é ser exigente, é pedir responsabilidades, é defender o que entendemos ser melhor para o país independentemente da nossa ideologia política.

 

Ao criticarmos António Costa não estamos automaticamente a defender Passos Coelho, será que é assim tão difícil perceber isso?

Será que os portugueses são incapazes de se isentarem da sua cor? Serão assim tão fanáticos? Tão cegos? Tão incapacitados?

Será que os portugueses não percebem que há questões que ultrapassam qualquer cor política?

Será que os portugueses são tão cegos pela doutrina que não entendem que independentemente da cor, o desgoverno, a irresponsabilidade, a negligência perpetua-se no poder?

 

Achar que a culpa dos incêndios é exclusiva deste Governo é tão ingénuo como achar que a culpa foi apenas das condições climatéricas adversas.

 

Há muitos anos que a floresta não é cuidada, protegida, diversificada, o problema não é de hoje e se nada mudarmos os cenários de horror voltarão a repetir-se no futuro como António Costa vaticinou.

António Costa que quer que aceitemos estas mortes como sendo normais, consequências naturais do clima, deve achar que somos todos uns incultos e mal informados que acreditamos cegamente no que diz, pois não acreditamos, pois houve negligência, não aprenderam a lição de Pedrógão, quantas tragédias terão de acontecer para que perca essa expressão trágico-cómica de quem não tem nada a ver com o assunto?

 

Retrate-se, humilhe-se perante os factos, não teve coragem de demitir Constança Urbano, já que ela não o fará por si, faça-o agora, antes que tenha de se demitir por inação.

 

A Geringonça veio-lhe mesmo a calhar, já que o BE e PCP andam mansos, alimentados a doces não protestam, não exigem. Uma pena que não se revoltem, pois se dessem o mote tenho a certeza que existiriam muitos portugueses que independentemente da cor política aceitariam o repto de sair à rua em protesto, tal como aconteceu na Galiza.

 

Cabe a nós cidadão exercer cidadania e não calarmos a revolta e exigirmos responsabilidades, cabe-nos a nós deixar os protestos das redes sociais e avançarmos para algo mais concreto, seja uma petição, uma manifestação, com certeza que haverá algo que se possa fazer para não deixarmos estas tragédias caírem no esquecimento.

 

Não podemos deixar a culpa morrer solteira, não podemos, basta, é preciso tomarmos uma atitude, uma posição, é preciso dizer de forma audível e bem clara que queremos os nomes os dos culpados e queremo-los julgados.