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Língua Afiada

Mito – Quem trabalha em Agosto não faz nada

Todos os anos é a mesma situação, quem cobre as férias da empresa é frequentemente vítima de piadas que não têm graça nenhuma, que se centram nas supostas férias pagas que temos.

Para os que na última quinzena de Agosto vão de férias, os que ficam a trabalhar, ficam de férias também, pois no seu pensamento quadrado e fechado em Agosto não há nada para fazer, nas suas cabecinhas alienadas acham que a empresa segura cá as pessoas por capricho, por preferência, por cegueira ou porque lhes apetece.

Uma novidade, o mundo não para em Agosto, nem sequer Portugal, muitas empresas não encerram, muitas pessoas trabalham e existem clientes, fornecedores que precisam de respostas, há correio físico, há e-mails, dúvidas, contactos, telefonemas, pagamentos, recebimentos e um sem fim de trabalho administrativo para executar, para não falar que é uma excelente altura para executar trabalho criativo e de planeamento, em menos de nada estamos a virar o ano e é preciso definir objetivos, estratégias, pedir orçamentos e tomar decisões.

 

Não gosto de cair em lugares comuns mas não passa de inveja, inveja de quem trabalha em Agosto conseguir escolher, dentro das limitações da função, uma altura diferente de férias e por isso conseguir aceder a promoções, então lá vem a queixa – se pudesse tirar férias quando quisesse também ia para fora.

Ninguém tem culpa de as pessoas não conseguirem abrir uma página de Internet para encontrar uma promoção, de terem receio de ser elas próprias a realizar as marcações e de quererem levar a casa às costas, acabam por ir todos os anos para o Sul de Portugal, com o Algarve no topo da lista, com tanta oferta fazem uma viajem de carro praticamente sempre para o mesmo local e convenhamos que em Agosto o Algarve não é propriamente um destino económico.

Livremo-nos de tirar férias logo ali em Março/Abril se o fizermos somos vítimas de ainda mais piadas e graçolas patéticas, as pessoas não aguentam pensar que ainda lhes faltam largos meses para terem as suas férias.

 

As pessoas não sabem o que querem, porque minutos depois já estão a dizer que trabalhar em Agosto deve ser muito mau, porque os outros estão todos de férias e toda a gente põe fotos das férias, lá vem a inveja outra vez, que é chato não poder conciliar férias com a família e amigos. E que para quem tem filhos é muito complicado porque quase tudo fecha na última quinzena e quem iria tomar conta deles.

No fundo estão contentes por conseguirem ter férias quando a maioria das pessoas tem, mas não demoram muito a tempo a recuar para dizer que em Agosto devemos fazer que trabalhamos, que quase de certeza não há nada para fazer e depois até vamos de férias fora da época alta e arranjamos boas promoções, que acabamos por ter mais sorte.

 

E é isto, o povo nunca está satisfeito, a vida dos outros faz-lhe cócegas, dores de cabeça, fá-los pensar em demasia e a fazer suposições, tirar conclusões e dar vereditos do que é melhor e pior sem qualquer conhecimento de causa.

Querem a verdade? Não existe solução perfeita, em Agosto na realidade há mais trabalho porque para além do nosso temos de estar disponíveis para fazermos o das pessoas que se encontram de férias, que podem até ser de outros departamentos, se por um lado é interessante escolhermos o período de férias, por outro é quase impossível agendar férias com família e amigos, longe vão os tempos em que marcávamos férias com outras pessoas.

Preocupem-se em gozar e aproveitar o vosso período de férias quando podem e deixem se se preocupar com o trabalho e com as férias dos outros, não há paciência para tanta pequenez e mesquinhez de pensamento.

Os portugueses e o dinheiro dos outros

Em Portugal há um estigma que paira sobre os ricos e afortunados, quem tem dinheiro, nem precisa ser muito, basta ser mais do que a pessoa que o está a criticar é sempre mal visto, ou porque tem pais ricos, ou porque teve sorte, ou porque é saudável, ou porque não teve nenhum percalço na vida, mérito e esforço raramente são associados ao sucesso e à fortuna.

Em casos de grande sucesso inventam-se até causas maldosas para o aparecimento do dinheiro, pode ser contrabando, roubo, fraude, exploração, é tudo uma questão de imaginação. Não sou ingénua ao ponto de pensar que estes casos não existem, existem claro e conheço alguns, mas nem todos os ricos enriquecem ilicitamente e conheço vários casos que enriqueceram graças ao sentido de oportunidade, esforço e inteligência.

 

Irrita-me profundamente este estigma e irrita-me ainda mais que se olhe para quem tem mais do que nós com inveja e desprezo, como se a pessoa tivesse feito algo de mal, isto piora substancialmente quando não há um historial que justifique o sucesso.

Quando existem cunhas, favores, heranças, as pessoas toleram, mas quando se sobe a pulso e se ganha mais do que a média não se é tolerado, existe sempre uma espécie de desdém de quem olha e vê um exemplo de uma pessoa que tinha tudo para levar uma vida banal, mas de que alguma forma consegue brilhar.

Odeio este pensamento mesquinho e tacanho dos portugueses, pessoalmente adoro estar rodeada de pessoas bem-sucedidas, não é por pessoas ricas monetariamente, mas por pessoas que souberam enriquecer em ideias, que conseguiram ir mais além do esperado, pessoas que sobressaem ou pela inteligência ou pelo trabalho árduo, admiro muito quem com pouca formação e com pouco apoio conseguiu alcançar o sucesso.

 

Este pensamento pequeno não afeta só as pessoas de sucesso, afeta todas as pessoas, na medida que qualquer pessoa que esteja ou pareça estar melhor na vida do que o típico pobre português é alvo de escrutínio e crítica.

Não é preciso estar-se bem de vida, ganhar-se muito bem, basta que se tenham prioridades e gastos diferentes, porque as pessoas nunca avaliam as diferenças, avaliam apenas o que ostros têm ou fazem que eles não têm ou não fazem.

Pessoalmente já tive alguns dissabores com estas comparações ridículas, das nossas relações somos dos casais que mais viajam, eu acho que viajamos pouco, conheço quem viaje muito mais, mas para pessoas que raramente saem de Portugal e que só costumam fazer férias uma vez por ano, nós parecemos muito viajados e ricos, já que associam o viajar a ter dinheiro.

Não fazem eles ideia que às vezes gastamos menos do que eles nas férias, porque pode-se visitar um país por 500€ ou por 1000€ tudo depende de quando se compra, como se compra e o que se compra.

 

Não pagamos casa (ainda) e por isso assumem que temos mais rendimento disponível e que o gastamos, se é verdade que temos mais rendimento disponível, também é verdade que não o gastamos, porque fazemos de conta que não o temos, porque sabemos que um dia o dinheiro que não nos sai da conta para a prestação de uma casa, será o bolo para uma casa.

Por isso reviro os olhos sempre que alguém me diz – Ah vocês viajam porque não pagam casa!

Ninguém assume que viajamos porque poupamos para viajar ou porque nos esforçamos a trabalhar, a desculpa é sempre porque temos menos despesas do que eles ou porque temos a sorte de ganhar mais, mesmo que ninguém saiba quanto ganhamos e quais são as nossas despesas.

 

O que essas pessoas não sabem é que poupamos muito mais do que a maioria pelo simples facto de não fazermos ideia de quanto iremos necessitar para uma casa, quem tem um crédito, sabe quanto lhe sai ao final do mês da conta, embora haja flutuação nas taxas de juro, há um valor base e há um valor a pagar e podem organizar a sua vida em função desses valores.

Quando não se faz ideia do valor tende-se a juntar o mais possível, pois tudo o que se junta pode ser importante no futuro, odeio pensar em dívidas e juros, nunca compramos nada a crédito e só essa ideia dá-nos arrepios aos dois, por isso poupamos, muito.

Poupamos por opção e por hábito, não valorizamos bens materiais, não nos deslumbramos com marcas, não valorizamos automóveis, apesar de ambos gostarmos de tecnologia só investimos em gadgets quando necessário e são sempre compras altamente ponderadas, as únicas coisas em que abrimos os cordões à bolsa é na alimentação e em experiências, especialmente as que envolvem viajar.

 

Gosto da nossa vida, temos um bom equilíbrio entre o que ganhamos e gastamos e como o gastamos, mas essas opções, essas prioridades parecem agastar muitas pessoas, não chega a ser inveja, porque a maioria dessas pessoas querem-nos bem, é uma espécie de irritação que têm, que sinceramente não consigo entender, pois o que os outros ganham ou gastam a mim não me afeta rigorosamente em nada.

Tomara eu estar rodeada de ricos, todos eles bem-sucedidos, além de saber que nunca precisaria de socorrer nenhum familiar ou amigo financeiramente, não teria ainda de levar com as suas irritações.

A maioria dos portugueses não poupa, não sabe onde gasta o dinheiro, não faz uma boa gestão financeira, mas adora gerir o dinheiro dos outros, mesmo que não saiba quanto é, o dinheiro dos outros é sempre mais, estica, só o deles é que não.

 

Getto & GastamWikipedia: Getto & Gastam or alternatively Getto y Gastam are a rap/reggaeton duo made up of Getto from Río Piedras and Gastam from Ponce, Puerto Rico respectively. The duo is signed to Buddha's Productions and have been involve in the infamous clash with Pina Records.

Será a inveja o bruxedo dos nossos dias?

O dia das bruxas já passou, mas elas se existirem, não exercem só durante um dia, uma vez bruxas, sempre bruxas.

Não acredito nas bruxas das fábulas, mas acredito que existem pessoas más, são em maior número que as pessoas boas, há entre os dois extremos uma grande área cinzenta, mas existem pessoas realmente más e pessoas genuinamente boas, embora acredite que as últimas sejam uma espécie em vias de extinção.

 

As pessoas más não estão diante de um caldeirão a despejar poções mágicas e a proferir receitas maldosas, mas congeminam para o mal dos outros com palavras e ações para as prejudicarem, se isto não é ser bruxa não sei o que será.

Sorte a nossa que não têm poderes mágicos e não voam numa vassoura quando são descobertas, sorte a delas que não são exiladas da comunidade ou queimadas numa fogueira.

Apesar de não terem poderes mágicos, de não fabricarem poções e não lançarem feitiços, as bruxas atuais lançam más energias, antigamente dizia-se que era o mau-olhado, o mau-olhado não é nada mais do que despejar sobre algo ou alguém um sentimento mau tão grande que as afeta, já vi plantas secarem de inveja, se a maldade tem a capacidade de matar uma planta, com certeza de terá algum efeito nefasto nos humanos.

 

Existem muitas forças, energias, espíritos o que lhe queiram chamar que não entendemos, mas que sentimos, não todos, acredito que umas pessoas são mais permeáveis do que outros, mais sensíveis ou simplesmente mais atentas.

Não gosto muito de pensar, falar ou escrever sobre este tema, pois quem procura encontra e nem sempre encontramos boas energias ao nosso redor, mas ultimamente tenho pensado mais no assunto.

Quando a vida não corre como o esperado tentamos arranjar algo ou alguém para culpar, faz parte da natureza humana culpar os outros, mitos, crenças e até religiões têm a sua origem no que não conseguimos explicar, fantasiamos o que não entendemos e justificamos o que não conseguimos aceitar.

 

Consciente disso tenho afastado o pensamento deste tema, pois na vida há muita coisa que não se explica, muitos acontecimentos fruto do acaso, muitas consequências que são apenas uma questão de sorte ou azar.

Mas as frases rapidamente evoluíram do acaso para o imaginário.

- Não temos sorte nenhuma.

- Acontece sempre algum imprevisto.

- Deve ser karma.

- Parece bruxedo.

 

E não é que parece mesmo? Tem sido sempre assim, pensamos que reunimos as condições todas, ultrapassamos todos os obstáculos, encontramos soluções, enchemo-nos de esperança e acontece sempre algo que não nos deixa avançar.

Será que existe alguém que nos deseje tanto mal que não nos condicione a vida?

Claro que não, primeiro não acredito que alguém tenha esse poder, segundo não consigo conceber quem nos deseje tanto mal, terceiro isto é só uma tentativa de encontrar uma resposta para uma pergunta que não pode ser respondida.

O meu lado racional sabe que este pensamento é uma fantasia, existem pessoas más que nos prejudicam deliberadamente outras inconscientemente, mas não existe nada capaz de nos condicionar toda vida.

 

Mas e se existir? Talvez isso explique o que sempre ouvi dizer desde criança:

“Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem.”

E vocês acreditam?

Acham que a inveja e a maldade de alguém podem fazer-nos mal?

Será a inveja a poção das bruxas dos nossos dias?