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Língua Afiada

Não é resistência à mudança, é resistência à regressão

Podem dourar a pílula, podem afirmar com factos comprovados que resulta, que faz a economia crescer, que era necessário cortar o mal pela raiz e mudar o panorama político, não me convencem.

Há muitas formas de mudança, nem sempre a mudança representa evolução per si, um corte com os partidos e políticos tradicionais não significa uma mudança positiva, significa apenas e só que o povo está cansado, exausto e aflito, precisamente nas condições ideais de ficar nas mãos dos lunáticos, dos populistas, dos ditadores.

Escudados pela loucura que se atribui e se desvaloriza nos génios, nos corajosos, nos arrojados, justificam-se ideias e ideais inconcebíveis, como se a prosperidade momentânea ou prometida anulasse as atrocidades veladas nos discursos carregados de ódio, racismo, misoginia e xenofobismo.

Não podemos ignorar a verborreia entalada nas promessas, esperando que só as medidas boas produzam frutos, muito menos podemos depositar esperanças nos restantes órgãos governativos para impedir que a democracia dê lugar uma ditadura.

Ao elegermos legitmamente um candidato a ditador, ao elegermos legitmamente um candidato fascista, ao elegermos legitmamente um candidato que acredita que não somos todos iguais, estamos a mandata-lo para instituir no país uma ditadura, um regime fascista e para destituir a liberdade e a igualdade.

Uma pessoa só não é perigosa, o perigo reside nas suas ideais, na sua propaganda ilusória e comprometedora, na sua agenda, nos planos que não divulga, nos cordelinhos que são mexidos em surdina nos bastidores.

Esperam-se tempos sombrios para o mundo, não é tempo de perigo para o Brasil, o perigo é global à medida que os ideais e a propaganda nacionalista e fascista penetram na mente das pessoas como sendo o único caminho para mudar a conjuntura.

O problema não reside no sistema, não há outro melhor que o democrático, o problema reside nas pessoas, nas manadas que são guiadas por quem as governa, as pessoas serão sempre o problema, mas mil vezes pessoas que acreditam e defendem a liberdade e a igualdade do que pessoas que querem amordaçar e distribuir a liberdade apenas por aqueles que consideram dignos.

Portugal vestido de cinzento

O ar tornou-se irrespirável, no horizonte e norte a sul e de este a oeste o céu é cinzento e denso, mas não é prenúncio de chuva, é consequência da nuvem gigante de fumo que nos assombra.

Portugal ardeu e continua a arder como uma folha de papel que jogamos na lareira e vemos encolher e sucumbir às chamas, impotentes e devastadas as populações lutam com o que têm e não têm até ao último momento, algumas lutam até à morte, pois torna-se demasiado tarde para fugir.

E no meio da desgraça, do medo, do terror, temos de ouvir dos responsáveis palavras como estas:

 

“Têm de ser as próprias comunidades a ser proactivas e não ficarmos todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver os problemas. Temos de nos auto proteger, isso é fundamental”, disse Jorge Gomes, secretário de Estado da Administração Interna à SIC-Notícias.

 

O que as comunidades não podem com certeza esperar é algo dos governantes.

Guardem as palmadinhas nas costas, os discursos comoventes encenados, a lengalenga dos relatórios, das responsabilidades e dos inquéritos.

O que acontece em Portugal é negligência criminosa, é uma total desresponsabilização dos organismos que deveriam assegurar o bem-estar da floresta portuguesa, um património de todos nós e de valor inestimável.

Se um cidadão atento e informado sabe que a nossa floresta é um rastilho as autoridades e governantes há muito mais tempo que o sabem.

Por acaso a subida da temperatura média é alguma novidade?

Por acaso a má gestão da floresta é um tema recente?

Por acaso o negócio do combate aos incêndios surgiu agora?

Por acaso as medidas de coação e penas para incendiários só agora se mostraram insuficientes?

Mas alguém ousa culpar o clima por este desvario? Como?

Com que coragem? Com que desplante dizem que a culpa é das temperaturas?

Com que descaramento diz António Costa que isto voltará a acontecer?

Por acaso só sabe agora da situação crítica do país?

Acordou agora da sua ilusão da prosperidade e crescimento?

Farão os incêndios parte da estratégia para baixar o défice?

E que faremos nós perante tamanha tragédia ecológica e humana?

Vamos fazer concertos solidários? Doar dinheiro que ninguém sabe como é gerido?

Vamos consolar as famílias que ficaram sem nada?

 

O que deveríamos fazer é exigir responsabilidades, dos de hoje e dos de ontem, dos que durante anos e anos sucessivamente contribuíram para o estado de calamidade em que este país se encontra.

Deixemo-nos de compaixão, o que é importante agora é lutar pela justiça, parafraseando Jorge Gomes:

 

Têm de ser as próprias comunidades a ser proactivas e não ficarmos todos à espera que apareçam os polícias e os juízes para nos resolver os problemas. Temos de nos auto proteger isso é fundamental.

 

Dado o estado da democracia em Portugal talvez seja realmente melhor devolver o poder ao povo para resolver os assuntos pelas próprias mãos.

Este país necessita de uma purga, é urgente que se este desgoverno termine, basta de compadrios, corrupção, ilusões e assaltos aos nossos bolsos.

Ah esperem estamos a falar de Portugal o país que elege corruptos condenados como presidentes de câmara e recebe em coro um ex-primeiro-ministro acusado de mais de 30 crimes.

Triste por ver este meu país a arder, mas ainda mais triste por saber que toda esta dor é em vão, pois este sofrimento, esta impotência, este sentido de injustiça perdurará, pois se até o primeiro-ministro admite que voltará a acontecer, é porque não tem intenções de resolver o problema.

 

Há uma expressão que diz devia-lhe nascer um pessegueiro…, a todos os que compactuaram para este cenário dantesco devias-lhe nascer um eucalipto a arder...

Pedrógão Grande e a exploração da tragédia

Em primeiro lugar quero expressar a minha solidariedade e o meu pesar a todas as pessoas que perderam familiares, amigos, vizinhos, casas, animais, vidas que nunca mais serão as mesmas, serão sempre pautadas pela dor atroz da impotência de não conseguirem fazer nada perante o cenário dantesco.

Vi as imagens da tragédia com os olhos carregados de lágrimas, emocionei-me com as imagens, com os relatos, com o abraço do Presidente ao Secretário de Estado, com as declarações, com a onda de solidariedade e compadeci-me com a dor que não é apenas de Pedrógão Grande, mas de Portugal inteiro.

 

Mas não consigo deixar de me sentir indignada com a exploração da tragédia e a forma crua como alguns jornalistas relatam os acontecimentos.

 

Na TVI a Judite de Sousa achou bem escolher um cenário onde era visível um corpo, um corpo. As imagens da floresta queimada e os carros destruídos não eram suficientemente chocantes, decidiram filmar num local onde jazia um cadáver, a falta de sensibilidade, respeito e empatia é perturbadora.

A jornalista da SIC ontem descrevia que iam transladar os corpos num camião frigorífico, que aguardavam pelo veículo, descreveu todo o processo com uma frieza desconcertante.

Um amigo comentou comigo que um outro jornalista resolveu perguntar à Ministra se iria demitir-se como Jorge Coelho se demitiu após a tragédia de Entre-os-Rios, a Ministra Constança Urbano de Sousa está há horas no centro da tragédia, está visivelmente transtornada e, políticas à parte, tem demonstrado uma grande sensibilidade.

 

Hoje, há um grande contraste entre as capas dos principais jornais, o Correio da Manhã escolheu uma foto com corpos e coloca na capa testemunhos e histórias das vítimas, o Jornal de Notícias coloca uma foto similar e remete também para as histórias das vítimas.

Já os jornais Público e I escolheram capas que na sua simplicidade traduzem toda a dor que o país sente.

Pela capa se denota o caracter da publicação e a forma como tratam a dor.

 

No meio de uma tragédia sem precedentes em Portugal, um terror que devastou uma região e compadeceu o país inteiro é perturbador assistir ao que o jornalismo em Portugal se transformou, uma feira de vaidades, onde quem conta a tragédia maior, quem mostra imagens mais chocantes ganha mais audiências. Vale tudo pela guerra das audiências.

Será que vale? Não. Todas as pessoas com quem falei ontem e hoje estão chocadas obviamente com a tragédia, mas também com a forma como a comunicação social tem explorado a dor e com a sua insensibilidade e falta de empatia.

Não nos podemos esquecer que as vítimas têm família e amigos que não merecem ver o desplante do sensacionalismo invés de jornalismo e informação.