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Língua Afiada

Vida frágil; Morte certa

A vida é demasiado frágil para nos prendermos com futilidades.

A vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada com banalidades.

A vida é demasiado curta para adiarmos o que nos faz felizes.

 

Quando morrer não quero tristezas, quero trajar de branco e estar descalça, despojada de pertences, com rosas brancas nas mãos.

Não quero luto, não quero preto, quero tudo branco, cálido e sereno, se é a paz que apregoam é paz que quero sentir na hora de partir.

Não quero lamúrias, não quero choro, quero música e sorrisos, quero poesia e alegria, histórias, recordações, amor.

Quando morrer não quero que chorem a minha morte, quero que celebrem a minha vida, o importante é o que fazemos em vida, a morte é apenas uma consequência de estarmos vivos.

Não sei o que acontece depois da morte, mas quero acreditar que estaremos num local melhor.

Com os anos vamos perdendo os nossos na vida terrena, que dizem ser passageira, se nos faz sofrer agora, reconforta-nos que no dia da partida teremos uma calorosa receção.

Já conto com algumas pessoas para me receberem, muitas partiram fora de tempo, demasiado cedo, deixando não só saudades, mas um gosto amargo no coração, é por elas que penso cada vez mais na morte, que é sinónimo de pensar na vida.

Quando morrer, independentemente da idade, do tempo, do motivo, não quero que seja uma derrota, quero que seja uma vitória pela vida que tive, curta, média ou longa, o importante é que tenha sido rica em sentimentos e emoções.

Não deixem nada para depois, o depois é demasiado volátil, o importante é o hoje e o agora.

Rodeiem-se de quem gostam, não percam tempo com quem não merece, sejam amigos, caridosos e empáticos, bondosos e generosos, coloquem um sorriso no rosto e o amor no coração e por mais cinzentos que sejam os dias a vossa alma estará iluminada.

 

Adeus Dolores O’Riordan

Foram tantas as vezes que cantei as músicas dos Cranberries a plenos plumões, num pranto de lágrimas, em momentos de raiva, a celebrar vitórias, a espantar demónios, a festejar conquistas, foram a banda sonoro de momentos bons e maus, uma presença constante na minha adolescência.

A voz de Dolores O’Riordan era forte, quente, carregava a dose certa de fúria e conseguia ser doce e aconchegante.

Partiu demasiado cedo, demasiado nova, teria tanto ainda para dar ao mundo.

 

Em sua memória deixo-vos a minha música favorita da banda - "No Need to argue"

 

 

Heróis e Vilões, o respeito e o desprezo após a morte

Na semana passada Portugal perdeu duas personalidades importantes de quadrantes completamente opostos, um empresário e um músico, Belmiro de Azevedo e Zé Pedro, ambos reconhecidos pelo seu trabalho e mérito cada um na sua área.

Zé Pedro figura incontornável do rock português membro fundador da banda Xutos & Pontapés, guitarrista e compositor será recordado para sempre pelo povo português e em especial pelos milhares de fãs.

Belmiro de Azevedo empresário visionário de origens humildes que construiu um império, era a terceira pessoa mais rica de Portugal e, segundo a Forbes, ocupava a 1121.ª posição na lista das personalidades mais ricas do mundo em 2016 com uma fortuna avaliada em 1,39 mil milhões de euros.

Ambos dispensam apresentações e ambos despertaram um sem fim de reações ao longo dos últimos dias.

 

Zé Pedro viu reconhecido o seu trabalho e a sua importância na música portuguesa, consagrou-se, um herói largamente acarinhado, mas nem por isso alguns se escusaram de apontar as suas falhas, denegrindo sem pudor a sua imagem no dia da sua morte, friamente e cruelmente, apelidando-o de malandro e outros adjetivos que não me atrevo a reproduzir por respeito à sua memória e acima de tudo à sua família e amigos.

 

Belmiro de Azevedo por seu turno não despertou a mesma onda de comoção nos portugueses, respeitado e enaltecido por várias altas figuras, com direito a largo tempo de antena nos principais canais televisivos e peças na imprensa foi desprezado por uma larga fatia da população.

Porquê?

Porque Belmiro de Azevedo era personificação de tudo o que os portugueses odeiam, um capitalista rico, que não tinha a desculpa de ter pais ricos, um empreendedor nato, que ainda tinha a distinção de ser humilde e discreto.

Não quero aqui fazer julgamentos de carácter, se Belmiro de Azevedo era ou não uma boa pessoa isso dirá apenas respeito aos que privaram com ele, se no seu percurso terá ou não cometido alguma ilegalidade, não sei, muito se fala, mas nunca vi qualquer prova, vi sim muita especulação, talvez uma tentativa dos incrédulos ou invejosos de justificarem o seu sucesso, que foi um visionário e um grande empresário, disso não tenho qualquer dúvida e por isso não compreendo o ódio disseminado por tantas pessoas em comentários maldosos, desrespeitosos e completamente inoportunos.

 

O povo português é um caso sério de estudo, não admite, salvo raras exceções, uma piada de humor negro, mal do humorista que ouse fazer uma piada com a morte, mas é o mesmo que perante a notícia da morte de uma pessoa não se coíbe de lhe tecer os mais altos e refinados insultos, como se a sua vida fosse insignificante, como não merecesse respeito e luto.

Vi desfiarem-se insultos, não bastando o insulto ainda se congratulam com a sua morte, como de um assassino se tratasse, aplausos, sorrisos, escreveram as frases mais degradantes como se tudo o que Belmiro de Azevedo tivesse feito durante a sua vida fosse para prejuízo do povo português, um vilão impar na história de Portugal.

 

Pergunto-me se todas as pessoas que o maldizem serão assim tão isentas de culpa.

- Não farão elas as suas compras no Continente? Serão as mesmas que se atropelam para conseguir o último brinquedo a 50% de desconto, ou as que entram e saem 2,3 e 4 vezes da loja para levar 12 garrafas de óleo de cada vez?

- Serão as que compram os seus produtos tecnológicos na Worten aproveitando para passear pelo shopping que também é da Sonae e ligam à amiga de um número da Nos a avisar que a Modalfa está com 20% de desconto?

- Serão as que compram as suas roupas de desporto na Sportzone?

- Serão as que gostam de ficar nas lojas até ao fecho sem qualquer respeito pelas pessoas que lá trabalham mesmo que seja um Domingo à noite ou Véspera de Natal?

-Serão as que reclamam que os supermercados têm poucos funcionários, mas que não perdem 2 minutos do seu tempo para escreverem uma reclamação/sugestão ao gerente em vez de reclamarem com os funcionários?

 

As acusações mais recorrentes foi que enriqueceu à custa de ordenados mínimos e da exploração de fornecedores, é uma justificação demasiado redutora para o ódio que lhe atiram pois centra-se apenas num negócio do grupo o retalho, e em especial o alimentar.

É incrível que culpem os empresários pelo pagamento de ordenados mínimos, mas que não façam nenhuma pressão sobre os Governos sucessivos para que os aumentem, sendo deles a responsabilidade de o definir, é incrível que acusem as grandes cadeias de abuso de poder negocial mas depois façam lá todas as suas compras.

 

A falta de respeito a Belmiro de Azevedo e a ignorância que demonstram sobre o funcionamento do mercado são o espelho das preferências e prioridades do povo português, que em vez de reconhecerem o mérito de quem construiu um império, que empregou milhares de portugueses, que dinamizou o país e exportou os seus principais modelos de negócio um pouco para todo o mundo, preferem fazer dele um vilão, só porque enriqueceu.

 

Os portugueses não gostam de ricos, especialmente os que lhe dão o exemplo de que qualquer um pode ser rico, Belmiro de Azevedo era uma espécie de Ronaldo do mundo empresarial, era demasiado lutador, demasiado dedicado, demasiado rígido, demasiado disciplinado, demasiado direto, demasiado frontal para que o povo de brandos costumes gostasse dele.