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Língua Afiada

Adeus Dolores O’Riordan

Foram tantas as vezes que cantei as músicas dos Cranberries a plenos plumões, num pranto de lágrimas, em momentos de raiva, a celebrar vitórias, a espantar demónios, a festejar conquistas, foram a banda sonoro de momentos bons e maus, uma presença constante na minha adolescência.

A voz de Dolores O’Riordan era forte, quente, carregava a dose certa de fúria e conseguia ser doce e aconchegante.

Partiu demasiado cedo, demasiado nova, teria tanto ainda para dar ao mundo.

 

Em sua memória deixo-vos a minha música favorita da banda - "No Need to argue"

 

 

Heróis e Vilões, o respeito e o desprezo após a morte

Na semana passada Portugal perdeu duas personalidades importantes de quadrantes completamente opostos, um empresário e um músico, Belmiro de Azevedo e Zé Pedro, ambos reconhecidos pelo seu trabalho e mérito cada um na sua área.

Zé Pedro figura incontornável do rock português membro fundador da banda Xutos & Pontapés, guitarrista e compositor será recordado para sempre pelo povo português e em especial pelos milhares de fãs.

Belmiro de Azevedo empresário visionário de origens humildes que construiu um império, era a terceira pessoa mais rica de Portugal e, segundo a Forbes, ocupava a 1121.ª posição na lista das personalidades mais ricas do mundo em 2016 com uma fortuna avaliada em 1,39 mil milhões de euros.

Ambos dispensam apresentações e ambos despertaram um sem fim de reações ao longo dos últimos dias.

 

Zé Pedro viu reconhecido o seu trabalho e a sua importância na música portuguesa, consagrou-se, um herói largamente acarinhado, mas nem por isso alguns se escusaram de apontar as suas falhas, denegrindo sem pudor a sua imagem no dia da sua morte, friamente e cruelmente, apelidando-o de malandro e outros adjetivos que não me atrevo a reproduzir por respeito à sua memória e acima de tudo à sua família e amigos.

 

Belmiro de Azevedo por seu turno não despertou a mesma onda de comoção nos portugueses, respeitado e enaltecido por várias altas figuras, com direito a largo tempo de antena nos principais canais televisivos e peças na imprensa foi desprezado por uma larga fatia da população.

Porquê?

Porque Belmiro de Azevedo era personificação de tudo o que os portugueses odeiam, um capitalista rico, que não tinha a desculpa de ter pais ricos, um empreendedor nato, que ainda tinha a distinção de ser humilde e discreto.

Não quero aqui fazer julgamentos de carácter, se Belmiro de Azevedo era ou não uma boa pessoa isso dirá apenas respeito aos que privaram com ele, se no seu percurso terá ou não cometido alguma ilegalidade, não sei, muito se fala, mas nunca vi qualquer prova, vi sim muita especulação, talvez uma tentativa dos incrédulos ou invejosos de justificarem o seu sucesso, que foi um visionário e um grande empresário, disso não tenho qualquer dúvida e por isso não compreendo o ódio disseminado por tantas pessoas em comentários maldosos, desrespeitosos e completamente inoportunos.

 

O povo português é um caso sério de estudo, não admite, salvo raras exceções, uma piada de humor negro, mal do humorista que ouse fazer uma piada com a morte, mas é o mesmo que perante a notícia da morte de uma pessoa não se coíbe de lhe tecer os mais altos e refinados insultos, como se a sua vida fosse insignificante, como não merecesse respeito e luto.

Vi desfiarem-se insultos, não bastando o insulto ainda se congratulam com a sua morte, como de um assassino se tratasse, aplausos, sorrisos, escreveram as frases mais degradantes como se tudo o que Belmiro de Azevedo tivesse feito durante a sua vida fosse para prejuízo do povo português, um vilão impar na história de Portugal.

 

Pergunto-me se todas as pessoas que o maldizem serão assim tão isentas de culpa.

- Não farão elas as suas compras no Continente? Serão as mesmas que se atropelam para conseguir o último brinquedo a 50% de desconto, ou as que entram e saem 2,3 e 4 vezes da loja para levar 12 garrafas de óleo de cada vez?

- Serão as que compram os seus produtos tecnológicos na Worten aproveitando para passear pelo shopping que também é da Sonae e ligam à amiga de um número da Nos a avisar que a Modalfa está com 20% de desconto?

- Serão as que compram as suas roupas de desporto na Sportzone?

- Serão as que gostam de ficar nas lojas até ao fecho sem qualquer respeito pelas pessoas que lá trabalham mesmo que seja um Domingo à noite ou Véspera de Natal?

-Serão as que reclamam que os supermercados têm poucos funcionários, mas que não perdem 2 minutos do seu tempo para escreverem uma reclamação/sugestão ao gerente em vez de reclamarem com os funcionários?

 

As acusações mais recorrentes foi que enriqueceu à custa de ordenados mínimos e da exploração de fornecedores, é uma justificação demasiado redutora para o ódio que lhe atiram pois centra-se apenas num negócio do grupo o retalho, e em especial o alimentar.

É incrível que culpem os empresários pelo pagamento de ordenados mínimos, mas que não façam nenhuma pressão sobre os Governos sucessivos para que os aumentem, sendo deles a responsabilidade de o definir, é incrível que acusem as grandes cadeias de abuso de poder negocial mas depois façam lá todas as suas compras.

 

A falta de respeito a Belmiro de Azevedo e a ignorância que demonstram sobre o funcionamento do mercado são o espelho das preferências e prioridades do povo português, que em vez de reconhecerem o mérito de quem construiu um império, que empregou milhares de portugueses, que dinamizou o país e exportou os seus principais modelos de negócio um pouco para todo o mundo, preferem fazer dele um vilão, só porque enriqueceu.

 

Os portugueses não gostam de ricos, especialmente os que lhe dão o exemplo de que qualquer um pode ser rico, Belmiro de Azevedo era uma espécie de Ronaldo do mundo empresarial, era demasiado lutador, demasiado dedicado, demasiado rígido, demasiado disciplinado, demasiado direto, demasiado frontal para que o povo de brandos costumes gostasse dele.

Paradoxo da Vida – A Morte

Passamos a vida a fazer planos, a organiza-la para alcançar metas e sonhos, delineamos objetivos e traçamos o caminho para lá chegar.

Na esperança de cumprir um sonho ou de garantir o futuro adiamos muitas vezes a vida, porque sabemos que é melhor prevenir agora do que nos vermos remediados ou aflitos no futuro.

Temos imenso medo da morte, a morte pode ser até considerada assunto tabu, é difícil pensar na própria morte e no que isso significa.

 

Eu, penso desde cedo, penso no que aconteceria às pessoas que amo e me rodeiam se eu morresse, penso quem sentiria a minha falta e penso no que eu perderia do tempo com elas, é uma sensação agoniante pensar em tudo o que poderíamos perder.

Não fazemos ideia do que o futuro nos reserva, mas só a noção da falta de um futuro dá-nos um aperto no estômago, não saber, não estar, não viver, não é uma sensação que queiramos sentir.

 

Se sentimos tanto receio da morte, se não sabemos quando ela chegará, porque não aproveitamos nós o presente e pensamos tanto num futuro que não sabemos se existirá?

 

Se hoje alguém vos dissesse irás morrer daqui a um ano, o que fariam?

Continuariam a viver a vida exatamente da mesma forma?

Mudariam completamente a forma de ver o mundo?

Tentariam cumprir algum sonho?

Teriam desculpas a pedir?

Teriam algum perdão a conceder?

Olhariam para a vida com outros olhos?

 

É difícil calçarmos os sapatos de uma pessoa que sabe quando a sua vida terminará, temos a vaga ideia que tentará fazer as pazes com a vida e com o mundo, é o que é esperado, tentará cumprir promessas e sonhos e quem sabe até realizar aquele sonho que parecia impossível.

Se temos noção do que faríamos nessa posição, porque não o fazemos todos os dias?

Afinal não sabemos se amanhã estaremos vivos, quando adormecemos nunca sabemos se acordaremos no dia seguinte, todos os dias são uma dádiva, quantos deles aproveitamos como se fossem o último?

 

Este assunto tem-me assolado a mente diversas vezes nos últimos tempos, talvez porque por razões maiores, a minha vida esteja numa espécie de suspensão.

Acredito que a nossa passagem pela vida e por este mundo, havendo ou não outro, deve deixar uma marca positiva, não precisamos de descobrir a cura para uma doença rara para darmos sentido à vida, basta contribuir para que a vida de quem nos rodeia seja melhor.

 

Com este pensamento positivo e com esta visão otimista da vida, acredito que podemos ser felizes todos dos dias ao proporcionarmos felicidade aos outros, por isso proponho a mim própria começar cada dia como se fosse o último.

Não será preciso cometer nenhuma loucura, cumprir um sonho ou ser inconsequente, basta encarar a vida com otimismo, stressar menos, sorrir mais, cantar mais, conversar mais, partilhar mais, ajudar mais, amar mais, viver mais as coisas boas que a vida nos dá.

 

Todos os dias assistimos a pequenos milagres, só temos de nos deixar maravilhar por eles, como uma criança que vê o mar pela primeira vez, devemos olhar para a vida com espanto, surpresa, admiração, deslumbre e agradecimento.

Acabemos com o paradoxo da vida de temer a morte, mas desperdiçar a vida.