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Língua Afiada

Esgotada

A semana prolongou-se em cinco dias rápidos e preenchidos, entre ideias, tarefas e afazeres o trabalho feito só aumentou o que ainda está por fazer, passou depressa demais e nunca mais acabava para sossegar a mente e descansar o corpo no aconchego do lar.

Tudo incomoda, as botas, as calças, o top e o soutien, a roupa comprime-me o corpo, mas é a mente que se sente mais espremida, a barriga não cabe entre a cadeira e a secretária, espreita pelo tampo, imponente, desafiante quase que a pedir que me levante e caminhe para longe.

A pele estica, o umbigo que sempre conheci enterrado começa a aflorar, dentro de mim convivem um bebé e um monte de gases, possivelmente infligidos pelas castanhas que degustei ontem, mas o bebé parece feliz, quentinho, protegido, acolhido no ventre, a azia não me largou hoje, lembrando-me que tenho uma responsabilidade a tempo inteiro.

Quero muito senti-lo a todo o momento, mas só o sinto esporadicamente, são deliciosas carícias, mimos que me fazem sorrir de excitação a qualquer hora do dia, tenho cantado mais, criei uma ligação com a música que julgava extinta.

Quero chama-lo pelo nome, iniciar longas conversas, conhece-lo e dar-me a conhecer, às vezes ainda parece que estou a sonhar e dou por mim a pensar – estou mesmo grávida – e sorrio, como se com esta barriga fosse possível esquecer, é apenas uma confirmação, uma consciencialização do nosso pequeno milagre.

Estou cansada, mas feliz, estou irritada, mas motivada, mais uma vez descobri que temos uma força e uma resiliência capazes de superar tudo, agora quero descansar apenas para voltar com mais força e ideias, tantos projetos para executar, a mente fervilha, mas é preciso ter calma, tudo ganhou um novo tempo e é preciso aceita-lo e aprender a viver com ele.

Bom fim-de-semana.

Mistérios da mente de grávida

Quando pensei que o tempo não pudesse passar ainda mais rápido, eis que o meu cérebro abranda, desliga e me mostra que pode passar muito, mas muito mais depressa. Um contrassenso, um verdadeiro paradoxo, abrandamos, desligamos e o tempo voa, literalmente desaparece porque não conseguimos a rentabilidade desejada.

Isto acontece para que as grávidas consigam relaxar, para que não morram de ansiedade e para que não estejam em constante sobressalto, isto porque pode correr tanta coisa mal que se estivéssemos constantemente a pensar nos riscos sofreríamos horrores e provavelmente teriam de nos dopar, a sábia genética e engenharia humana já se encarregou que isso aconteça naturalmente, é por isso que o cérebro das grávidas fica mais lento e mais desligado.

 

É ótimo que assim seja, estamos mais sensíveis e mais emotivas se não estivéssemos também mais desligadas a gravidez seria um tormento, são diversos os pensamentos maus que me assolam a mente, é como se todos os medos e receios estivessem ali à espreita para aflorarem num momento de distração.

Numa noite destas deitei-me a pensar no problema de uma das pessoas mais importantes da minha vida e simplesmente não conseguia adormecer atormentada, receosa, temendo o pior, senti uma angústia tão grande que parecia estar a ser puxada para um buraco negro sem fundo, incapaz de lutar contra a escuridão sombria que me invadia e comprimia o peito.

 

Sonho muito, não me recordo dos sonhos, mas sei que são maus, são possivelmente pesadelos, deve ser neles que exorcizo os medos, mas mesmo assim quando menos espero sou invadida por receios, ontem quando entrava no chuveiro pensei – e se escorrego? Sou dada a quedas, já caí grávida, felizmente o meu pensamento foi rapidíssimo, consegui nem sei explicar como controlar para cair para o lado direito estrategicamente em cima do saco da praia quando pela lógica o normal seria cair para a frente.

A conduzir penso inúmeras vezes no que pode acontecer, não é um pensamento bonito, tenho tendência a pensar graficamente, sinto calafrios, dor de estômago, sacudo os pensamentos maus e canto para espantar os males.

 

Este modus operandi do cérebro não me é totalmente estranho, sempre que estou muito feliz há uma espécie de treva escondida nas sombras das profundezas do meu inconsciente que tenta aparecer, não sei se por aviso, para me recordar da fragilidade da felicidade se para me ferir, lembrando-me que bem lá no fundo não está tudo bem, há sempre algo de ruim a acontecer.

 

Entre o esquecimento das banalidades e o desapego das importâncias, o tempo passa entre picos de humor, cansaço e um sorriso difícil de arrancar do rosto, por vezes queria que o tempo fosse mais generoso e me permitisse usufruir plenamente de cada detalhe, mas é aí que percebo que o tempo é sempre igual, eu é que estou diferente e é assim que um dia sou uma pessoa normal e no outro sou o centro do mundo, não por mim, mas pelo milagre que carrego no ventre.

 

O que me apetece fazer neste momento - é mandar tudo às urtigas!

Odeio, como odeio lidar com a irresponsabilidade dos outros, ainda mais quando os irresponsáveis ultrapassam qualquer limite e agem como se nada fosse.

Sinceramente penso muitas vezes se não serão os mais inteligentes, vivem a vida sem preocupações e quem se preocupa é que leva de prémio rugas, cabelos brancos, stress, ansiedade que terminam muitas vezes em problemas sérios de saúde.

Há um momento na vida em que dizemos – basta e que deixamos de pensar nos outros para pensarmos em nós, infelizmente às vezes só circunstâncias muito especiais nos levam a tomar essa atitude, uma pena que não o consigamos fazer antes.

A vida tem destas coisas mágicas, dá-nos de presente situações que nos alteram toda a nossa vida e de repente o que era importante deixa de o ser. Já havia aprendido, não sem muita resistência, que não podia levar às costas quem não se preocupa, quem procrastina e quem não se rege por padrões altos e exigentes de qualidade.

Recusei-me, lutei contra esse desleixo, contra essa falta de brio, porque sou perfeccionista e não consigo simplesmente fazer ou fazer bem, se posso fazer com excelência, mas acabei por me convencer que a excelência não é valorizada, não é remunerada e que desde que seja feito está tudo bem.

Para mim não está tudo bem, mas aprendi a lidar com isso, remar constantemente contra a maré é cansativo e cansei-me, por isso agora remo ao meu próprio ritmo mas sem chocar com as correntes dos outros.

Quando os nossos esforços não são reconhecidos o melhor que fazemos é direcioná-los para outra direção, quem fica a perder é quem tem a incapacidade de os reconhecer.