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Língua Afiada

Introspecção

Sou otimista, alegre e muito positiva, de trato fácil e sorriso aberto, sou uma pessoa de quem se gosta facilmente e que se inveja facilmente, sem qualquer pretensão, a felicidade incomoda muito mais do qualquer outra característica, mais do que o dinheiro, do que a beleza e do que a inteligência. A minha boa disposição, confundida com demasiada leveza e facilidade com felicidade importuna e inquieta muitas pessoas.

Tenho uma carapaça dura, uma armadura que me escuda das energias negativas, dos desgostos, das frustrações, o rir, procuro rir e sorrir muito porque me faz bem, escolho estar bem-disposta porque a vida é muito pior se escolhermos encara-la com má disposição.

Sempre escondi as minhas inseguranças no otimismo, por vezes exagerado, mas que sempre foi a minha tábua de salvação, acreditar que tudo correrá bem é o primeiro passo para que efetivamente tudo corra bem.

Sempre escapei ao que desejava e não obtive com o entusiasmo no que tive e consegui, procurei sempre rodear a frustração de conquistas, saborear o que tenho para não sentir falta do que não tenho.

Convivi sempre bem comigo, soube regular a minha autoestima entre o que era, sou, e o que poderia ser e consigo ser, consciente que só depende de mim melhorar, nunca procurei culpados, assumindo que as minhas falhas são minhas e cabe a mim colmata-las.

Considero-me bem resolvida, equilibrada e feliz, mas falta-me ainda muito para estar completa, tranquila e descansada, falta desligar de algumas pessoas, arrumar assuntos em gavetas, definir prioridades futuras e conseguir dedicar-me apenas ao que me faz feliz, aí estarei perto da plenitude, que estou certa nunca atingirei porque só a insatisfação e a procura por mais dão sentido à vida.

Estou a atravessar simultaneamente uma das fases mais maravilhosas e mais tristes da minha vida, uma dualidade impossível que nunca concebi viver, uma aprendizagem diária, no verdadeiro sentido da palavra um dia de cada vez.

Um teste à minha resiliência, à minha personalidade, aos meus valores e ao meu orgulho, um teste que vou superando dia após dia, tentando não perder o foco, são muitas as vezes que tenho de me relembrar do porquê, é muito fácil ceder, mesmo sabendo que estamos certos, quando tudo conspira para esquecermos.

Não esqueço, recuso-me deixar que me pisem novamente, recuso-me a deixar que me tratem repetidamente como uma criança, desprovida de bom senso, inteligência e vontade, ao permitir este tipo de comportamento estamos a dizer como queremos ser tratados, durante anos não consegui, agora não consigo e nem quero esquecer que mereço respeito e consideração.

Travo esta batalha num momento frágil, com hormonas ainda à procura do seu devido lugar, com novas rotinas a estabelecerem-se e com a autoestima mais baixa que alguma vez tive, nunca tive problemas de autoestima, travo uma batalha com eles agora, na pior altura.

No meio deste turbilhão recuperei uma caraterística que durante anos preferi esconder, decalcar e esquecer, a intuição, a premonição, a sensibilidade para as energias, não sei bem o que lhe chamar, mas com a qual me esqueci de como saber lidar, não a sei interpretar o que me causa imensa angústia e ansiedade.

“Sempre tive um dedo que adivinha”, quem sabe se não é apenas inteligência emocional, mas consegui sempre antever muitos comportamentos das pessoas, antecipar reações e ler nas entrelinhas, mas neste momento intuo mais do que isso, é algo diferente e um pouco assustador.

Acredito que a vida é feita de ciclos que se iniciam quando existem mudanças profundas na nossa vida, ter um filho é uma das mudanças mais radicais que podemos ter, uma mudança que nos desnuda a nós e quem nos rodeia, sem carapaça, sem subterfúgios somos obrigados a conviver com a realidade que nem sempre é a que esperávamos.

Estava preparada para a maternidade, para lidar com toda a responsabilidade, peso, dedicação, abnegação a que isso obriga, mas não estava preparada para perceber a dura realidade que me rodeava, ela sempre esteve lá, não quis ver porque era mais fácil ignorar, desviar o olhar, tentar justificar, desvalorizar, a partir do momento em que engravidei passou a ser impossível ignorar, a partir do momento em que a minha filha nasceu passou a ser impossível aceitar.

Não aceito, recuso-me, já pensei e repensei, já vi a situação de diferentes ângulos, já calcei os sapatos dos outros e não encontro motivo, justificação, sentido nas suas atitudes, resta-me a resignação e aceitar que a diferenciação que sempre senti não está apenas na minha cabeça, não é um capricho, uma ideia fixa, é real e efetiva e que sempre me afetou mais do que quis crer.

É triste que constituir família nos faça “perder” a nossa família, é difícil, é duro, mas prefiro encarar a realidade e aprender a viver com ela do que passar o resto da minha vida a viver de migalhas de atenção, a ter de provar constantemente o meu valor e a fingir que está tudo bem.

Não, não está tudo bem, mas ficará tudo bem. Há todo um processo para lá chegar, uma espécie de luto, de introspeção, de crescimento e amadurecimento, levará o seu tempo, será um percurso muitas vezes complicado, com muitos percalços, mas não há atalhos, nem caminhos mais curtos, um trilho solitário por mais acompanhada que me sinta, que percorrerei sem medos e sem carapaças confiante que no fim tudo correrá bem.

O silêncio que não se cala

O silêncio desesperado para falar

Não há voz, som que o faça calar

Há dormência e há esquecimento

Há dor, solidão e arrependimento

 

Vida madrasta, vida maldita

Fustiga, fere, lacera e castiga

Os dias correm em subterfúgios

Mas não há para eles refúgios

 

Lamento, lamúria, desencanto

Acordes desalinhados pelo ar

Com voz fina e trémula os canto

 

Saudade, saudade do conto

Das fadas prometidas o cantar

Procuro-as, mas não as encontro

 

Os portugueses não têm tempo para filhos

Em 2016 escrevi que os “Portugueses não têm dinheiro para filhos”, hoje escrevo sobre o tempo, na verdade os portugueses não têm dinheiro, nem tempo para filhos, é um ato de coragem decidir ser mãe e pai em Portugal.

 

"é preciso saber lidar com a realidade que não estaremos lá nos momentos mais importantes"

 

Temos os filhos para os outros criarem, ainda bem pequeninos entregamo-los aos cuidados de familiares quando temos sorte ou de desconhecidos quando não temos outra opção, muitas vezes numa ginástica orçamental gigantesca, as creches são dispendiosas e impessoais, tentamos encontrar justificações para não sermos nós a tomar conta deles, mas a única e verdadeira justificação é que somos obrigados a trabalhar por questões financeiras.

O horário de amamentação permite que a mãe trabalhe 6 horas, se às 6h acrescentarmos a hora de almoço e uma hora para a viagem, são 8h fora de casa, precisamente as 8h em que o bebé se encontra mais ativo, precisamente nas 8h que o bebé começa a dizer as primeiras palavras, começa a fazer as primeiras habilidades, deve ser de uma tristeza profunda perceber que quem ouviu a primeira palavra do nosso filho não fomos nós.

Para além da angústia da ausência e da preocupação é preciso saber lidar com a realidade que não estaremos lá nos momentos mais importantes, não veremos provavelmente os seus primeiros passos e não estaremos lá para os reconfortar após a primeira queda.

 

"Não é de espantar que se recorra a todas as estratégias e mais algumas para distrair e entreter as crianças"

 

Terminado o horário reduzido, a mãe passa a estar 10h fora de casa, numa altura em que a criança tem de dormir 10 a 11 horas por noite, 10h para trabalho, 11h para dormir sobram 3h, 3h que incluem o banho, o jantar e possivelmente a ceia, resta-nos quanto tempo para dedicar à criança, tendo em conta que os pais também têm de comer e preparar as refeições?

Este cenário é quase idílico, pois tem como base um horário de trabalho de 8h de segunda a sexta perto de casa e idêntico para ambos os pais, se falarmos em pessoas que perdem 1h em cada deslocação, em horas extra e trabalhos por turnos, esta logística muda e piora consideravelmente.

Não é de espantar que se recorra a todas as estratégias e mais algumas para distrair e entreter as crianças, os pais não têm tempo para brincar com eles, muitas vezes chegam esgotados e stressados de um complicado dia de trabalho e não conseguem encontrar energia para ter tempo de qualidade com os filhos, é difícil ter tempo de qualidade sem uma vida com qualidade.

 

"é difícil conciliar a vida familiar com a vida profissional, alguém fica sempre a perder, normalmente o elo mais fraco, as crianças"

 

Com o passar dos anos a situação só piora, começam as atividades extra, os eventos desportivos aos fins-de-semana, a vida social das crianças que começa a ser mais intensa que a dos pais e os TPC, alguém entende como é que com carga horária que os miúdos têm, estes ainda levem inúmeros exercícios para fazer em casa?

Os pais dividem-se para dar conta das tarefas, é difícil conciliar a vida familiar com a vida profissional, alguém fica sempre a perder, normalmente o elo mais fraco, as crianças, multiplicam-se os problemas, os pais deixam de ser pais, deixam de ser um casal e às vezes chegam a perder a própria identidade, vivendo em piloto automático numa roda em que não há tempo para nada, quanto mais tempo para pensar na vida.

 

"os portugueses não têm dinheiro para ter uma vida digna"

 

Mem sequer podemos acusar os pais de trabalharem para o consumo, fica bem dizer que vivemos alheados dos filhos porque lhe queremos dar tudo, não é verdade, vivemos alheados dos filhos porque não temos alternativa, porque temos de os alimentar, vestir e educar.

Caímos na falácia que estamos assim porque queremos, porque temos as prioridades invertidas, na verdade não temos grandes alternativas, mas preferimos pensar que temos, é mais fácil assumir a culpa do que perceber que não vivemos para sermos felizes, mas que vivemos para pagar contas, na verdade como escrevi em 2017, os portugueses não têm dinheiro para ter uma vida digna.

 

"Os portugueses não têm tempo para viver como podem ter tempo para ter filhos?"

 

Assumiu-se que é normal entupir as crianças de atividades desde as 7h da manhã às 7h da tarde, deixando-lhe pouco tempo para serem crianças, assumimos que isso lhes faz bem, formatamo-las para serem quadradas, sem pensamento crítico, sem curiosidade e dizemos-lhe que um dia terão tudo só porque achamos que merecem ter.

Nem sequer fazemos o exercício que ninguém tem o que é mais importante, tempo para viver. Os portugueses não têm tempo para viver como podem ter tempo para ter filhos?

Continuamos embrenhados em não assuntos, em indignações sem sentido, entupidos até aos olhos de lixo, de notícias falsas, de falsas questões, de contestações desprovidas de sentido e continuamos sem reclamar o que realmente importa, tempo para viver.

 

"as pessoas andam revoltadas e frustradas e acham que é do tempo estar cinzento"

 

Portugal é dos países onde mais se trabalha na Europa, 39,5h semanais, só é ultrapassado pela Grécia, curiosamente os países mais produtivos são aqueles onde se trabalha menos horas, de notar que a média em Portugal incorpora a função pública que neste momento trabalha 35 horas semanais, caso contrário seria ainda pior.   

Os dados são bem específicos, são factos, há uma correlação entre o horário de trabalho e produtividade, há inúmeros estudos que concluem que para a nossa saúde deveríamos trabalhar menos horas, quanto mais trabalhamos, mais cansaço acumulamos, somos menos produtivos, temos de realizar horas extras, trabalhamos mais, mais cansaço e o ciclo nunca é interrompido.

Não temos tempo para ter filhos, não temos tempo para viver, mas ninguém parece estar realmente preocupado com isso e os dias sucedem-se uns atrás dos outros e as pessoas andam revoltadas e frustradas e acham que é do tempo estar cinzento, a culpa é do tempo, mas não do clima, é da falta de tempo para viver.