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Língua Afiada

Tudo ao contrário – multas para quem deixar animais de estimação mais de 12h sem companhia

Em Portugal, a norma não é exigir condições para fazer as coisas bem, é punir as pessoas por não terem alternativas ou reclamar condições para fazer as coisas mal.

Este projeto de lei do PAN é anedótico, mas só o é porque, infelizmente, há pessoas que são obrigadas a se ausentarem de casa mais de 12h e não é assim tão difícil isso acontecer, basta ter duas horas de almoço, um hábito português que não faz qualquer sentido e trabalhar longe de casa e/ou ter de recorrer a múltiplos transportes públicos.

Como escrevi há tempos os portugueses não têm tempo para viver, é claro que não lhes sobra tempo para dedicar aos animais de estimação, falta-nos tempo para os filhos, para os companheiros, como poderia ser diferente com os animais?

A situação não passa por multar as pessoas por estarem fora de casa, mas sim criar condições para as pessoas passarem mais tempo em casa ou em lazer, assim como não faz sentido reclamar de horários mais alargados nas escolas e prolongamentos gratuitos, o que importa reclamar é menos horas de trabalho.

Será que ainda não entenderam que as pessoas são mais produtivas se andarem mais motivadas e menos cansadas, será que é assim tão difícil perceber que a felicidade e o bem-estar são o melhor motor da economia?

Não existe sequer necessidade de experimentação, o modelo está mais que testado e aprovado em outros países, há centenas de estudos que comprovam que bebés e crianças pequenas devem passar mais tempo com a família para o bem da sua saúde física e mental, assim que como há centenas de estudos que afirmam que é benéfico o convívio das crianças com animais de estimação, bem como estudos que comprovam que uma jornada de trabalho longa é prejudicial à saúde e à produtividade que começa a diminuir progressivamente e exponencialmente com o passar das horas.

Não física quântica é a mais pura das verdades, mas parece que ninguém quer saber disto.

Não se entende também porque é que os funcionários públicos trabalham 7h diárias e está estabelecido na lei que para o privado são 8h, bem sei que o está estabelecido é o máximo, mas porque é que é que o máximo não são 7h?

A divisão do dia em 8h de trabalho, 8h de lazer e 8h de sono é uma relíquia da revolução industrial antes de existir a tecnologia de ponta que existe nos dias de hoje e quando as pessoas viviam ao lado das fábricas, atualmente este modelo não faz qualquer sentido, não só não se adequa às necessidades da nossa vida, como não se adequa às necessidades das empresas, devemos trabalhar para a eficiência e a eficácia, fazer as coisas bem no mais curto espaço de tempo.

Quanto à proteção dos animais, concordo inteiramente que se protejam e que se produza legislação para isso, mas convém também dar formação às pessoas, porque na verdade não conheço uma única que pessoa que tenha levado uma multa por maus-tratos a animais, assim como não vejo multas para quem deixa dejetos de animais em todo lado e não respeita a sinalética.

É muito triste ver cães a fazer necessidades nas praias e nos jardins onde depois brincam crianças, há que ter noção que os animais são importantes, mas os humanos, especialmente os que ainda não sabem cuidar de si são mais, se há locais específicos para levar animais a passear são esses que devem usar se os quiserem livres, se os levam para outros locais tenham em consideração o comportamento do animal e o seu próprio comportamento.

Duas notas:

Primeiro, é peculiar que estejam preocupados que se deixe um animal sozinho mais de 12h e ninguém se preocupe que crianças com menos de 3 anos estejam precisamente 12h com estranhos, por mais profissionais que sejam, são estranhos e não lhes conseguem dar a atenção necessária.

Segundo, não menos peculiar é que continuem a querer legislar sem que seja realizada pressão para que seja cumprida a legislação que já se encontra em vigor, aprovar leis para agradar o eleitorado é uma falácia, o que precisamos é de alterar comportamentos pela formação e educação.

Não se aceitam conselhos da Ryanair, só pedidos de ajuda da TAP

O que se tem passado em Portugal é tão grave, tão inconcebível que temos empresas externas a apresentar queixas contra o Governo português, um Governo que apesar de ser soberano, tem de responder não só a EU, mas aos contribuintes, mas os contribuintes andam demasiado distraídos para pedir contas, já as empresas parecem estar mais atentas e decididas a defender os seus interesses.

O Tribunal Geral de Justiça Europeu aceitou a queixa da Ryanair, anulando a ajuda de 1.200 milhões de euros dada no ano passado à TAP. Ao mesmo tempo, o tribunal suspendeu os efeitos dessa decisão até à Comissão Europeia ter oportunidade de fundamentar melhor as razões que a levaram a aprovar este auxílio do Estado, na sequência da crise pandémica.

É claro que acusam a Ryanair de estar em guerra comercial e de querer aproveitar-se de uma possível falência da Tap, a Ryanair, por seu lado, reconhece que Portugal tem o direito de investir na TAP, mas lamenta que os três mil milhões de euros (até agora a TAP recebeu 1.662 milhões de euros) de fundos escassos dos contribuintes estejam a ser desviados de investimentos em escolas e hospitais para subsidiar uma companhia como a TAP que descreve como “falhada” e com “preços altos”.

O Executivo acusa a Ryanair de não respeitar os direitos laborais portugueses e de só estar a defender os interesses dos seus acionistas, a resposta não tardou, “Continuaremos a reconhecer os direitos dos nossos trabalhadores […], pagando aos nossos pilotos até 150.000 euros por ano e à nossa tripulação de cabine entre 30.000 euros e 40.000 euros, o que é o dobro do que o ministro paga às enfermeiras e professores em Portugal”

Devo dizer que aqui estou do lado da Ryanair, se colocarmos de um lado da balança a proteção do emprego e do outro um rendimento condigno, sinceramente acho que para a economia e para todos seria melhor receber ordenados mais altos.

É preciso mudar quase tudo em Portugal, mas é urgente mudar a forma como as empresas são vistas, não podemos ter de um lado as milionárias que ora são injetadas por capital de todos nós, ora são devedoras dos bancos, dívida que somos todos nós a pagar e do outro lado as que são vistas como porquinhos mealheiros para o Estado que todos os dias fazem um esforço ingrato para fazer face à carga fiscal.

Não antevejo uma solução a curto-prazo, os partidos políticos estão completamente ultrapassados, o PS acha que é o dono disto tudo, controla tudo e não tem verdadeiramente ninguém que lhes faça frente, o BE acha que salva tudo com a lapidação das grandes fortunas, incapaz de perceber que não se gera riqueza a roubar a quem é empreendedor, mas sim a aprender com eles, o PSD é uma anedota, os ares Lisboetas devem ter afetado a cabeça a Rui Rio que parece ter em vez de espinha dorsal gelatina, CDS-PP não tem espaço político, CDU está completamente ultrapassado, ainda estão presos no século passado e o Chega é uma afronta à democracia e à liberdade e um perigo.

Prestes a receber uma injeção brutal de capital, a bazuca, caminhamos a passos largos para mais um oportunidade desperdiçada, no fim de contas é um balão de oxigénio para nos manter à tona durante mais uns anos até perceberem que afinal estamos falidos, porque vai-se lá entender Portugal não é produtivo, nem competitivo.

Os mesmos erros de sempre, dinheiro a parar aos bolsos dos mesmos de sempre, corrupção, compadrio, uma Justiça ultrapassada e ineficaz e um povo manso e cordeiro que gosta de encher o peito para dizer que a mim de máscara ninguém me apanha, mas para lutar pelos seus interesses mais básicos, o direito a não ser enganado, ludibriado e constantemente roubado já não tem sangue na guelra, já não lhe estala o verniz, já não há frutas no sítio.

Já não se pode confiar em ninguém, todas as instituições foram engolidas pelo sistema e nós limitamo-nos a assistir impávidos e serenos enquanto eles brincam com as nossas vidas como se fossem Deuses no Olimpo.

Residências para estudantes, mas só para filhos de funcionários públicos

Não é intriga, não é inveja, é mesmo uma questão pertinente, este tipo de medida é constitucional?

Todos sabemos que em Portugal temos dois tipos de pessoas, as de primeira que estão de alguma forma ligadas ao Estado, políticos, funcionários públicos e os amigos dos amigos dos políticos e todos os outros, mas declarar assim à cara podre, não encontro mesmo outro termo, que disponibilizarão 47 camas para estudantes deslocados filhos de funcionários públicos ultrapassa todos os limites.

Está consagrado na Constituição o direito à Educação, mas o Estado acha que só alguns têm direito a ter camas para estudar, uma coisa é ceder residências a quem tem poucos rendimentos e não dar esse direito a quem tem meios para pagar as residências aos filhos, outra é separar os filhos de funcionários públicos dos filhos dos outros, qual é o argumento que sustenta essa divisão?

Em tempos de pandemia vimos as desigualdades acentuarem-se como nunca e a ministra Alexandra Leitão acha boa ideia lançar esta notícia como se fosse uma medida extremamente boa e importante para dar possibilidade de estudar a quem tem poucos meios, atenção é só para filhos de funcionários públicos “pobres”, mas só para filhos de funcionários públicos.

Neste país sucedem-se vergonhas atrás de vergonha enquanto os nossos políticos pavoneiam-se de inauguração em inauguração como se este país fosse um paraíso, e é, mas só para eles que basicamente saem impunes de tudo, da corrupção, da gestão danosa, da negligência, da incompetência.

Agora, a ministra diz que não conseguiu antecipar a polémica, claro que não, estão tão habituados a dispor do nosso dinheiro como bem entendem que nem sequer equacionam que as pessoas possam discordar, sendo que aqui não se trata de discordar, trata-se de justiça, de igualdade e equidade.

Seria suposto que com o evoluir da sociedade e com a difusão da informação que estas situações deixassem de acontecer, mas ao que parece não só acontecem como são as consequências que são tidas como inesperadas.

Retrato de um país anedótico com uma classe política que teria piada se não fosse tão degradante e deplorável.