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Língua Afiada

Sorte, Nervos e Ronaldo

Em três palavras podemos resumir o jogo de Portugal com Marrocos.

Imensa dificuldade em trocar a bola, dificuldade em manter a posse de bola, imensos passes falhados e uma total incapacidade em ganhar ressaltos, foi assim a equipa portuguesa.

Valeu-nos o golo de Ronaldo, que parece levar a equipa às costas com a ajuda da defesa, palmas para Rui Patrício, meio campo inexistente com um ataque impossível de descrever, é a segunda vez que Ronaldo dá meio golo que não se concretiza.

Foram 91 minutos de puro sofrimento, nervos e muito praguejar, um jogo fraco que nada teve a ver com o primeiro.

Esperemos que contra o Irão a equipa esteja finalmente afinada porque não nos podemos fiar sempre na sorte.

Força Portugal.

Ronaldo é o melhor do mundo e mesmo assim não chega

Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo, neste momento é-lo em título, mas mesmo que não fosse, se estivéssemos a comparar jogadores do mesmo nível, para mim seria porque é português e esse seria sem dúvida o fator de desempate, só que não estamos a comparar jogadores do mesmo nível, porque há o Ronaldo e depois existem todos os outros, já que Ronaldo não é comparável a ninguém.

Curiosamente para muitos portugueses Ronaldo não é o melhor do mundo, aliás alguns portugueses parecem ter até uma espécie de ódio de estimação ao jogador e esperam secretamente que este cometa um erro, só para o acusarem de não ser o melhor.

 

Não vou falar de estilo de jogo, efetivamente há quem prefira um jogador que construa a fama com fintas, até esses dizem que Ronaldo é um jogador muito completo, mas depois lá atiram – Gosto mais do estilo do Messi, Messi nasceu para jogar futebol.

O que eu lhes digo é que Messi pode ter nascido para jogar futebol, até pode ter nascido com a bola nos pés, mas Ronaldo nasceu para vencer, neste caso é no futebol, mas a sua capacidade de vencer não se esgota no campo, é assim em tudo na vida.

É precisamente esta capacidade de luta, dedicação, esforço e mérito que chateia os portugueses, porque nós perdoamos os craques que nascem com um talento inato, atribuímos o talento à sorte e não há nada a fazer contra a sorte – Ah teve sorte!

Os portugueses não suportam os esforçados, esses serão sempre os coitadinhos que têm de trabalhar muito para chegar ao topo – Ah é um jogador construído! Não é talentoso, treinou para ser assim!

 

Como é que se explica porque é que valorizamos mais uma pessoa que teve a sorte de nascer com um talento fenomenal do que uma pessoa que transforma uma apetência acima da média num talento de outro mundo?

Simples, porque pessoas como Ronaldo demonstram-nos que podemos sempre melhorar, evoluir, crescer, é claro que para transformarmos uma competência em algo grandioso, é preciso que essa competência seja acima da média, mas mesmo que não seja, é sempre possível fazer mais e melhor.

O mérito, o mérito tira do sério os portugueses, porque em Portugal só encontramos duas formas de chegar ao topo, a cunha e a sorte, nunca por trabalho e esforço.

Ronaldo é a antítese do português, é o esforçado que lutou para chegar ao topo, chegado lá continuou a lutar, nunca se dá por satisfeito, é o inconformado que quer sempre fazer mais e chegar mais além.

 

Os portugueses também não perdoam Ronaldo por este não ter aquela falsa humildade que tanto gostamos, não tem e ainda bem porque se ele é o melhor não tem de se envergonhar de o dizer em voz alta, mas também não é o típico gabarolas desbocado a quem perdoamos as graçolas por lhe darmos “um desconto”, o jogador é equilibrado até no discurso e até aí prova que é possível melhorar.

Cristiano é o melhor do mundo mas mesmo assim não chega para agradar alguns portugueses que preferem os sortudos e as cabeças de vento, esquecendo que podemos ter tudo para sermos grandes, mas se nos faltar o essencial, foco e inteligência nunca atingiremos o máximo do nosso potencial.

Começa o Mundial e a Dormência

Hoje começa o Mundial de Futebol e isso são boas notícias para quem manda em Portugal e para Bruno de Carvalho, porque a partir de hoje o tema dominante será a participação de Portugal nesta competição, a sermos corretos o tema já é quente há algum tempo, mas agora que a competição começa haverá muito mais assunto, já que para além de sabermos o que Cristiano Ronaldo comeu durante o dia, também teremos estratégias, lances, golos, faltas para analisar e muitos prognósticos e contas de cabeça para fazer.

 

O Mundial chega na companhia dos Santos Populares e precisamente ao mesmo tempo que o calor. Haverá combinação mais fantástica que esta? Não. Estão lançados todos os ingredientes para a festa, a alegria e para a celebração da magia do futebol.

Nada contra, também farei parte da festa, irei torcer, pular e gritar pela Seleção Nacional e quem sabe até chorar, espero mesmo chorar porque ao contrário do que possa parecer, no meu caso, chorar no futebol é sinónimo de vitória.

A festa é bonita, mas confesso sinto um certo receio do que possa acontecer durante este período de euforia e distração, altura ideal para se lançarem bombas que ao contrário de um grande estrondo, fazem apenas um pequeno estalido inofensivo e imediatamente esquecido.

 

Há pouco lia um artigo de opinião sobre a infantilização do povo português e embora não concorde em todos os pontos com Helena Garrido, não posso deixar de concordar com o essencial, o povo português nunca se sente responsável por nada, a culpa é sempre dos outros, até os sucessivos Governos (escrevo demasiadas vezes esta conjugação de palavras) atribuem as culpas aos outros, passando mais tempo a culpar tudo e todos em vez de pensarem em estratégias que façam realmente a diferença.

 

O artigo fala da desresponsabilização quando algo corre mal, mas há outra face da moeda, as mesmas pessoas que responsabilizam os outros pelos seus erros, mesmo que sejam os mais grosseiros e absurdos, são as mesmas que se acomodam e não reivindicam nada, mais uma vez culpam os outros, o Governo, a conjuntura, a cultura e mais o que se lembrarem para encontrar desculpas para a sua miséria de valores.

Sim, a maior miséria é a de não querer fazer o que é certo, seja estender a mão a quem precisa, seja recusar-se a participar no esquema corrupto que corrompe a nossa economia, em Portugal também existe um “Mecanismo” forte e poderoso, uma máquina que nos mantém reféns e nos infantiliza fazendo-nos crer que nada podemos fazer para mudar.

Essa máquina aproveitará agora a festa do futebol para nos ludibriar mais um bocadinho, faz parte do funcionamento do mecanismo.

 

Bruno de Carvalho continuará agarrado ao poder, inventado se for preciso estatutos, acredito mesmo que por mais narcisista que uma pessoa possa ser, não haveriam muitos países onde isto pudesse acontecer, alguém manter-se no poder só porque simplesmente quer contra tudo e contra todos, Bruno de Carvalho está para o futebol como Nicolás Maduro está para a política.

 

No mundo da ilusão e da fantasia tudo corre bem e conforme o esperado, o sol trouxe o calor e a vontade de beber cervejas e comer umas sardinhas assadas ou umas fêveras grelhadas, tudo vai bem neste cantinho à beira-mar plantado, o povo está contente e seguro que a crise acabou, o que vinha mesmo, mesmo a calhar era Portugal ser campeão do mundo, tenho a certeza que aí nem um incêndio de grandes proporções extinguiria a felicidade, a honra, a audácia, o feito da vitória.

 

Uma pena que esta dedicação, garra, fome de vencer que os portugueses sentem no futebol não se estenda a outras áreas da sua vida, podiam tomar como exemplo o Melhor do Mundo que até é português, mas é mais fácil culpar a pequenez do país, o Governo, a cultura, os outros, muito mais fácil do que tentar fazer a diferença.