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Língua Afiada

Vida

Existe uma surdez abafada pelas conversas, inaudível pelas palavras, existe um silêncio da alma enquanto o cérebro se pronuncia em frases perfeitas, mas completamente incompreensíveis.

Um diálogo surdo de sentimentos, inflamado pela raiva contida, deturpado pelas emoções que ferem, cortam e dilaceram.

Não há lugar para a calma, não há lugar para a concórdia, não existe espaço para o encontro, existe apenas distância entre o que verdadeiramente queremos, o que é racional e o que expectamos.

O caminho é tortuoso, íngreme, rolam pedras, calhaus, a terra desfaz-se debaixo dos pés, puxa-nos para baixo, com o auxílio das mãos esgravatamos, com as unhas encardidas e os dedos feridos em sangue vivo deslizamos, uma pausa para respirar, recuperamos o fôlego e voltamos à escalada.

Sinuoso trajeto pejado de armadilhas, a cada passo um percalço, a cada inspiração uma fadiga irrecuperável, os ombros pesam-nos, um peso maior que nós.

Respiramos pesadamente num compasso mais acelerado que a vida, miramos o céu medindo a distância entre o humanamente possível e o fim que aparece risível, só ao alcance de uma entidade divina.

Falamos, gritamos sem som, ninguém nos ouve, ninguém nos compreende, é impossível entender o que não é transponível em palavras, não é possível fazer um raio-x à alma, continuamos impercetíveis, inaudíveis, exaustos.

Seguimos em frente, não sabemos se subimos em direção ao topo ou apenas para cair no abismo, não existem respostas, nem sequer concebemos as perguntas certas.

Sentimo-nos no limbo entre o racional e o que almejamos, mediando a sorte, as emoções, as vontades, os anseios e os desejos, dando um passo depois do outro, como quem acorda dia após dia num ritual tão natural como respirar, respiramos, mas será que vivemos?

Será essa a pergunta certa? Repensamos, colocamos tudo em perspetiva, equacionamos mudar, fazemos planos.

O despertador toca.

Fazemos a nossa rotina matinal.

Saímos para trabalhar.

Dizemos bom dia, acenamos, sorrimos.

Esquecemos o âmago amargo da alma e vivemos mais um dia.

Coisas insignificantes com significado

 

Abri uma folha digital em branco, uma necessidade, uma urgência de não deixar por dois dias o blog sem textos, não sei se é obrigação, dever, responsabilidade ou simplesmente hábito.

Primeiro pensei em escrever algo leve como se quer e se recomenda às sextas, depois pensei explicar-vos que tenho cada vez menos tempo disponível para escrever, mas logo me encolhi, estamos todos sem tempo, nota-se, haveria ainda assim muito para discorrer sobre as dificuldades que tenho tido em organizar o meu tempo, no acumular de tarefas causadas por mudanças e acréscimos, muito poderia falar da minha falta de disciplina e da inabilidade de priorizar.

Pensei ainda dar-vos um review de uma série, mas não me apetece escrever sobre as histórias dos outros, apetece-me escrever sobre a minha história, mas não quero que este blog seja apenas sobre a minha vida, quero que seja sobre como vejo a minha vida e a dos outros e também como vejo o mundo.

O mundo é cada vez menos um lugar convidativo, desilusão constante, carece de exemplos de força, honestidade, idoneidade, verdade, não há dia em que não se descubra uma corrupção, um crime, sempre os houve, mas o que esperar quando os exemplos, os líderes são o oposto do esperado?

Há tanto para discutir e refletir, pensamos dois minutos nos temas fraturantes do mundo e seguimos com a nossa vida, a reunião não pode ser adiada, o comboio não espera por nós, o jantar não se prepara sozinho, embrenhamo-nos na vida sem nos inebriarmos dela, afinal o tempo corre e nós corremos com ele, incapazes de perceber que ele só corre porque nós vivemos a correr.

Paradoxo da Vida – A Morte

Passamos a vida a fazer planos, a organiza-la para alcançar metas e sonhos, delineamos objetivos e traçamos o caminho para lá chegar.

Na esperança de cumprir um sonho ou de garantir o futuro adiamos muitas vezes a vida, porque sabemos que é melhor prevenir agora do que nos vermos remediados ou aflitos no futuro.

Temos imenso medo da morte, a morte pode ser até considerada assunto tabu, é difícil pensar na própria morte e no que isso significa.

 

Eu, penso desde cedo, penso no que aconteceria às pessoas que amo e me rodeiam se eu morresse, penso quem sentiria a minha falta e penso no que eu perderia do tempo com elas, é uma sensação agoniante pensar em tudo o que poderíamos perder.

Não fazemos ideia do que o futuro nos reserva, mas só a noção da falta de um futuro dá-nos um aperto no estômago, não saber, não estar, não viver, não é uma sensação que queiramos sentir.

 

Se sentimos tanto receio da morte, se não sabemos quando ela chegará, porque não aproveitamos nós o presente e pensamos tanto num futuro que não sabemos se existirá?

 

Se hoje alguém vos dissesse irás morrer daqui a um ano, o que fariam?

Continuariam a viver a vida exatamente da mesma forma?

Mudariam completamente a forma de ver o mundo?

Tentariam cumprir algum sonho?

Teriam desculpas a pedir?

Teriam algum perdão a conceder?

Olhariam para a vida com outros olhos?

 

É difícil calçarmos os sapatos de uma pessoa que sabe quando a sua vida terminará, temos a vaga ideia que tentará fazer as pazes com a vida e com o mundo, é o que é esperado, tentará cumprir promessas e sonhos e quem sabe até realizar aquele sonho que parecia impossível.

Se temos noção do que faríamos nessa posição, porque não o fazemos todos os dias?

Afinal não sabemos se amanhã estaremos vivos, quando adormecemos nunca sabemos se acordaremos no dia seguinte, todos os dias são uma dádiva, quantos deles aproveitamos como se fossem o último?

 

Este assunto tem-me assolado a mente diversas vezes nos últimos tempos, talvez porque por razões maiores, a minha vida esteja numa espécie de suspensão.

Acredito que a nossa passagem pela vida e por este mundo, havendo ou não outro, deve deixar uma marca positiva, não precisamos de descobrir a cura para uma doença rara para darmos sentido à vida, basta contribuir para que a vida de quem nos rodeia seja melhor.

 

Com este pensamento positivo e com esta visão otimista da vida, acredito que podemos ser felizes todos dos dias ao proporcionarmos felicidade aos outros, por isso proponho a mim própria começar cada dia como se fosse o último.

Não será preciso cometer nenhuma loucura, cumprir um sonho ou ser inconsequente, basta encarar a vida com otimismo, stressar menos, sorrir mais, cantar mais, conversar mais, partilhar mais, ajudar mais, amar mais, viver mais as coisas boas que a vida nos dá.

 

Todos os dias assistimos a pequenos milagres, só temos de nos deixar maravilhar por eles, como uma criança que vê o mar pela primeira vez, devemos olhar para a vida com espanto, surpresa, admiração, deslumbre e agradecimento.

Acabemos com o paradoxo da vida de temer a morte, mas desperdiçar a vida.