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Língua Afiada

Quando se passa um projeto a um cliente, morre um pouco de nós.

Quando se passa um projeto para as mãos de um cliente é como se estivéssemos a dar um pouco de nós, mesmo que nos tenham pago pelo trabalho é sempre complicado abdicar do controle do mesmo, umas vezes sentimo-nos bem, entregamos com carinho, sabendo que o cliente tomará conta dele e o fará crescer, outras sentimos a boca a amargar, cerramos os dentes e tentamos esquecer que aquele cliente irá descurar o projeto ou até destrui-lo.

Quando se trabalha com criatividade é assim, quem cria e desenvolve arrisca-se a ver os seus sonhos desfeitos, é quase como educar um filho para ser boa pessoa e ele revelar-se uma má pessoa, pode parecer uma comparação exagerada, mas os projetos quando são realizados com carinho e dedicação, são parte de nós.

 

Este dilema acontece muito nas áreas de design e comunicação, não imaginam a facada que sentimos no coração quando alguém “morfa” um logótipo ou quando o aplica indevidamente, mas o design gráfico e o design em geral são completamente desvalorizados em Portugal e para uma grande parte das pessoas trata-se apenas de um desenho, não fazendo a mínima ideia do trabalho que existe na sua criação, o que não é surpreendente quando profissionais da área vendem logótipos a granel por uma bagatela com o mesmo design seja para um talho ou para um dentista.

O nosso trabalho está feito, são dadas indicações de uso, exemplos certos e errados, depois disso cabe ao cliente ser inteligente.

 

No meio de todos os trabalhos há um que me custa particularmente passar, a gestão de páginas, outra tarefa altamente desvalorizada, é só publicar, quem sabe gastar algum dinheiro em anúncios e já está, ignoram completamente que existe toda uma dinâmica própria, horários certos para publicar, palavras-chave e uma imagem a manter.

Imagens menos boas, publicações repetidas, comentar a própria publicação dão má imagem, mas erros ortográficos e de gramaticais arruínam qualquer imagem, às vezes seria melhor não publicarem nada.

Sempre que passo a gestão de uma página fico triste, especialmente quando sei que horas e horas de dedicação serão arruinadas em poucos dias, há uma página em particular que geri durante 6 meses que me dá imensa pena, está literalmente abandonada e tem um potencial incrível.

Hoje passei a gestão de uma página de Facebook e Instagram, não foram 6 meses, foi apenas 1 mês e meio de dedicação, mas eis que a primeira publicação do cliente me despedaça o coração, pelo descuido é possível perceber que será um descalabro total, mas é seguir em frente, quando os projetos não são nossos não há nada a fazer, é seguir em frente com a consciência tranquila.

 

Só existe um revés, não podemos anunciar ao mundo que a gestão da página mudou e infelizmente algumas pessoas associarão a nós os erros, creio que depressa se terão consciência que já não tem uma gestão profissional, mas até lá também a nossa imagem é prejudicada.

Ossos do ofício, não existem profissões perfeitas.

Boa notícia, terei mais tempo para outras coisas e já não estarei de estar conectada a tempo inteiro, há que pensar positivo.

 

A nobre arte de não fazer nada e parecer muito ocupado

Há uma espécie de trabalhadores que é exímia em não fazer nada e ao mesmo tempo parecer essencial e vital para o funcionamento das empresas, digo-vos é uma arte, uma arte que não está ao alcance de todos, pois é muito difícil de executar e especialmente de sustentar ao longo do tempo.

Parecer ocupado sem realmente o estar é relativamente fácil, difícil é mesmo ocupar-se de modo a parecer que se está a trabalhar, não é fácil estar dias seguidos num escritório sem apresentar um único trabalho, é preciso ocupar o tempo de alguma forma e ter sempre um backup para apresentar trabalho caso alguém questione.

 

Em conversas com colegas a questão é sempre a mesma: Como é que ninguém das chefias percebe este comportamento? É realmente estranho que ninguém perceba que na empresa existem pessoas que praticamente não fazem nada durante o mês e que em alguns dias não fazem literalmente e rigorosamente nada.

Tanto perguntaram que comecei a analisar o comportamento dessas pessoas e existe realmente um padrão, e surpresa das surpresas não é nada de surpreendente, vejamos então em que assenta a sua estratégia.

 

- Cara compenetrada e séria em frente ao PC, uma expressão a roçar a má disposição, de quem está atolado até aos olhos em trabalho;

- Responder aos colegas que se está com muito trabalho e por isso não executar de imediato o lhes é pedido;

- Responder às chefias que irá parar de imediato o que está a fazer para executar prontamente o que lhe pedem;

- Em conversas dar a entender o quão importante é a sua função na empresa, de preferência referir que não há mais ninguém capaz de realizar o seu trabalho;

- Travar amizades no trabalho, especialmente com os chefes e levar essas amizades para a esfera pessoal;

- Resolver problemas pessoais dos colegas e especialmente dos chefes, uma pessoa prestável e disponível é sempre bem vista;

- Escolher conscientemente as amizades no local do trabalho, importa agradar aos chefes, mas também aos colegas que lhes guardam as costas e que imagine-se até os ajudam no trabalho quando reclamam que estão sobrecarregados;

- Estar atento a todas as conversas e ter sempre uma sugestão para o trabalho dos outros, mostrar-se muito interessado e entendido, mesmo que não perceba nada do assunto;

- Sair mais tarde que os colegas, mesmo que se tenha atrasado de manhã, fica sempre bem ser visto a sair depois da hora.

O maior problema é conseguir manter esta ilusão por muito tempo, porque há imensa probabilidade de acontecerem duas coisas:

- O encostado encosta-se tanto e fica numa posição tão confortável que começa a dar nas vistas e quando lhe é pedido um trabalho não tem capacidade de resposta.

- Os colegas que mais tarde ou mais cedo percebem a situação e começam a comentar uns com os outros, pode acontecer uma de suas situações ou fazem queixa às chefias ou desmotivam e passam eles também a trabalhar menos.

 

A empresa fica sempre a perder, para quem percebe a situação a revolta e a desmotivação podem ser de tal forma incomodativas que podem alterar o seu humor e o seu trabalho, inevitavelmente irar-se-á criar mau ambiente, fazer queixa e comparações com os colegas não se revela boa opção, até porque teremos de lutar contra a imagem perfeita que o colega levou anos a contruir sustentada muitas vezes por uma amizade com o chefe, as opções que nos restam são conviver com a situação ou mudar de emprego.

 

Antes de mandarmos tudo às urtigas e colocarmos em risco a nossa carreira por causa de um colega incompetente, o melhor é fazermos exatamente o oposto, trabalhar com afinco, demonstrar dedicação, apresentar trabalho e falar desse trabalho.

Quando se cria o hábito de dizer e expor o que se tem feito, tudo fundamentado com provas da sua execução, chegará uma altura em que será percetível que esse colega não tem realmente nada a apresentar e que a sua função não é na verdade tão essencial e importante como ele fez parecer.

Muitas vezes os chefes e diretores têm as listas de tarefas dos colaboradores, mas não sabem exatamente o que eles fazem e como as desempenham, para eles o importante é o trabalho estar feito, uma pena que a estratégia de recursos humanos seja inexistente e que não existam avaliações completas dos funcionários, planos de carreira e possibilidades de progressão.

Enquanto a cultura organizacional não mudar, existirão sempre estes parasitas que deambulam nas empresas como se elas realmente precisassem deles. A culpa é da gestão que cria condições para que estes parasitas se alimentem da empresa sem contribuírem para o seu funcionamento e desenvolvimento.

 

Galp, que vergonha!

Todos os dias nos deparamos com condições de trabalho deploráveis, a exploração e a escravatura laboral não se esgotaram com o fim da austeridade, prolongaram-se e estão bem patentes em Portugal um pouco por toda a parte mais ou menos camufladas.

O último exemplo que tive foi durante este fim-de-semana quando resolvemos abastecer numa Galp Pay & Go, um posto aberto 24 h sem funcionários, onde é o cliente que realiza todo o processo desde o abastecimento ao pagamento, qual não é o nosso espanto quando percebemos que têm na bomba um funcionário colocado especificamente para explicar o funcionamento da máquina ao sol, ao vento, à chuva, sem sequer um chapéu, um banco ou cadeira, guarda-sol ou qualquer tipo de resguardo.

Uma pessoa ali em pé, provavelmente durante 8h, sem qualquer identificação a não ser uma t-shirt da Galp, sem um local para se proteger do sol, relembro que no sábado estavam 27 graus pouco depois da hora de almoço, nem um local para guardar uma garrafa de água ou lanche a pessoa tinha à sua disposição.

 

O mais absurdo é que no local se encontrava a antiga cabine de atendimento totalmente revista de vinil a fazer publicidade à comodidade da bomba, comodidade essa que a Galp não transpõe para os funcionários que contrata, que mesmo sendo temporários devem ter condições dignas para exercerem as suas funções.

Uma empresa que ganha milhões, que devido às novas tecnologias dispensou centenas de funcionários, não tem dinheiro para colocar um balcão, um stand up com guarda-sol para ter um funcionário? Será que retirar o vinil e voltar a coloca-lo posteriormente é assim um custo tão avultado para a Galp?

Ficamos revoltados e incomodados com a situação do funcionário, hoje é ele, amanhã podemos ser nós, um irmão, um filho, um amigo, não são condições de trabalho para ninguém.

Gostava muito que o responsável por esta política passasse um mês a desempenhar estas funções, de pé ao sol ou à chuva e ainda ter a nobreza que nos receber com um sorriso aberto, com uma simpatia e disponibilidades difíceis de encontrar nos dias de hoje.

 

A nossa vontade foi não abastecer ali, mas não tínhamos grande alternativa pois estávamos a caminho de um evento e o depósito estava já a reclamar, mas ficámos decidimos fazer algo para demonstrar a nossa indignação, o Moralez disse: - Tens de colocar isto no teu blog, eu irei escrever para a Galp.

Não podemos aceitar tudo o que nos impingem, até podem dizer que a pessoa estava lá porque quis, mas não sabemos que circunstâncias a levaram a aceitar o emprego, nem tão pouco sabemos se teria noção das condições de trabalho do local, pois quando pensamos numa bomba, pensamos sempre numa cabine de atendimento.

É lamentável que nos dias de hoje ainda existam pessoas capazes de colocar um trabalhador nestas condições. Vergonha Galp, uma grande vergonha.