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Língua Afiada

Depois do São João a segunda-feira é difícil

Depois de um grande fim-de-semana que foi de dois dias, mas parece que foi de três, a segunda-feira é difícil.

 

Na sexta saímos do trabalho e só deu tempo de trocar as sandálias pelas sapatilhas e rumar ao São João no Porto.

Escolhemos ir de comboio, a CP disponibilizou bilhetes pelo preço especial de 2€ ida e volta, infelizmente não fomos a tempo de apanhar a promoção, mas num dia em que o Porto é 100% confusão o melhor é mesmo optar pelos transportes públicos.

 

Não tínhamos marcado jantar, uma loucura, mas nós gostamos de arriscar tudo e apesar do São João pedir sardinhas nós optamos pela francesinha e um dos restaurantes mais complicados de jantar no Porto, estava com filas de espera bem mais pequenas que o normal, jantamos no Lado B – A melhor francesinha do mundo, não sei se será a melhor, mas é muito boa, apesar de na sexta estar um bocado mais picante do que o habitual.

 

Terminado o jantar era hora de escolher o melhor spot para ver o fogo-de-artifício, não foi fácil, eu quero sempre ir para o melhor local possível e fomos das Fontainhas para a Sé e da Sé começamos a descer as escadinhas à procura de uma varanda com boa vista, fomos descendo até chegarmos à Ribeira e a 30m da meia-noite conseguimos subir para a muralha e ter uma das melhores vistas para a ponde D. Luís e para o rio Douro.

Foi uma pena o atraso do fogo, numa total falta de respeito pelas autoridades e pelos milhares de pessoas que aguardam a sessão de fogo, alguns barcos cruzaram os limites de segurança. Mas valeu a pena a espera, mais uma vez o fogo não desiludiu, há vários anos que não tinha coragem de ir para a confusão da Baixa no São João, já tinha saudades do espírito que se vive nas da cidade, do som dos martelos, dos arraiais, do convívio e boa disposição contagiantes.

Do que eu não tinha saudades era das situações degradantes, pessoas em estado alcoolizado é normal, é frequente, mas estava longe de imaginar assistir a um cenário tão insólito, homens a urinar em todo lado, nem sequer era nos cantos era em todo lado e mulheres, mulheres que baixavam as calças e subiam as saias e ficavam ali com as partes íntimas expostas para se aliviarem no meio de dezenas de estranhos, todos eles na posse de telemóveis com câmara fotográfica.

Nem na Queima das Fitas vi isto a acontecer.

Existiam alguns WC’s portáteis espalhados pela cidade, mas claramente insuficientes para a multidão que invadiu as ruas, pois às 20h da noite já era impossível passar ao seu lado, tal era o cheiro que emanavam. Uma pena um Festa tão bonita ser estragada pela falta de condições de higiene.

 

Questões sanitárias à parte o São João continua a ser a noite mais longa do ano, onde a folia toma conta de nós e não há cansaço que nos assista, andam-se km, pula-se, canta-se, trocam-se palavras, sorrisos e gargalhadas com desconhecidos como se fossem amigos de infância.

É uma noite sem ímpar e a noite este ano esteve perfeita, amena, sem calor e sem frio, com céu estrelado como se quer, faltaram os balões, viram-se alguns à rebeldia, mas faltou a magia das centenas de balões a iluminar o céu, mas no meio de tanta festa, foi detalhe sem relevância.

 

No dia 24 decidimos ir conhecer o São João de Sobrado, conhecido pela guerra entre Bugios e Mouriscos, é uma festa diferente onde os coloridos trajes tracionais marcam a diferença, é uma festa um pouco arriscada, pois é fácil sermos sujos pelas personagens mascaradas e até deitados ao chão, há que manter uma distância razoável para assistir aos desfiles e às lutas.

Estivemos pouco tempo e não assistimos aos principiais cortejos e encenações, mas para o ano conto voltar para ver com mais detalhe o desenrolar da história que recria a guerra entre Mouros e Cristãos, podem saber mais sobre esta tradição aqui.

 

 

 

 

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No Domingo o dia foi passado em família e durou mais do que o desejado, estivemos o dia todo fora de casa e quando me deitei estava exausta, escusado será dizer que acordei igualmente exausta, agora tenho de recuperar as horas de sono e o cansaço durante a semana, porque o próximo fim-de-semana promete ter o mesmo nível de festa.

Mudam-se os tempos, persistem as vontades

Quando era criança não precisava de sair de casa para ter acesso a um sem fim de serviços e objetos, no conforto do lar tudo aparecia à porta de casa sem deslocações, sem esforço, sem correrias, sem filas. Todos os dias era dia de alguém passar à porta, eram raros os dias em que não passavam várias pessoas.

 

O primeiro a chegar era o padeiro a deixar o primeiro pão do dia para o pequeno-almoço ainda de madrugada, pela manhazinha passava novamente e, no caso de caso alguém se esquecer de comprar alguma coisa, a meio da manhã aparecia o concorrente a fazer a segunda ronda, já com pastelaria acabadinha de sair do forno e broa quente para o almoço.

 

Recordo-me que às segundas era o dia das senhoras que vendiam enxovais, eram três, ao início da tarde passava a primeira trazia um saco gigante à cabeça, um saco que era talvez maior do que eu e parecia não ter fundo, na braçada trazia um saco mais pequeno, mas ainda assim enorme. Ao final da tarde passava a senhora das malhas que para além das peças do enxoval vendia camisolas e casacos tricotados à máquina por ela com desenhos à escolha do freguês, recolhia as encomendas, havia até competição para ver quem tinha a camisola mais original. De seguida chegavam as irmãs, duas solteiras que faziam a ronda com uma mula, a bicha obediente e cabisbaixa era mesmo uma mula de carga, carregada até lhe doerem os ossos de colchas de renda, lençóis de linho e cobertores de lã.

 

As terças e as quintas ficavam reservadas ao peixe, a primeira a passar era a peixeira mais velha, conhecida por todos envergava com orgulho a canastra, o avental ao xadrez e o lenço com motivos de Viana, apregoava o peixe como se estivesse na lota e deixava sempre uma sardinha ou um verdinho a mais para a menina. Depois passava o peixeiro na sua carrinha com um altifalante ruidoso a transmitir as músicas do rancho folclórico da terra, a cassete era sempre a mesma, vinha acompanhado com a filha que era dedicada, sempre pronta a vender mais uma dourada, devia gostar muito de gatos porque deixava sempre ficar o peixe torto para o bichano como ela lhe chamava.

 

Às quartas passava o “Homem da Farinha” nunca soube o seu nome, deixava as rações para os animais, milho para as galinhas, penso para os coelhos, farinha para os porcos, descarregava os sacos e se a minha mãe demorasse muito a aparecer deixava a encomenda na entrada e arrancava para outro cliente, passava a receber na semana seguinte.

 

No mesmo dia passava a “Mulher das Galinhas” vendia os pintainhos para criação, galinhas poedeiras, ovos, frangos para abate, galos capões para o Natal, perus, patos, lembro-me que estava sempre a pedir à mãe para ter um pato, cheguei a ter dois ou três, mas depois mais crescida a minha mãe achou melhor não me dar desgostos e patos, só o selvagem que o vizinho trouxe da caça e ofereceu ao meu irmão.

 

À sexta passava o vendedor de fruta e legumes, tudo fresquinho e selecionado, nem era preciso perder tempo a escolher as maçãs mais bonitas ou as peras maiores, nem limpar as alfaces e as pencas das folhas velhas esse trabalho já havia sido feito previamente.

 

Ao sábado era o dia mais movimentado, desde os três padeiros diferentes aos vários vendedores de legumes e frutas, vinham de Trás-os-Montes nas suas furgonetes de caixa aberta com batatas, cebolas, castanhas, nozes, avelãs, pinhões, coisas da terra e da época, tudo caseiro e com um sabor maravilhoso.

 

Passava também a “Senhora do Trator” com a sua broa caseira, presunto e salpicão fumados no lar de casa, com o sabor tão característico.

 

Uma vez de 15 em 15 dias passava o “Homem dos guarda-chuvas” um senhor que sempre conheci velhinho e curvado, talvez de andar tanto a pé sempre carregado, que componha as varas dos guarda-chuvas, num tempo é em que os guarda-chuvas duravam uma vida e não se desfaziam com uma rajada de vento, levava-os e 15 dias depois devolvia-os como novos.

 

De mês a mês passava um senhor a amolar as facas e as ferramentas de trabalhar a terra, enxadas, foucinhas tudo tinha direito a ser afiado para laborar melhor.

Segundo a minha mãe “antigamente” até o barbeiro passava a cortar o cabelo e a barba.

 

Hoje, ainda é o dia em o padeiro me deixa o pão para o pequeno-almoço à porta que pago ao final de cada mês, passam ainda várias pessoas a vender um pouco de tudo, ainda passam algumas das que referi no texto, já nenhuma passa a pé, mas as casas estão mais vazias, as pessoas compram menos, preferem comprar noutros locais.

 

Num sábado recente estava em casa dos meus pais quando chegou um senhor de Trás-os-Montes, resolvi sair à rua com a minha mãe para ver se ele trazia castanhas, trazia boas e baratas, comprei, a minha mãe por sua vez comprou maçãs e peras para 15 dias, estranhei, disse-me que ele só passa de 2 em 2 semanas e que a fruta mesmo fora do frigorífico não se estraga, claro que não, é natural.

 

Não pensei mais no assunto até uma conversa casual sobre compras online.

O princípio é o mesmo, a diferença é que agora pagamos em antecipado, não vemos a mercadoria e pagamos muitas vezes o custo de transporte, antigamente víamos, escolhíamos, pagávamos muitas vezes no final do mês e o custo de transporte era diluído nas compras de todas as pessoas, eram só vantagens, a maior de todas, a interação com as pessoas, as conversas, as trocas de novidades, os laços que se construíam, vivências, recordações que pessoalmente guardo com carinho.

Todos se ajudavam, a economia local era a principal beneficiada, uma mão lavava a outra e os pequenos negócios prosperavam com as trocas comerciais entre uns e outros.

 

As vontades permanecem iguais, pois cada vez mais há a necessidade de poupar tempo em compras que só nos causam stress, a forma como o fazemos é que é diferente e que só beneficia os grandes grupos, é por isso importante que os pequenos negócios regressem às origens mas de uma forma reinventada.

Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes, mudam-se os hábitos de consumo, mas não se mudam as vontades, continuamos a gostar de estar no conforto do nosso lar e que as coisas cheguem até nós sem esforço.

 

Mudam-se os tempos, persistem as vontades.

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