Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Língua Afiada

Coisas que acontecem lá em casa #12 – Eletrodomésticos

A lâmpada do forno fundiu e parece ser impossível retirar a proteção para a mudar, depois de um olhar atento ao estado geral do forno enquanto o limpava no sábado à tarde, pensei – Acho que vou comprar um forno novo.

O dito já tem quase 11 anos e nunca me encheu as medidas, especialmente no que toca à confeção de bolos, a ideia pareceu-me boa e estava já com o discurso aprumado para dar a notícia ao meu marido.

Entretanto a eletricidade foi-se abaixo, o Moralez diz-me que pelo disparo tinha sido um curto-circuito, pois tinha tentado ligar novamente e não tinha conseguido.

Inspeção a todos os aparelhos eletrónicos lá de casa, descobriu que tinha sido a máquina de lavar roupa, que após inversão a posição da ficha voltou a arrancar e a trabalhar sem problemas.

Só que não, uns 20 minutos depois chega a triste notícia da sua morte anunciada.

Moralez – A máquina de lavar roupa avariou e acho que é o controlador.

Eu – Já não vou comprar um forno novo.

Moralez – Forno?

Eu – Estava a pensar comprar um forno novo, agora já não há forno para ninguém.

 

Ontem na hora de almoço uma colega de trabalho pergunta:

– Então já decidiste Bimby ou Yammi?

Eu – Máquina de lavar roupa.

 

Planos adiados, nem forno, nem máquina de cozinhar que agora o mais importante é mesmo ter a roupa lavadinha.

A boa notícia para vocês? É que provavelmente terão aqui um guia para adquirir uma máquina de roupa em breve, porque sou vossa amiga e vou partilhar convosco a pesquisa exaustiva que fizer ou então vou só comprar a mais económica e não se fala mais no assunto.

Introspecção

Sou otimista, alegre e muito positiva, de trato fácil e sorriso aberto, sou uma pessoa de quem se gosta facilmente e que se inveja facilmente, sem qualquer pretensão, a felicidade incomoda muito mais do qualquer outra característica, mais do que o dinheiro, do que a beleza e do que a inteligência. A minha boa disposição, confundida com demasiada leveza e facilidade com felicidade importuna e inquieta muitas pessoas.

Tenho uma carapaça dura, uma armadura que me escuda das energias negativas, dos desgostos, das frustrações, o rir, procuro rir e sorrir muito porque me faz bem, escolho estar bem-disposta porque a vida é muito pior se escolhermos encara-la com má disposição.

Sempre escondi as minhas inseguranças no otimismo, por vezes exagerado, mas que sempre foi a minha tábua de salvação, acreditar que tudo correrá bem é o primeiro passo para que efetivamente tudo corra bem.

Sempre escapei ao que desejava e não obtive com o entusiasmo no que tive e consegui, procurei sempre rodear a frustração de conquistas, saborear o que tenho para não sentir falta do que não tenho.

Convivi sempre bem comigo, soube regular a minha autoestima entre o que era, sou, e o que poderia ser e consigo ser, consciente que só depende de mim melhorar, nunca procurei culpados, assumindo que as minhas falhas são minhas e cabe a mim colmata-las.

Considero-me bem resolvida, equilibrada e feliz, mas falta-me ainda muito para estar completa, tranquila e descansada, falta desligar de algumas pessoas, arrumar assuntos em gavetas, definir prioridades futuras e conseguir dedicar-me apenas ao que me faz feliz, aí estarei perto da plenitude, que estou certa nunca atingirei porque só a insatisfação e a procura por mais dão sentido à vida.

Estou a atravessar simultaneamente uma das fases mais maravilhosas e mais tristes da minha vida, uma dualidade impossível que nunca concebi viver, uma aprendizagem diária, no verdadeiro sentido da palavra um dia de cada vez.

Um teste à minha resiliência, à minha personalidade, aos meus valores e ao meu orgulho, um teste que vou superando dia após dia, tentando não perder o foco, são muitas as vezes que tenho de me relembrar do porquê, é muito fácil ceder, mesmo sabendo que estamos certos, quando tudo conspira para esquecermos.

Não esqueço, recuso-me deixar que me pisem novamente, recuso-me a deixar que me tratem repetidamente como uma criança, desprovida de bom senso, inteligência e vontade, ao permitir este tipo de comportamento estamos a dizer como queremos ser tratados, durante anos não consegui, agora não consigo e nem quero esquecer que mereço respeito e consideração.

Travo esta batalha num momento frágil, com hormonas ainda à procura do seu devido lugar, com novas rotinas a estabelecerem-se e com a autoestima mais baixa que alguma vez tive, nunca tive problemas de autoestima, travo uma batalha com eles agora, na pior altura.

No meio deste turbilhão recuperei uma caraterística que durante anos preferi esconder, decalcar e esquecer, a intuição, a premonição, a sensibilidade para as energias, não sei bem o que lhe chamar, mas com a qual me esqueci de como saber lidar, não a sei interpretar o que me causa imensa angústia e ansiedade.

“Sempre tive um dedo que adivinha”, quem sabe se não é apenas inteligência emocional, mas consegui sempre antever muitos comportamentos das pessoas, antecipar reações e ler nas entrelinhas, mas neste momento intuo mais do que isso, é algo diferente e um pouco assustador.

Acredito que a vida é feita de ciclos que se iniciam quando existem mudanças profundas na nossa vida, ter um filho é uma das mudanças mais radicais que podemos ter, uma mudança que nos desnuda a nós e quem nos rodeia, sem carapaça, sem subterfúgios somos obrigados a conviver com a realidade que nem sempre é a que esperávamos.

Estava preparada para a maternidade, para lidar com toda a responsabilidade, peso, dedicação, abnegação a que isso obriga, mas não estava preparada para perceber a dura realidade que me rodeava, ela sempre esteve lá, não quis ver porque era mais fácil ignorar, desviar o olhar, tentar justificar, desvalorizar, a partir do momento em que engravidei passou a ser impossível ignorar, a partir do momento em que a minha filha nasceu passou a ser impossível aceitar.

Não aceito, recuso-me, já pensei e repensei, já vi a situação de diferentes ângulos, já calcei os sapatos dos outros e não encontro motivo, justificação, sentido nas suas atitudes, resta-me a resignação e aceitar que a diferenciação que sempre senti não está apenas na minha cabeça, não é um capricho, uma ideia fixa, é real e efetiva e que sempre me afetou mais do que quis crer.

É triste que constituir família nos faça “perder” a nossa família, é difícil, é duro, mas prefiro encarar a realidade e aprender a viver com ela do que passar o resto da minha vida a viver de migalhas de atenção, a ter de provar constantemente o meu valor e a fingir que está tudo bem.

Não, não está tudo bem, mas ficará tudo bem. Há todo um processo para lá chegar, uma espécie de luto, de introspeção, de crescimento e amadurecimento, levará o seu tempo, será um percurso muitas vezes complicado, com muitos percalços, mas não há atalhos, nem caminhos mais curtos, um trilho solitário por mais acompanhada que me sinta, que percorrerei sem medos e sem carapaças confiante que no fim tudo correrá bem.

Voltar a ser Mulher depois de ser Mãe

"esse amor imensurável veio acompanhado de um medo desmedido e incompreensível."

 

Os primeiros dias foram repletos de emoções, um amor que transbordava dentro de mim, que não cabia sequer dentro do peito tomou conta de todo o meu ser, já me sentia mãe há muito tempo, mas foi ali no momento em que te vi sair de dentro de mim e te tomei nos meus braços que me tornei efetivamente mãe e esse amor imensurável veio acompanhado de um medo desmedido e incompreensível.

Na primeira noite não dormi, na segunda os meus olhos fecharam-se por alguns instantes, apenas para logo se abrirem para assegurar-me de que estavas bem. Nunca desejei tanto a minha casa, a minha cama, o meu chuveiro, os meus objetos, os meus cheiros, o meu mundo que agora seria o teu.

 

"é fácil esquecermo-nos de nós, é muito fácil esquecermo-nos que a vida não se resume a ser mãe"

É incompreensível como um ser tão pequeno e tão frágil enche uma casa, mas a casa passou a ser tua e pensada para ti, a logística foi-se aprimorando durante os dias e chegamos a um meio-termo, conseguimos que nem toda a casa fosse exclusivamente tua, mas foi difícil, ainda hoje é, mas não é necessariamente mau, gosto de olhar e perceber que aquele brinquedo ou aquela fralda de pano está ali porque existes na minha vida e a minha vida ficou muito mais rica contigo.

Os primeiros dias são uma loucura, é uma rotina impossível, sonos tão curtos, necessidades que tão prontamente têm de ser atendidas, é fácil esquecermo-nos de nós, é muito fácil esquecermo-nos que a vida não se resume a ser mãe, principalmente porque não conseguimos deixar de ficar embebecidas com qualquer coisa que o bebé faça, tudo é especial, o mais pequeno gesto arranca-nos suspiros e os sorrisos enchem-nos de tanto orgulho e amor que ficamos estarrecidas, embasbacadas e sem palavras.

 

"Voltar a ser Mulher depois de ser Mãe nem sempre é um processo natural"

Necessitamos de tempo para nós, mas as nossas necessidades ficam sempre para último lugar, depois de cuidar do bebé é preciso tratar de uma série de coisas para garantir que o bebé tem tudo o que necessita, entre compras, roupas e tarefas domésticas, sobra pouco tempo para sermos nós e na maioria dos dias nem nos lembramos disso.

Voltar a ser Mulher depois de ser Mãe nem sempre é um processo natural, estamos de tal forma envolvidas e dependentes da nossa cria, acho que a certo ponto os papéis se invertem, as mães ficam mais dependentes dos bebés do que os bebés das mães, que é difícil enquadramos na nova rotina toda a nossa vida.

 

"Respiramos fundo e fazemos um esforço para esquecermos que parecemos um trambolho e tentamos ficar o mais apresentáveis possível."

No meu caso, o primeiro grande esforço que fiz foi para manter a vida social, ficar em casa para além de não ser saudável, afasta-nos das pessoas e é importante ter vida social para além do bebé, confesso que muitas vezes pensei que seria mais fácil recusar convites e ficar em casa, a logística para sair era imensa, ainda é, mas não iria cair no erro que tanto criticara, não caí, muitas vezes saí contrariada, mas saí, ficar em casa não podia ser a opção.

Não é fácil ir a festas, encontros, jantares sendo mãe há poucos dias ou meses, ultrapassada a logística do bebé é preciso ultrapassar a nossa e essa, com as devidas exceções, creio ser a mais difícil, para além da falta de tempo há que contar com a falta de motivação para nos arranjarmos, abrimos o roupeiro e praticamente nada nos serve, vestir roupa de grávida não abona em nada ao nosso estado de espírito, olhamos ao espelho e aquele brilho que há uns meses atrás exibíamos desapareceu, temos a pele baça, o cabelo desnutrido, os olhos fundos e o semblante carregado de sono, preocupações e tarefas que gostaríamos de ter realizado, mas que ficaram por fazer.

Respiramos fundo e fazemos um esforço para esquecermos que parecemos um trambolho e tentamos ficar o mais apresentáveis possível.

 

"ficamos sempre para último lugar."

O corpo não reage como esperávamos que reagisse, nem com contínuas noites mal dormidas, alimentação a horas incertas e com a incessante sensação de fome e sede o nosso organismo se contraí, pelo contrário, às vezes expande, incha por falta de descanso. Fazemo-nos valer da máxima foram nove meses a crescer, agora serão necessários noves meses para emagrecer.

Tomamos banhos apressados, fazemos um esforço para cuidar de nós, mas nunca temos tempo para o fazer, pensamos é hoje que vou hidratar a pele do corpo, esse hoje nunca chega, o tempo passa, mas nunca chega para nós, a rotina fica mais fácil, mas não há nela lugar para nós, ficamos sempre para último lugar.

 

"Ser Pai também não é fácil"

A Mulher fica para segundo plano e com isso a relação com o marido também, a nossa atenção está no bebé e parece que nada que o marido faça é suficiente, um parêntesis aqui para agradecer ao meu, esteve, está sempre presente, sofrendo horrores com as minhas variações de humor, tem aguentado estoicamente todas as minhas loucuras e devaneios, muitas vezes sem sequer um agradecimento. Amo-te meu amor, sem ti esta aventura não teria sentido, obrigada por estares sempre ao meu lado.

A relação ressente-se, não há maior prova, maior teste a uma relação que o nascimento de um filho, tudo muda, as prioridades estabelecem-se numa ordem completamente diferente e se as mães não têm tempo para si, dificilmente têm tempo para cuidar e mimar os maridos, companheiros.

 

Ser Pai também não é fácil, sabemos bem disso, mas depois pensamos na nossa abnegação e entrega e pensamos para nós é muito mais complicado, será? Não sei, sei apenas que são posições diferentes e igualmente importantes, sei que as mães se sentem frustradas por não conseguirem fazer tudo e os pais sentem-se muitas vezes impotentes por não conseguirem ajudar, cabe a nós inclui-los ao máximo na vida dos nossos bebés, excluí-los só prejudica todas as relações. Ninguém trata do nosso bebé como nós, certo, mas também ninguém trata os nossos bebés como os pais os tratam, mesmo quando lhes vestem as coisas mais engraçadas.

 

"É muito fácil deixar-nos tomar pela culpa e pela angústia"

No meio desta nova dinâmica familiar, é difícil sentir-nos bem connosco, parece que estamos sempre a falhar em alguma esfera, não conseguimos atender a todas as necessidades e esse mito de que é possível ser-se a mãe, esposa, familiar e amiga perfeita não passa de uma utopia perpetrada por mulheres frustradas que gostam de ver as outras ainda mais frustradas que elas.

É muito fácil deixar-nos tomar pela culpa e pela angústia, caso tenham esses sentimentos procurem ajuda, a maternidade é bela, mas não é um mar de rosas, nem sequer um passeio no parque, é um mundo novo, muito atribulado, povoado de incertezas e inseguranças.

 

Voltar a ser Mulher depois de ser Mãe é complicado, com leite a brotar dos seios sem aviso, quilos a mais nos locais menos apropriados, inseguranças, sem tempo para nos sentirmos bonitas, fará desejadas, com mil e um receios, com mil e uma coisas na cabeça, às vezes tudo o que precisamos é de um carinho, de um abraço, mas estamos demasiado cansadas para erguer os braços.