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Língua Afiada

Inveja

Este sentimento pelo qual sinto o maior desprezo tem sido um tema incontornável da minha vida e consequentemente do blog, embora tenha aprendido a gerir mais friamente a situação de ser alvo de inveja, continuo a ter dificuldades em entender os motivos das pessoas invejosas, compreendo que se possa sentir uma pontada de inveja perante uma situação, algo involuntário, mas para quê perpetuar esse sentimento?

 

É mais fácil aceitar a inveja que vem de pessoas com vidas complicadas, seja por questões de doença, monetárias, sociais, pessoas que não conseguiram alcançar nenhum objetivo que tinham pensado para a sua vida e como tal sentem-se mal e invejam o sucesso dos outros, não é desculpa mas é de mais fácil compreensão.

Muito mais difícil de compreender é a inveja que vem de pessoas bem-sucedidas em diversas áreas da vida, é esse tipo de inveja que me levou a escrever sobre o tema novamente, não consigo entender essa necessidade de invejar, de se sentir mal com a felicidade dos outros, quando a vida tem sido generosa com elas.

 

Infelizmente eu e o Moralez despertamos inveja, já tentámos perceber porquê e a única coisa que conseguimos encontrar é nossa relação enquanto casal, revisitamos toda a nossa vida, avaliamos, medimos, fizemos suposições, refletimos e não há nada, absolutamente nada que nos faça excecionais ou sequer diferentes, não somos lindos, não somos ricos, não temos empregos de sonho, não temos carros luxuosos, não usamos roupas de marca, vivemos uma vida simples de acordo com as nossas possibilidades.

Mas somos um casal unido, com todas as dificuldades, discussões, pontos de vista diferentes, personalidade fortes que muitas vezes chocam, somos unidos quando na verdade teríamos tudo para não ser, já que nenhum dos dois tem um feitio fácil, se calhar é essa nossa capacidade de fazer da diferença, da individualidade, da personalidade distinta uma união forte e respeitadora da entidade de cada um que nos faz diferentes.

 

Não estamos sempre de acordo, não temos problemas em discordar, mas estamos sempre juntos, há sempre um consenso e as opiniões diferentes estão devidamente arrumadas em lugares que não prejudicam as metas e os sonhos e jamais um tenta anular o outro ou menospreza a sua opinião.

Há sempre arestas a limar, mas no essencial e importante somos iguais, defendemos os mesmos valores e os mesmos ideais, tudo o resto é acessório e pode ser discutido caso a caso, não há imposições, temos as nossas ideias bem definidas e nenhum dos dois é manipulado ou guiado pelo outro.

Será esta capacidade de fazer conviver pacificamente e em harmonia duas personalidades tão díspares e tão carregadas que desperta inveja?

 

A nossa relação não é perfeita, mas mentiria se dissesse que somos um casal que passa despercebido, somos muito espontâneos, alegres, cúmplices e passámos realmente a vida juntos, somos inseparáveis, normalmente onde está um o outro não anda longe.

O nosso segredo é mesmo esse encontrar coisas que adoramos fazer juntos, será que é isso que incomoda tanto as pessoas?

Custou a crer que fosse uma coisa tão simples, que pode ser trabalhada e acessível a todos, mas tive a certeza que era isso no momento em que percebi que existem mais casais com este problema, que por aparentarem ser felizes e unidos são alvos fáceis de inveja.

Raramente nos queixámos, raramente nos apanham com má cara ou tristes, tentámos estar sempre de bem com a vida mesmo quando ela nos dá patadas brutais sem aviso, ser alegre e bem-disposto incomoda realmente as pessoas, uma pena que não tentem também elas estar de bem com a vida em vez de invejar a vida dos outros, porque a grande diferença não está no que temos, mas em como reagimos e encaramos o que a vida nos dá.

Aprender com a vida dos outros

Não devemos criticar, julgar e muito menos comentar a vida privada das pessoas com quem convivemos, é falta de respeito e falta de educação, no entanto, nem só pelas nossas vivências aprendemos, podemos e devemos aprender muito com as dos outros, observando, absorvendo e tirando as nossas conclusões.

Através da observação é fácil compreender algumas situações e perceber o porquê de algumas realidades, não existem formas certas de estar na vida, cada um vive do modo que considera melhor e mais adequado à sua personalidade e felicidade, mas independentemente do feitio de cada um há um conjunto de estratégias que facilitam a vida a qualquer pessoa e que infelizmente não vejo as pessoas a recorrerem a elas.

 

Não sou uma ditadora da organização e do planeamento, tento ser descontraída e relaxada até ao ponto que isso não me cause constrangimentos, stress e despesas desnecessárias, é precisamente neste terceiro ponto que tenho percebido que muitas pessoas falham, a falta de organização e planeamento por exemplo das compras pode elevar os gastos de uma família para o dobro.

É do conhecimento geral que os portugueses têm dificuldade em poupar, em primeiro lugar os baixos salários dificultam a poupança, mas a falta de organização e a falta de consciencialização para a importância da poupança dão uma grande ajuda, juntando a estes fatores o crédito fácil, temos uma população endividada e sem poupanças constituídas.

Decidir gastar o que se ganha por opção ou por necessidade é um direito de quem ganha o seu dinheiro, embora pessoalmente possa considerar um comportamento irresponsável, cada um vive como quer, o que me causa estranheza são as pessoas que se queixam que não conseguem poupar quando nada fazem com vista à poupança.

 

Com os anos fui aprendendo que não é preciso passar pelas situações para saber o que fazer, ouvir os conselhos de quem as viveu e observar o seu comportamento dá-nos uma ideia de como agir e de como prevenir alguns problemas.

Quando somos jovens valorizamos os sonhos, esquecendo muitas vezes o lado funcional e prático da vida, com a maturidade as prioridades invertem-se, os sonhos mudam e o simplificar passa a fazer parte do nosso quotidiano.

Já vivi o suficiente para perceber que o que nos faz falta e nos faz felizes é quase sempre o que não conseguimos comprar, é o que está próximo e o que não conseguimos muitas vezes controlar, mentiria se dissesse que isso não mudou a minha visão da vida e do mundo.

Não obstante, há mínimos de organização e planeamento para conseguirmos ter uma vida tranquila, não conseguimos evitar um sem fim de percalços e problemas, mas os que podemos prever só quem é irresponsável não previne, se podemos usar estratégias e truques para termos uma vida mais tranquila porque não fazê-lo?

 

É precisamente por ter aprendido com a vida dos outros que há muito que sei que nada nesta vida é certo, que tudo muda numa fração de segundo, que não podemos contar com o ovo no cu da galinha e que os planos devem depender apenas de nós.

Os planos são cada vez mais simples, os sonhos cada vez mais concretizáveis e a vida cada vez prática, porque com a idade os problemas que nos vão surgindo são cada vez mais e mais frequentes por isso há que simplificar ao máximo para minimizar os danos.

 

Não ignorem os conselhos dos mais velhos, há uma espécie de sabedoria que só se adquire com a idade, ouçam as opiniões quem já sabe mais e melhor, até podem não seguir as sugestões e fazer exatamente o contrário, mas ouçam primeiro, tirem as conclusões depois.

Mito – Quem trabalha em Agosto não faz nada

Todos os anos é a mesma situação, quem cobre as férias da empresa é frequentemente vítima de piadas que não têm graça nenhuma, que se centram nas supostas férias pagas que temos.

Para os que na última quinzena de Agosto vão de férias, os que ficam a trabalhar, ficam de férias também, pois no seu pensamento quadrado e fechado em Agosto não há nada para fazer, nas suas cabecinhas alienadas acham que a empresa segura cá as pessoas por capricho, por preferência, por cegueira ou porque lhes apetece.

Uma novidade, o mundo não para em Agosto, nem sequer Portugal, muitas empresas não encerram, muitas pessoas trabalham e existem clientes, fornecedores que precisam de respostas, há correio físico, há e-mails, dúvidas, contactos, telefonemas, pagamentos, recebimentos e um sem fim de trabalho administrativo para executar, para não falar que é uma excelente altura para executar trabalho criativo e de planeamento, em menos de nada estamos a virar o ano e é preciso definir objetivos, estratégias, pedir orçamentos e tomar decisões.

 

Não gosto de cair em lugares comuns mas não passa de inveja, inveja de quem trabalha em Agosto conseguir escolher, dentro das limitações da função, uma altura diferente de férias e por isso conseguir aceder a promoções, então lá vem a queixa – se pudesse tirar férias quando quisesse também ia para fora.

Ninguém tem culpa de as pessoas não conseguirem abrir uma página de Internet para encontrar uma promoção, de terem receio de ser elas próprias a realizar as marcações e de quererem levar a casa às costas, acabam por ir todos os anos para o Sul de Portugal, com o Algarve no topo da lista, com tanta oferta fazem uma viajem de carro praticamente sempre para o mesmo local e convenhamos que em Agosto o Algarve não é propriamente um destino económico.

Livremo-nos de tirar férias logo ali em Março/Abril se o fizermos somos vítimas de ainda mais piadas e graçolas patéticas, as pessoas não aguentam pensar que ainda lhes faltam largos meses para terem as suas férias.

 

As pessoas não sabem o que querem, porque minutos depois já estão a dizer que trabalhar em Agosto deve ser muito mau, porque os outros estão todos de férias e toda a gente põe fotos das férias, lá vem a inveja outra vez, que é chato não poder conciliar férias com a família e amigos. E que para quem tem filhos é muito complicado porque quase tudo fecha na última quinzena e quem iria tomar conta deles.

No fundo estão contentes por conseguirem ter férias quando a maioria das pessoas tem, mas não demoram muito a tempo a recuar para dizer que em Agosto devemos fazer que trabalhamos, que quase de certeza não há nada para fazer e depois até vamos de férias fora da época alta e arranjamos boas promoções, que acabamos por ter mais sorte.

 

E é isto, o povo nunca está satisfeito, a vida dos outros faz-lhe cócegas, dores de cabeça, fá-los pensar em demasia e a fazer suposições, tirar conclusões e dar vereditos do que é melhor e pior sem qualquer conhecimento de causa.

Querem a verdade? Não existe solução perfeita, em Agosto na realidade há mais trabalho porque para além do nosso temos de estar disponíveis para fazermos o das pessoas que se encontram de férias, que podem até ser de outros departamentos, se por um lado é interessante escolhermos o período de férias, por outro é quase impossível agendar férias com família e amigos, longe vão os tempos em que marcávamos férias com outras pessoas.

Preocupem-se em gozar e aproveitar o vosso período de férias quando podem e deixem se se preocupar com o trabalho e com as férias dos outros, não há paciência para tanta pequenez e mesquinhez de pensamento.